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Fernando Botero aumentou o volume e ficou igual a si próprio

As figuras que criou, normalmente qualificadas de “voluptuosas”, tornaram-se conhecidas no mundo inteiro. Nascido em 1932 em Medellín, na Colômbia, o

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Fernando Botero aumentou o volume e ficou igual a si próprio

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As figuras que criou, normalmente qualificadas de “voluptuosas”, tornaram-se conhecidas no mundo inteiro. Nascido em 1932 em Medellín, na Colômbia, o pintor e escultor Fernando Botero viria a tornar-se num dos mais celebrados artistas sul-americanos.

Point of view

"Tive o sucesso que tive, porque mantive-me fiel às minhas ideias."

No Pallazo Comunale de Spoleto, em Itália, está patente uma exposição dedicada à obra de um mestre. Alberto de Filippis, jornalista da euronews, entrevistou Botero.

euronews: As suas obras em bronze são muito conhecidas. Porque é que aqui em Spoleto se centrou nos seus trabalhos em gesso?

Fernando Botero: Antes de mais, era complicado fazer uma exposição com as de bronze, porque muitas das obras pertencem a coleções particulares ou públicas. Por outro lado, o gesso é um material que fica sempre presente na mente de quem faz esculturas, é a base original. Eu tinha esta coleção no meu ateliê em Pietrasanta, aqui em Itália. O convite do Festival de Spoleto permitiu-me mostrar cinquenta dos meus trabalhos. O gesso é um material belíssimo, muito nobre, luminoso. Fiquei encantado porque é um festival com muito prestígio e estava disponível um belo espaço para fazer a exposição.

euronews: De onde vem a sua inspiração para pintar?

FB: É difícil dizer. Quando comecei a trabalhar nas minhas obras, tinha um grande interesse pelo volume. De uma forma intuitiva. Tinha prazer em criar estas formas cheias. Depois, fui conhecendo melhor a história da arte, vim até Itália, tive a oportunidade de ver a pintura dos séculos 13 e 14, desde Giotto, a Masaccio, Piero della Francesca, tantos artistas, Paolo Uccello. Isto ajudou-me a racionalizar a importância do volume na pintura. A minha obra surge a partir de várias coisas: da arte etrusca, da arte pré-colombiana, da arte popular. É uma mistura, a cabeça de um artista produz um grande cocktail. Mas depois, quando o público se depara com a obra, pensa num só nome: Botero. Trata-se de um Botero, não é preciso ir mais além. É uma obra que me pertence. Agora, é evidente que se procurarmos bem, encontramos mil coisas que estão ali misturadas.

euronews: Afirmou uma vez que “não era mulheres gordas que pintava”. Como surgiu esse interesse pelo volume?

FB: Na verdade, o volume é uma forma de exprimir uma certa sensualidade, uma certa plasticidade. A revolução mais importante na arte foi a introdução do volume. Isto é, criar a ilusão de uma ideia de espaço numa superfície plana, a ideia que as coisas têm volume, é uma revolução extraordinária. Para além disso, quando se observa um quadro, a sensualidade das formas produz uma exaltação especial. Pelo menos, é o que eu sinto, é a minha forma de pensar, de refletir sobre a arte. Continuo a achar que o volume é importantíssimo como um elemento plástico e sensual na pintura.

O resultado de defender as próprias convicções

euronews: Pintar é um prazer. Mas há um quadro que dedicou ao seu filho que faleceu. É uma criança montada num cavalo. A tristeza está nos olhos do animal. É difícil descobrir-se a si próprio através do olhar dos outros?

FB: Esse quadro que mencionou é muito importante para mim. Talvez seja mesmo o quadro mais importante que já fiz na vida. É o retrato do meu filho Pedro, que morreu num acidente de automóvel. Foi o primeiro quadro que pintei depois desse acidente terrível. Pus a minha alma e o meu coração nessa obra – totalmente. É o quadro que diz mais sobre quem sou, sobre o que penso e sobre a pintura. Está em Antioquia, em Medellín.

euronews: Os piores críticos somos nós próprios. Onde foi buscar a coragem para arriscar e encontrar o seu próprio estilo?

FB: Eu comecei pela pintura figurativa, que dá importância ao tema, à forma, numa altura em que toda a gente pintava quadros abstratos. Quando comecei a dar os primeiros passos como artista, não havia maneira de conseguir uma galeria para expor, ninguém olhava para os quadros. Toda a gente tinha de ser abstrato, era a grande moda da altura. Foi muito difícil. Felizmente, consegui manter as minhas convicções, que a pintura deve ser de uma determinada forma, como eu a faço. Foi graças a isso que tive o sucesso que tive, porque mantive-me fiel às minhas ideias.

As FARC e a prisão de Abu Ghraib

euronews: Como vê o que se passa no mundo? A sua obra reflete uma posição política?

FB: Abordei temas políticos. Fiz uma série sobre a violência na Colômbia, fiz outra série sobre a tortura na prisão iraquiana de Abu Ghraib. Fiz muita coisa sobre ditadores, juntas militares, na altura em que as havia na América Latina. A política interessa-me tal como interessa a toda a gente. Mantenho-me informado de tudo o que se passa. Há muitas coisas que me comovem. A questão da imigração dos países pobres para a Europa é dramática e muito atual. Interesso-me por aquilo que interessa a toda a gente. E às vezes, expresso-me sobre os temas através da pintura.

euronews: Viveu muito tempo fora da Colômbia. Que relação tem com o seu país?

FB: É uma relação excelente. Tenho uma casa lá e passo, pelo menos, um mês por ano na Colômbia. Tenho dois museus: o museu de Bogotá, que foi um donativo que fiz, e o museu de Medellín, que eu próprio criei. Tem 200 obras minhas, inventei o nome do museu e consegui que o governo encontrasse um edifício extraordinário. É como se fosse uma criação minha. Estes dois museus são um grande motivo de regozijo na minha vida. Tive a possibilidade de fazer isto pelo meu país.

euronews: Neste momento, há um processo de paz a decorrer entre as FARC e o governo. Como é que vê essas negociações?

FB: Estou otimista e espero que consigam a paz. Seria um grande alívio para a Colômbia. Se o conseguirem fazer, o país vai crescer muito rapidamente. Admiro o que o presidente está a fazer. Mas nem todos têm os mesmos interesses na Colômbia, seja por que motivo for. Há muita gente que se opõe ao processo de paz, mas eu acho que é uma coisa formidável.