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O "sonho" de Martin Luther King custa 20 dólares

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O "sonho" de Martin Luther King custa 20 dólares

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O senso comum diria, possivelmente, que o filme do discurso considerado como o mais importante da História americana do século 20 seria de acesso universal. Que a mítica retórica de Martin Luther King, o “sonho” da liberdade e da emancipação, poderia ser encontrada facilmente online. Mas basta uma pesquisa rápida na internet para perceber que não, que as palavras que contribuíram para mudar os Estados Unidos, proferidas nas escadas do Lincoln Memorial, em Washington, não estão disponíveis para toda a gente.

O que existe são alguns fragmentos vídeo de fraca qualidade. Isto porque a EMI, mais tarde integrada no grupo Sony, adquiriu a gestão dos direitos de autor em 2009. Ou seja, a gravação do discurso completo de Martin Luther King não é de domínio público. Para a ver, há que comprar um DVD que custa 20 dólares (cerca de 15 euros). A utilização não autorizada das imagens é penalizada legalmente, depois de a família de Luther King ter chegado a acordo com a EMI, por uma quantia não divulgada.

A saga dos direitos de autor sobre o discurso começou logo em 1963, quando o próprio ativista processou a Mister Maestro e a Twentieth Century Fox Records por venderem o registo dos 17 minutos de alocução. Todos os eventuais proveitos deveriam ser canalizados para o seu movimento de direitos civis, terá argumentado.

Em 1999, um juiz americano deliberou o seguinte: o discurso havia sido concebido para efeitos mediáticos, não para o público em si. Portanto, o seu uso posterior teria de ser sujeito a limitações. Uma controversa decisão judicial que vinha na sequência de episódios como o pagamento de 12 mil dólares por parte do jornal USA Today por publicar indevidamente todo o discurso.

Em 2001, a francesa Alcatel pagou uma soma não especificada à família de Luther King para obter a permissão de colocar um excerto da alocução numa publicidade. A indignação foi generalizada. Nas palavras do reverendo Joseph Lowry, que colaborou com o ícone americano: “Se Martin fosse vivo, ia já ter com a direção da Alcatel para perguntar ‘quantos negros é que têm aqui a trabalhar?’”

A mercantilização da luta de Martin Luther King leva Evan Greer, um ativista da Fight for the Future, uma associação não-lucrativa que defende o poder de transformação social que a internet pode assumir, a considerar que as limitações de difusão estão a privar muitos jovens do contacto com o momento histórico. “Seria muito importante que as pessoas conseguissem encontrar e partilhar o discurso”, afirma Greer.

O que está previsto é que o vídeo completo caia no domínio público em 2038.