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Morrer por um programa de TV

As 10 pessoas que morreram num acidente de helicóptero na Argentina, incluindo três conhecidos desportistas franceses, participavam num "reality show".

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Morrer por um programa de TV

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As 10 pessoas que morreram num acidente de helicóptero na Argentina, incluindo três conhecidos desportistas franceses, participavam num “reality show”. O conceito de “Dropped” vem da Suécia. Duas equipas de quatro desportistas são abandonadas, na natureza, com apenas um pouco de água e localizador GPS.

Point of view

O problema é que não há limites para a capacidade de colocar concorrentes nas situações mais extremas. É preciso uma autorregulação, um regulamento que permita uma série de coisas, mas na condição de não se chegar ao 'voyuerismo' mortífero.

O canal TF1, que deveria emitir o programa a partir de junho, decidiu suspendê-lo. “Dropped” nunca irá para o ar: “São circunstâncias que nunca queríamos que tivessem acontecido. Para nós é terrível, porque queríamos levar a felicidade às pessoas e acabámos por enfrentar uma tragédia”, diz Nonce Paolini, presidente da TF1.

O futebolista Sylvain Wiltord participava também no programa:

Não é a primeira vez que a tragédia acontece num “reality show” da TF1. Em 2013, durante a rodagem de “Koh Lanta”, a versão francesa de “Survivor”, um concorrente morre de ataque cardíaco. Vítima de acusações, poucos dias depois foi o médico do programa a suicidar-se.

O conceito de “reality show” nasceu nos anos 90 e mudou muito, desde então. O primeiro a alcançar uma grande popularidade e a impor o formato foi o “Big Brother”, que apareceu pela primeira vez na Holanda, em 1999. Um conceito que se impôs um pouco por todo o mundo e que assenta, sobretudo, no voyeurismo.

O conceito chegou a França pouco depois, com o “Loft Story”, difundido pela M6, rival da TF1. mas o maior canal privado não perdeu tempo e foi impondo formatos cada vez mais arrojados. “Fear Factor”, em que os concorrentes têm de enfrentar todo o tipo de fobias, é um desses exemplos. O apetite do público em ver os concorrentes desafiar os limites e ir cada vez mais longe tem vindo a crescer.

Uma novidade, que apareceu há poucos anos, que veio aumentar ainda mais esse apetite é a participação dos famosos nos “reality shows”, o que garante sempre bons números de audiências. Para os participantes, é sempre uma forma de não caírem no esquecimento do público, em alturas em que o nome deles começa a ser menos falado.

A propósito do trágico acidente, falámos com Dominique Wolton, diretor no Centro Nacional de Pesquisa Cientifica, em França, e especialista de televisão.

Sophie Desjardin, euronews: À volta deste dramático acidente, também se fala de televisão e, em particular, de um ‘reality show’. É verdade que esta tragédia podia ter acontecido em qualquer lugar e em quaisquer outras circunstâncias. Mas o que é certo, também, é que não é a primeira vez que num programa destes, onde o conceito é correr riscos, nem certamente em França, que há mortos. O que é que isto nos diz sobre o atual estado da televisão?
Dominique Wolton: Antes de mais, isto foi uma tragédia, isso está claro. A novidade é as pessoas estarem agora a viver esta violência, estes perigos e estas aventuras à distância. Fazemos parte de uma sociedade, por um lado, obcecada pelo princípio da prevenção, em que tudo é controlado. Por outro, diante de um televisor, dos jogos de vídeo ou dos computadores podemos fazer tudo. Aí, todos os excessos são possíveis. Vivemos por procuração, num género de ‘voyeurismo’. Os jogos são cada vez mais perigosos e todos acham isto normal. Como há muito dinheiro investido, vamos cada vez mais longe nos desafios e, para aumentar o drama, os concorrentes anónimos deram agora lugar aos chamados “famosos”. Nesta relação complexa entre nós e eles, entre o espetador e a produção do programa, todos esperamos para ver os concorrentes que vão ser mais corajosos, os que irão desistir, etc.

Nos anos 80, o Dominique e Jean-Louis Missika escreveram um livro, “La Folle du Logis”, sobre o poder da televisão nas nossas sociedades, sobretudo como instrumento democrático. Isto foi antes de inventarem os “reality shows”. O que é que mudou, entretanto?
Não são apenas os “reality shows” que estão à deriva. Estamos a viver num mercado muito competitivo. Os tradicionais “reality shows” acalmaram um pouco, mas há um ressurgimento de formatos mais dramáticos, mais caros e mais próximos da aventura, da exploração e do perigo. Há algo errado. Se as pessoas precisam de se afirmar diante da natureza ou através de um certo desafio físico, algo está errado. Deixou de haver limites entre o público e o privado; entre a vida sob perigo e a vida normal. É preciso ter atenção. Há uma deontologia que deve ser aplicada.

Algumas das vítimas deste acidente não eram umas pessoas quaisquer. Eram desportistas, campeões que nada tinham a provar. É realmente necessário ir mais longe para se fabricar heróis
É uma boa pergunta. Para mim, valorizar indivíduos, seja em que domínio for, que são capazes de fabricar o seu destino, de se destacarem, de se tornarem um exemplo de emancipação para milhões de pessoas, é formidável. Mas, na condição, de que isso aconteça dentro dos limites de uma vida normal. Concorrentes que se colocam em perigo, que promovam o gosto pela aventura… porque não? O problema é que não há limites para a capacidade de colocar concorrentes nas situações mais extremas. É preciso uma autorregulação, um regulamento que permita uma série de coisas, mas na condição de não se chegar ao ‘voyuerismo’ mortífero.

O mediatismo é um dos trunfos hoje em dia para os desportistas se manterem em destaque. Haverá outras alternativas para eles?
A sociedade atual apenas reconhece os que se tornam famosos nos meios de comunicação ou na internet. Para se manterem conhecidos, é normal que os desportistas procurem esta fama. Só que, depois de um momento em alta, há sempre uma queda. É diferente ser-se uma celebridade face a ser uma estrela do desporto, um político de renome ou um empresário de sucesso. Percebo que tentem manter-se interessantes para os meios de comunicação, mas após algum tempo o próprio meio vai consumi-los e tirar-lhes a fama que antes fabricaram. Não sou contra o mediatismo – é uma parte essencial para se criar uma celebridade – mas quando o mediatismo se torna a única coisa que importa na sociedade, isso não é bom.