Última hora

Última hora

"A Ucrânia merece pertencer à União Europeia"

Em leitura:

"A Ucrânia merece pertencer à União Europeia"

Tamanho do texto Aa Aa

A Ucrânia decidiu finalizar o acordo de associação com a União Europeia. Foi o compromisso assumido pelo novo presidente, Petro Poroshenko, o de finalmente terminar este processo.

Foi um preço elevado o que a Ucrânia pagou para chegar até aqui. Há cerca de sete meses, a não assinatura do acordo desencadeou a mais violenta crise na história recente do país. Tudo aconteceu no passado mês de novembro. O presidente na altura, Viktor Ianukovitch, preparava-se para o formalizar em Vilnius. Mas acabou por recuar face à pressão de Moscovo. No entanto, deslocou-se até à capital lituana para mostrar que não fechava definitivamente a porta. Milhares de ucranianos vieram para as ruas protestar pacificamente contra este recuo.

No dia 30 de novembro, as forças especiais recorreram à violência para desmantelar uma manifestação pró-europeia. Seguiu-se uma interdição categórica de organizar ajuntamentos, o que veio incendiar ainda mais os ânimos. Para tentar refrear o descontentamento, Ianukovitch vai a Moscovo concretizar um outro acordo com Putin, que incluía cortes no preço do gás e uma ajuda financeira para trazer à tona a debilitada economia ucraniana.

Os opositores não aceitam esta aproximação à Rússia. Muitos juntam-se em Kiev e decidem ocupar o centro da cidade para exigir a demissão do presidente. Surgem os confrontos e as primeiras vítimas mortais e feridos. A Europa tenta intervir para impedir um banho de sangue. Os responsáveis diplomáticos da França, Alemanha e da Polónia tentam pôr cobro à crise, encetando um difícil processo negocial com Ianukovitch.

Pouco depois, o parlamento ucraniano destitui Ianukovitch que abandona o país. A instabilidade atinge outro apogeu com a ocupação russa da Crimeia e a subsequente anexação por Moscovo. No dia 21 de março, o primeiro-ministro ucraniano, Arseni Iatseniuk, assina a primeira parte do acordo de associação na cimeira dos líderes europeus. A assinatura do capítulo económico foi adiada para depois das eleições presidenciais que tiveram lugar no dia 25 de maio.

A este respeito, a euronews entrevistou Amanda Paul, analista do Centro de Política Europeia de Bruxelas.

euronews: A Ucrânia e a União Europeia vão assinar o acordo de associação num contexto completamente diferente do que era há sete meses. Para muitos ucranianos, a questão é: depois de tudo o que aconteceu, não será já tarde demais?

Amanda Paul: Hoje em dia, temos uma situação totalmente diferente. As eleições presidenciais ditaram a escolha do senhor Poroshenko que se apresentou como um candidato pró-europeu. Isto demonstra que a sociedade ucraniana pretende realmente avançar para a integração europeia. Do lado da União Europeia, os acontecimentos dos últimos meses surtiram um efeito de aproximação em relação à Ucrânia. Há um compromisso mais sólido, política e economicamente, de ir na direção da Ucrânia e do processo de integração. É claro que não vai ser fácil, porque nós sabemos, e a sociedade ucraniana também, que a Rússia representa um grande perigo, porque continua totalmente contra a integração da Ucrânia na União Europeia.

euronews: Ao assinar este acordo, que mensagem estão a Ucrânia e a Europa a enviar à Rússia? Sobretudo, quando há novos conflitos entre Kiev e Moscovo sobre o abastecimento de gás.

AP: A assinatura deste acordo é muito importante. Trata-se de uma mensagem clara para a Rússia: a Ucrânia vai avançar com a escolha soberana da integração europeia, apesar da pressão e das medidas coercivas tomadas pela Rússia, aliás que a Rússia continua a tomar. Eles não vão deixar que os russos os impeçam de decidir o seu futuro enquanto país independente. É óbvio que a Rússia ainda não jogou os trunfos todos. Neste momento, é a questão do gás. Mas espera-se que haja uma resolução para breve. Se a União Europeia integrar a Ucrânia no seu mercado energético, se tomar as medidas necessárias, esta questão deixa de existir e, no final, quem pagará um preço muito elevado será a própria Rússia.

euronews: Considera que o acordo pode ajudar a implementar as reformas necessárias e convencer as forças pró-russas no país de que a escolha europeia é a mais acertada?

AP: As ações deste governo serão acompanhadas de muito perto pela sociedade ucraniana, pelo euromaidan. Eles vão exigir o cumprimento das promessas que foram feitas. Acredito que se conseguirem construir uma Ucrânia forte, próspera, que respeite as leis e outros direitos e liberdades fundamentais, vão encontrar a receita certa para integrar todo o país. Se o país se fortalecer, aqueles que não estão satisfeitos com o contexto atual, que têm protagonizado os confrontos terríveis no leste do país, vão querer fazer parte também.

euronews: Está a Europa preparada, num futuro próximo, para apoiar a Ucrânia e ajudar às reformas?

AP: Acho que a União Europeia vai fazer todo o possível para apoiar o processo de reformas. Mas se a pergunta for se a Europa está ou não preparada para dar à Ucrânia respostas sobre uma adesão – o que seria a melhor perspetiva para eles – diria que não, não está. Pode acontecer a médio prazo, não a curto prazo. Considero que a Ucrânia, enquanto Estado europeu, merece pertencer à União Europeia. O bloco europeu tem um papel muito importante no apoio à Ucrânia. Tem de continuar também a apoiar o avanço doutros atores na Rússia na sociedade civil, na oposição. É preciso ver esta região como prioritária. Não nos podemos permitir a colocá-los no fundo da agenda política.