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Ciclone judicial anticorrupção abana FIFA a dois dias das eleições

Departamento de justiça dos Estados Unidos divulga processo com 47 acusações contra 14 suspeitos, incluindo 9 responsáveis da Federação Internacional de Futebol. Sete foram detidos em Zurique

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Ciclone judicial anticorrupção abana FIFA a dois dias das eleições

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Um ciclone abateu-se esta quarta-feira sobre a FIFA, em Zurique, na Suíça. Uma investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos conduziu as autoridades helvéticas à detenção de sete responsáveis da Federação Internacional de Futebol, entre 14 pessoas indiciadas pela prática de crimes de conspiração para extorsão de dinheiro, atos de corrupção ou lavagem de dinheiro.

Entre os detidos estão, por exemplo, Jack Warner e Jeffrey Webb, respetivamente o antigo e o atual presidentes da CONCACAF (Associação de Futebol da América do Norte, Central e Caraíbas). Horas antes, Webb “twitava” (em baixo) a presença numa reunião com delegados da CONCACAF para antecipar o congresso de sexta-feira.


Outrora vistos até pelo próprio como potenciais sucessores de Sepp Blatter na presidência do organismo que superintende a partir da Suíça o futebol mundial, os dois são suspeitos de participar em esquemas, que envolveram o antigo representante dos Estados Unidos na FIFA Chuck Blazer.

Secretário da CONCACAF entre 1990 e 2011, Blazer confessou-se culpado e estará desde há quatro anos a cooperar com o FBI nesta investigação a variados esquemas que envolvem a FIFA, os torneios que esta promove e os direitos de marketing e televisão dos mesmos.


A investigação recua cerca de vinte 25 anos e vai mesmo até antes do Mundial de Futebol nos Estados Unidos, torneio que marcou curiosamente o relançamento do futebol daquele país pouco dado ao que ali se chama de “soccer” — Nos Estados Unidos o chamado futebol assemelha-se mais ao râguebi.

São os próximos mundiais, no entanto, que centram agora atenções. Um deles, o do Qatar, diretamente relacionado a Mohamed bin Hammam. O antigo presidente da Federação qatari era há quatro anos concorrente de Sepp Blatter na corrida à presidência da FIFA, mas nem chegou às eleições e acabou expulso do comité executivo do organismo internacional, por alegada compra de votos antes mesmo da decisão de conceder ao país natal de Hammam o Mundial de 2022.

Cada vez mais pertinente, com esta nova investigação americana, parece ser também o chamado “relatório Garcia”, uma investigação pedida pela própria FIFA por alegadas suspeitas de corrupção, nomeadamente por causa das escolhas de Rússia e Qatar para receberem os Mundiais de 2018 e 2022. O relatório está concluído, mas a própria FIFA tem-se esforçado por mantê-lo secreto.

Muitas têm sido as vozes a pedir a publicação dos resultados da investigação do antigo procurador de nova Iorque. O alemão Franz Beckenbauer foi um dos que reivindicou a publicação. O “relatório Garcia” mantém-se, contudo, fechado.


Poderão a Rússia e o Qatar perder a organização dos respetivos mundiais? É pouco provável, mas neste momento nada estará descartado. Para já, a FIFA limitou-se a suspender de forma provisória 11 individualidades de qualquer atividade ligada ao futebol nacional ou internacional, incluindo os sete responsáveis ligados ao organismo detidos esta quarta-feira em Zurique.

A UEFA, o organismo que superintende o futebol europeu, é que não parece perdoar e, entretanto, sublinhou de forma pública o descontentamento com este caso que macha toda a modalidade. “Este eventos mostram, uma vez mais, que a corrupção está bem enraizada na cultura da FIFA”, lê-se no comunicado emitido pelo organismo presidido pelo francês Michel Platini.


Esta sexta-feira, há novo ato eleitoral na FIFA. Luís Figo estava na corrida e era provavelmente o mais forte rival de Blatter, mas no final da semana passada desistiu. O português abdicou, criticando a alegada ditadura do organismo neste processo eleitoral. O suíço, que se recandidata ao lugar que ocupa há quase 17 anos, certamente esfregou as mãos de contente.

A minha candidatura à Presidência da FIFA resultou de uma decisão individual, depois de ouvir muita gente relevante…

Posted by Luís Figo on Quinta-feira, 21 de Maio de 2015

Na corrida mantém-se ainda, porém, o príncipe da Jordânia Ali Bin al-Hussein. Poderá ele derrotar Sepp Blatter e marcar a mudança que muitos reclamam para o futebol mundial? Nas próximas horas muito se vai passar, por certo, nos bastidores do congresso da FIFA marcado para sexta-feira. A única certeza, assumiu-a o próprio Blatter: “Ainda sou o presidente até sexta-feira às seis da tarde!”

“Blatter é um homem escorregadio”


Para aprofundarmos as implicações que a investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos pode ter no futebol mundial e na atualidade da FIFA, falámos com David Webber, professor e especialista em economia do futebol na Universidade de Warwick, no Reino Unido

Joe Allen, euronews: Há informações que sugerem que o FBI já investigava a FIFA há muitos anos. As detenções realizam-se a dois dias das eleições na FIFA. Há alguma conexão ou é pura coincidência?
David Webber: Uma das coisas que a FIFA disse esta quarta-feira de manhã foi que todo este ataque foi um ato político de sabotagem às eleições, que muitos sentem como uma fatalidade. O FBI, como compreendo, defende que apenas tinha mais sentido proceder às detenções agora, pois partilhavam todos o mesmo hotel, em Zurique, e podiam coordenar o inquérito com as autoridades suíças. Portanto, é difícil dizer, nesta altura, se foi uma operação deliberada ou simples coincidência.

O príncipe Ali Bin Al-Hussein da Jordânia, o único rival de Joseph Blatter para a presidência da FIFA, descreveu o que se passou como “um dia triste para o futebol”. Como o descreve?
Também acho que é um dia triste para o futebol, mas provavelmente não pelas mesmas razões do príncipe. É interessante que depois recuou nas declarações e disse que o futebol tem de ser bem governado, que precisa de uma liderança forte e que passa por assumir responsabilidades. Falta ver se o príncipe vai assumir essa liderança e essa responsabilidade. O facto é que é um dia negro para o futebol, apesar de ninguém ligado ao futebol ter ficado surpreendido. Os níveis de corrupção na FIFA foram bem documentados mais ou menos nos últimos 20 anos. É um dia triste, não porque o escândalo foi mostrado à luz do dia, mas porque esta situação se prolongou por tanto tempo.

A Procuradora-geral dos Estados Unidos disse que a investigação sugere uma corrupção tentacular, sistémica e arreigada. A posição de Joseph Blatter ficou comprometida? Sobreviverá a novas acusações? Blatter é um homem escorregadio, como ficou patente nos últimos 17 anos. Nada o conseguiu travar até hoje, pelo que não me surpreende se conseguir superar isto. Mas é verdade que se colocam questões sérias sobre a sua liderança, e, de facto, que melhor momento do que este para se fazer perguntas do que o congresso da FIFA, que se realiza daqui a dois dias?

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