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Mineiros do Chile, 3 anos depois: "a mina tem uma parte da minha vida"

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Mineiros do Chile, 3 anos depois: "a mina tem uma parte da minha vida"

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“Estamos bem no refúgio, os 33”. A mensagem ecoou há três anos no mundo, anunciando a vida dos mineiros presos na mina de São José, em Copiapó, a norte do Chile. Quebrara-se o silêncio, 17 dias depois da estrutura da mina ceder, sepultando os mineiros a mais de 600 metros de profundidade. Ainda havia esperança.

Até àquele momento tinham conseguido sobreviver com apenas duas colheradas de atum, meio biscoito e meio copo de leite, a cada 48h, com uma temperatura ambiente de 33 graus e com humidade de 90%. Foram mais de dois meses sem ver a luz do dia.

No dia 12 de Outubro, um deputado local avançou a notícia: o resgate, previsto para a meia-noite de quarta-feira (hora local), seria antecipado para as 20h desse mesmo dia.

Três anos depois, a onda de solidariedade e emoção que em tempos percorreu o mundo desfez-se no esquecimento.
O que é feito dos heróis da mina de São José?

A euronews conseguiu contactar Daniel Esteban Herrera, um dos 33 mineiros, através da rede social Facebook.

Após o resgate, Daniel Esteban Herrera passou um ano e meio a ser seguido por um psicólogo. Tem hoje 30 anos e continua a trabalhar numa mina. A experiência vivida ensinou-o a nunca baixar os braços perante as adversidades da vida e é essa mensagem que procura divulgar nas palestras em que participa. Tentou regressar ao subterrâneo, mas a 100 metros sentiu-se impelido a correr dali para fora. O medo ainda lhe prende os passos, por isso, fica-se pela superfície, onde se sente seguro.

Sandra Valdivia, euronews – Em que medida a experiência afetou a sua vida?

Daniel Herrera, membro dos “São José 33” – No meu caso, ensinou-me várias coisas: a valorizar a minha família; a ver a vida de uma perspetiva diferente; a desfrutar o dia-a-dia. Custaram-me imenso os 70 dias passados no subterrâneo, sentir-me atulhado naquele buraco, sem comida.

euronews – O que mudou nestes três anos?

Herrera – Aprender a desfrutar a vida mudou as minhas emoções. Ainda me sinto afetado, claro, mas tenho que ultrapassar isso, passo a passo. Não gosto de ver a minha família sofrer por causa desta experiência traumática – eles não receberam qualquer tipo de ajuda, nada.

euronews – Afirma que os famíliares não receberam assistência e acusa as autoridades de não cumprirem as promessas. Na sua opinião, o que deveria ter sido feito?

Herrera – As famílias também precisavam de ajuda e de algum tipo de tratamento psicológico. Alguns dos nossos familiares ainda choram. Têm pesadelos quando falam sobre o que se passou. Eles também sofreram profundamente e ninguém cuidou deles.

euronews – Sente-se abandonado pelas autoridades e pelos Media?

Herrera – Pelas autoridades, sim. Prometeram-nos o mundo, mas as palavras foram levadas pelo vento. Rapidamente se esqueceram das promessas que tinham feito. Pessoalmente sinto que fui manipulado; as autoridades usaram-nos e depois rejeitaram-nos como se fossemos copos de café descartáveis.

euronews – Em que situação se encontra o processo de indemnizações?

Herrera – Não temos qualquer notícia. É um assunto do nosso advogado. A única coisa que sabemos é que a queixa feita contra eles [da companhia mineira] foi arquivada. Leva-me a pensar que existe uma intenção por trás do acidente vivido. Dado o pouco controlo existente, este tipo de acidentes continua a acontecer. Por isso, somos levados a pensar que estas minas não são monitorizadas corretamente, mesmo que haja muito dinheiro envolvido neste setor. A justiça não fez nada, a não ser dar o seu veredito nos processos iniciais sem uma investigação adequada.

euronews – Continua a trabalhar? Em caso afirmativo, onde?

Herrera – Sim, na Codelco Radomiro Tonic, em Calama. Continuo a trabalhar nas minas, mas agora na superfície, como camionista. Trabalhar nas minas em céu aberto é muito melhor e muito mais seguro. Radomiro Tomic é a área mais produtiva de Codelco. Antes de trabalhar lá, estive na Panal Ltda, mas também não trabalhei no subterrâneo.

euronews – O que sentiu quando recomeçou?

Herrera – Senti-me muito bem! Trabalhar na superfície da mina é um sentimento fantástico.

euronews – Acha que conseguirá regressar ao subterrâneo?

Herrera – Sim, visitei algumas minas, o que me provocou ansiedade, medo e suspeição. Há pouco tempo regressei a São José. Entrei por uma fenda e senti algo que nunca tinha sentido antes. Agora, passados três anos, acho que não conseguirei trabalhar de novo no subterrâneo.

euronews – Pode descrever o que sentiu em São José?

Herrera – Quando entrei na mina senti um enorme medo, desespero e angústia. Senti que ainda há muito, no meu intímo, por resolver. Não tinha percorrido nem 100 metros quando dei por mim a sair de lá a correr e nem me tinha apercebido que uma parte da minha vida tinha ficado na mina São José.

  • Regreso a São José

    Facebook

euronews – Continua em contacto com os restantes membros da “São José 33”? Como estão os seus colegas?

Herrera – Sim, estou em contacto com eles e soube que alguns estão realmente mal, tanto psicologica como financeiramente.

euronews – Estão a receber algum tipo de apoio? Ou tratamento?

Herrera – Isso não sei, mas alguns recebem ajuda do governo. São apenas 12 dos 33, apesar de todos termos vivido o mesmo, da mesma forma. E trata-se de uma ajuda financeira que poderia ajudar todos. Alguns dos homens estão psicologicamente mais afetados por causa dos problemas financeiros.

euronews – Porquê só 12 dos 33? Qual foi o critério?

Herrera – Apenas os que têm mais de 55 anos e os que não conseguiram trabalhar mais após o acidente.

euronews – Depois do épico resgate, muitas pessoas afirmaram que estariam a receber muito dinheiro e foram criticados por isso. Isto é verdade? Continuam a ser criticados?

Herrera – Sim, recebemos algum dinheiro, mas não foi muito. Recebemos cerca de oito milhões de pesos chilenos [cerca de 11 mil euros]. E, sim, é verdade que há pessoas que continuam a dizer que estamos “forrados de prata”.

euronews – Tornaram-se celebridades mundiais por alguns dias. Como se sentiu quando esse interesse começou a desvanecer?

Herrera – Não senti nada. Não procurava fama nem glória, queria apenas sentir-me confortável comigo mesmo. Fui seguido por um psicólogo durante ano e meio e participei em palestras motivacionais onde ajudei outros, contando-lhes a minha experiência. Consegui ultrapassar isto com uma mensagem de esperança: nunca baixar os braços perante qualquer adversidade da vida.

euronews – Gostaria de transmitir alguma mensagem às autoridades ou aos seus colegas?

Herrera – Para as autoridades: que desilusão, novamente. Para os meus colegas: têm de ser fortes e ultrapassar isto. Continuem a seguir em frente.

euronews – Muito obrigada pelo seu tempo. Coragem.

Herrera – Sim, obrigada. Continuaremos com todo o ânimo.