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A luta europeia contra os agressores microscópios

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A luta europeia contra os agressores microscópios

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Silenciosos, invisíveis, sem cheiro, sem escrúpulos, andam à nossa volta, no vinho, na comida e matam. Ou simplesmente adulteram a qualidade dos produtos que consumimos. Estão, porém, em desenvolvimento na Europa tecnologias que nos vão permitir prevenir o ataque destes agressores microscópios, de que não temos perceção a olho nu. Todos os anos, por exemplo, perdem-se milhares de vidas na Europa apenas por causa das fibras de asbestos ou amianto que podem circular pelo ar que respiramos. Através da comida podemos também ser “atacados” por diversos produtos tóxicos, muitas vezes oriundos de pesticidas usados, por exemplo, nos cereais e que vão contra as normais europeias.

A tecnologia, contudo, está também em desenvolvimento como ajuda, num outro exemplo, à produção de vinho. Um pequeno aparelho está a ser aprimorado em Portugal com vista a melhorar a qualidade do apelidado “néctar dos deuses” sem ter de recorrer a uma bola de cristal para prever se a colheita irá ser boa ou não. É uma das três histórias que propomos dar a conhecer nesta edição de Futuris.

Começamos em Inglaterra, onde encontrámos um grupo de operários de construção civil a trabalhar num edifício em obras. Eles não estão sozinhos no meio do entulho. Alguns investigadores estão a trabalhar no protótipo do projeto Alert e instalaram uma pequena caixa ligada a um computador portátil. Com ela, procuram identificar a presença de um temível, praticamente invisível e inodoro inimigo do ser humano: as fibras de asbesto ou amianto, um dos maiores responsáveis por algumas das mais graves e muitas vezes fatais doenças pulmonares, entre elas, claro, o cancro do pulmão, que pode demorar até 20 anos a manifestar-se.

Chris Stopford, da universidade de Hertfordshire, esclarece que a caixa é “o protótipo de um detetor de asbestos”. “Está ligada a um portátil, que regista e trabalha sobre os dados recolhidos. O ecrã mostra-nos o padrão de dispersão das partículas que passam através do aparelho.”

A equipa de investigadores está a testar o aparelho “num local muito poeirento”. “Mas este”, especifica Stopford, “é um tipo de pó vulgar, não é fibroso”, como tal, não estão a ser identificadas “quaisquer fibras de amianto”. “O aparelho funciona com o ar que entra por uma abertura na caixa e vai para uma câmara onde, primeiro, as partículas são iluminadas por um laser e, depois, o padrão de dispersão obtido é isolado e exposto a um campo magnético. Se for uma fibra de asbestos ou amianto, a partícula irá rodopiar quando exposta ao campo magnético”, explica-nos o físico da universidade de Hertfordshire.

Foi através desta combinação da reação de rodopio das partículas com os “lasers” que os investigadores criaram o aparelho ainda em fase embrionária. “Esta fibra é cerca de mil vezes mais larga do que uma fibra de asbestos”, diz Chris Stopford, enquanto nos mostra um exemplar de teste, prosseguindo: “Quando a expomos ao raio laser, ela ilumina-se da mesma forma que o asbestos faria e revela um padrão de dispersão similar.”

O trabalho dos investigadores também envolve, porém, fibras de amianto verdadeiras, o que levanta questões de alto risco na investigação. Hoje em dia, este é um trabalho possível devido aos grandes avanços tecnológicos. Mas não só. “A principal razão para que isto não fosse feito há mais tempo era o dinheiro. Os lasers eram muito caros e a energia para os computadores também. Os investigadores não conseguiam desenvolver nada mais barato e que fosse portátil, algo que as pessoas pudessem levar e usar nos locais de trabalho. Agora, finalmente, baixaram os preços dos lasers e da eletricidade”, enaltece Stopford.

No local de testes que visitámos, os investigadores estavam confiantes no protótipo. Aliás, eles já estavam, até, mais avançados. “O próximo passo é deixar de lado o computador e incluir um sistema eletrónico que permita ao aparelho analisar de forma independente os dados. Depois, gostaríamos de aumentar o fluxo de ar, isolar mais partículas por segundo e analisar de forma mais rápida uma maior quantidade do ar no local onde estivermos”, afirma Stopford.

O coordenador do projeto Alert, Alan Archer, garante ter “já em mente uma versão mais portátil do aparelho”. “Sentimos a necessidade de uma unidade mais prática para que, quando houver uma obra de perfuração ou demolição, o operário respire o mesmo ar que o aparelho recebe e, se for caso disso, (o Alert) pode emitir uma vibração e um alarme sonoro”, explica-nos Alan Archer, avisando que “basta uma simples fibra ser inalada para provocar graves danos no corpo humano”. “Por isso, queremos evitar ao máximo o contacto com o amianto que circula pelo ar”, concretiza o coordenador.

Descobrir o que parece invisível, contudo, nem sempre é uma forma de nos prevenirmos de perigos que nos rodeiam. Pode ser também uma forma de melhorarmos, por exemplo, a qualidade do vinho que bebemos. Num processo que começa logo nas vinhas. Como a da Quinta da Mata Fidalga, que visitámos na Anadia e que pertence à região vinícola da Bairrada.
Nesta vinha está em curso uma produção muito particular pelo avanço tecnológico a que recorre. Os investigadores têm vindo a testar um pequeno aparelho conhecido como “wine pen” ou, em português, caneta de vinhos, e que consiste num género de termómetro eletrónico, mas que, neste caso, serve para descrever uma parte da composição das uvas.

“É uma ferramenta muito prática. Permite-me fazer o controlo de maturação ‘in loco’ sem destruir a uva e fazer medições rápidas de açúcar, acidez, fenóis e antocianinas”, explica-nos Teresa Manso, responsável pelo projeto Premivm na Quinta da Mata Fidalga, acrescentando que o aparelho “tem integrado um GPS, que permite ir ao longo da vinha fazendo as medições nos diferentes sítios e assim conseguir conduzir a vindima em função destes valores.”

A função do aparelho é medir a resposta natural das uvas à luz. A partir da “wine pen”, a informação recolhida é carregada em computadores, interligada a modelos matemáticos e, por fim, traduzida em mapas que podem ser, igualmente, lidos por aparelhos portáteis e que revelam “a quantidade de açúcar na uva”. “A escala vai da cor verde até à vermelha. As zonas a verde no mapa são as da vinha onde a uva tem menor concentração de açúcar e a vermelho onde têm maior”, revela-nos João Miguel Encarnação, especialista de biotecnologia molecular, acrescentado que estes dados poderão indicar ao vitivinicultor que tipo de vinho poderá fazer com as uvas de determinada zona da sua vinha.

Este avanço tecnológico é muito apreciado, claro, pelos produtores de vinho, como Fabiano Varandas dos Santos, o proprietário da Quinta da Mata Fidalga. “Não precisamos de andar a colher bagos cepa a cepa e a coloca-los dentro de um saco, como se fazia dantes, e esperar o resultado do laboratório. Era um trabalho um pouco moroso, mas agora, através desta ferramenta, conseguimos ver o resultado em tempo real e planear a vindima de um dia para o outro”, elogia o produtor.

A “wine pen” foi desenvolvida ao abrigo do projeto Premivum, em colaboração com a União Europeia. Os cientistas pretendem agora desenvolver a tecnologia ao abrigo do programa Horizonte 2020, que arranca a 1 de janeiro e tem mais de 70 mil milhões de euros para investir na investigação científica e tecnológica na Europa.

As ideias para a investigação a decorrer na Bairrada já estão na mesa. “(O aparelho) tem de ser mais ergonómico. Para uso no futuro, terá de ser mais adaptado à mão e, sobretudo, temos de trabalhar bastante a forma como encaixamos o sensor no bago porque existe um problema: como é um sensor ótico, tem muita interferência da luz e temos de melhorar ainda muito o fecho do sensor no cacho para que não haja tanta interferência da luz na leitura dos dados”, reconhece o engenheiro agrónomo Luís Miguel Fernandes, que é também coordenador da Agriciencia para o projeto Premivm.

Aparelhos pequenos, fáceis de usar e capazes de ver o que parece invisível podem ter ainda mais aplicações do que apenas a gestão de uma vinha ou a segurança de uma obra. Por vezes, estas pequenas e inovadoras tecnologias portáteis podem também ser usadas para prevenir intoxicações alimentares. Foi o que fomos descobrir na Alemanha.
Nesta padaria de Bönnigheim, o proprietário Reiner Stolzenberger está a preparar uma fornada de pão tradicional com cereais.

Alguns dos cereais utilizados são oriundos de países como a Índia e a China. Embora estejam certificados como respeitando a legislação europeia sobre o uso de pesticidas, os padeiros nem sempre confiam a 100 por cento nas etiquetas. “Os fornecedores garantem-nos que os cereais que importamos não têm pesticidas. Sabemos que em 99 por cento dos casos a qualidade é boa. Mas gostaríamos de o saber a 100 por cento. É importante. Por isso, gostaríamos de ser capazes, nós mesmos, de verificar a qualidade dos produtos”, avança Reiner Stolzenberger.

Foi, aliás, para isso que os investigadores do projeto Foodscan desenvolveram um aparelho que rapidamente deteta a existência de pesticidas nos produtos. O protótipo foi construído a partir de um estudo realizado por cientistas gregos e é baseado em complexos processos biológicos e químicos. Os cientistas garantem, contudo, que o uso deste aparelho é bastante fácil.

“Trata-se de um sistema que regista a reação entre os anticorpos e as células vivas. Depois, a informação é enviada como sinal eletrónico para a máquina onde será processada e daí sairá o resultado a indicar se a amostra está ou não contaminada”, explica-nos o químico János-István Petrusán, coordenador do projeto Foodscan e do Instituto de Processamento de Cereais IGV GmbH. “A tecnologia”, prossegue Petrusán, “foi desenvolvida para que pequenas e médias empresas possam ter fácil acesso a ela. Não é necessário qualquer habilitação especial para a utilizar. Aliás, qualquer empregado de um negócio deste género pode usar o aparelho após uma pequena formação.”

As amostras do teste efetuado não identificaram a presença de pesticidas, o pão pode ir para o forno. Para Reiner Stolzenberger, o padeiro, este aparelho revela-se muito útil. Acima de tudo porque há ainda outros perigos invisíveis que ele gostaria de controlar. “É muito importante melhorar esta tecnologia para que possamos verificar também outras substâncias tóxicas como os metais pesados nas matérias-primas que usamos para fazer comida. Com esta tecnologia, poderemos vender melhores e mais saudáveis produtos aos nossos clientes”, conclui o padeiro de Bönnigheim.

Para mais informação consulte as seguintes páginas:
http://www.premivm.eu/
http://www.asbestos-alert.com/
http://www.foodscan.net/
http://ec.europa.eu/research/horizon2020/index_en.cfm