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Ucrânia alimenta o sonho de solicitar adesão à UE em 2020

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Ucrânia alimenta o sonho de solicitar adesão à UE em 2020

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A aproximação da Ucrânia à União Europeia (UE) foi o detonador de uma profunda mudança política no país e marca o debate em volta das eleições legislativas antecipadas de 26 de outubro, as primeiras após a chegada ao poder do atual Presidente Petro Poroshenko.

A convulsão começou em Novembro passado, quando o então Presidente Viktor Ianukovich se recusou a assinar, na cimeira de Vilnius, um acordo de associação há muito debatido.

A chamada revolução Maidan, pró-europeia, com protestos numa das principais praças da capital ucraniana, acabaria por levar à queda de Viktor Ianukovich, mas também a um braço-de-ferro com a Rússia.

O presidente russo Vladimir Putin enviou tropas para a província da Crimeia, que foi anexada, e deu apoio aos separatistas pró-russos no leste do país.

A UE e os Estados Unidos aplicaram sanções económicas contra a Rússia e Bruxelas manteve a promessa de assinar o acordo com o novo regime de Kiev, no âmbito da chamada Parceria de Leste, que incluiu os vizinhos Moldávia a Geórgia.

Contudo, o frágil cessar-fogo assinado a 5 de setembro não tem tradução no terreno e já morreram mais de 3500 pessoas desde o início da revolução.

Apesar do Presidente Poroshenko falar de uma nova etapa com vista adesão da Ucrânia à UE, Bruxelas tenta desmistificar a ideia de que o país poderá ser um Estado-membro a curto prazo.

Mas Kiev já estabeleceu uma data para obter o estatuto de candidato: 2020.

“50% dos europeus apoiam a candidatura da Ucrânia à UE”

Para discutir o grau de expetativas da Ucrânia na relação com a UE, a correspondente da euronews em Bruxelas, Natalia Richardson-Vikulina, entrevistou Svitlana Kobzar, analista política do Vesalius College.

Natalia Richardson-Vikulina/euronews (NRV/euronews): “Muitos ucranianos têm a esperança de que, depois da assinatura do Acordo de Associação, a Ucrânia entre na UE no médio prazo. Até que ponto isso é plausível?”

Svitlana Kobzar/analista política do Vesalius College (SK/analista): “A Ucrânia precisa de facto de ter uma estratégica comunicacional para convencer os Estados-membros da União sobre uma possível candidatura. Claro que não é uma tarefa fácil já que os líderes europeus têm sido muito cuidadosos na linguagem que usam sobre uma possível adesão. É um assunto polémico mas se analisarmos a opinião do público europeu, cerca de 50% apoia uma candidatura da Ucrânia à União. Já as elites têm um discurso muito mais conservador”.

NRV/euronews: “Mas não considera que há, em geral, na UE, um estado de espírito contra continuar o alargamento? Especialmente quando se fala da Ucrânia?”

SK/analista: “Penso que quando se olha para o atual Parlamento Europeu muita gente pode efetivamente concluir que os eurocéticos estão em ascensão. Mas temos de ter cuidado na interpretação dos dados sobre as eleições europeias, no sentido de perceber se refletem o que pensa a maioria das cidadãos europeus. Obviamente, a crise económica aumentou a sensação de que muitos europeus estão cansados ​​do alargamento, há um lado bastante sombrio. Mas mesmo levando em conta a atual difícil situação económica, mais de 60% dos europeus questionados num inquérito sobre este tema disseram que se deve dar um maior apoio à Ucrânia, independentemente da pressão contra vinda da Rússia.”

NRV/euronews: “Pensa que é realista que a Ucrânia obtenha o estatuto de candidato à UE dentro de seis anos, como prometeu o Presidente?”

SK/analista: “Penso que o ritmo das reformas tem sido bastante dececionante. Mas se considerarmos este factor do apoio popular, tenho esperança de que tal possa acontecer. Que se possa concretizar em seis anos, é algo provavelmente demasiado otimista. Mas acredito que se deve ter a ambição de atingir a lua ou as estrelas, de modo a chegar, pelo menos, lá próximo.”

NRV/euronews: “Há cerca de um ano, a Ucrânia não assinou o Acordo de Associação devido à pressão da Rússia sobre o Presidente Ianukovich. Como foi possível que a UE não tenha antecipado esse risco e avaliado como a questão era muito importante para a Rússia?”

SK/analista: “Os europeus têm tentado envolver a Rússia quando se trata de temas como o da política de vizinhança. Essa tentativa de diálogo não é feita apenas com a Rússia, mas com outros vizinhos. Só que Rússia não quer ser inserida nesse grupo e prefere diferenciar-se no sentido de ser vista como um parceiro estratégico. Para a Rússia, a integração económica não parecia ser algo muito ameaçador há alguns anos, mas agora o governo percebeu que essa integração acaba por transformar as sociedades, o tipo de mentalidade das pessoas. As populações ficam mais atentas ao que os governos fazem e exigem maior responsabilização. A Ucrânia estava prestes a embarcar nessa onda de mudança e isso passou a ser visto como uma grande ameaça por parte da Rússia”.