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"O presidente tem uma missão bastante delicada"

A Roménia tem um novo primeiro-ministro interino mas os vícios do passado, e do presente, não se dissipam com a chegada de um novo chefe ao

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"O presidente tem uma missão bastante delicada"

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A Roménia tem um novo primeiro-ministro interino mas os vícios do passado, e do presente, não se dissipam com a chegada de um novo chefe ao executivo. Talvez por isso, mesmo depois da demissão de Victor Ponta, os romenos tenham continuado a manifestar-se nas ruas.

O governo demitiu-se, Ponta, acusado, desde agosto, de falsificação, lavagem de dinheiro e de cumplicidade em atos de evasão fiscal, saiu, mas a maioria parlamentar continua nas mãos do partido Social-Democrata, de centro-esquerda, o que lhe permite constituir um novo executivo.

A situação na Roménia tem vindo a deteriorar-se, “a gota de água que fez transbordar o copo” foi o incêndio, que deflagrou no clube noturno Colectiv, na sexta-feira passada, durante um concerto ao qual assistiam perto de 400 pessoas. Muitos dos espectadores, na sua maioria jovens, não conseguiram sair para o exterior por não existir saída de emergência. Trinta e duas pessoas morreram, 130 foram hospitalizadas, algumas continuam em estado crítico.

“Uma engrenagem de incompetências e de corrupção”

Euronews:

Luca Niculescu, o senhor é o chefe de redação da RFI Roménia. Obrigada pela sua presença. Lia-se esta manhã na imprensa que “o drama da discoteca fez cair o governo”. Mas não foi esta a razão da sua queda, pois não?

*Luca Niculescu:

Não, esta foi apenas a gota de água que fez transbordar o copo. A tensão estava a acumular-se há bastante tempo. Havia um descontentamento generalizado na sequência de vários casos que ocorreram nos últimos tempos. Mas a tragédia que aconteceu na discoteca na sexta-feira à noite é o símbolo de uma engrenagem de incompetências e de corrupção aos níveis local e central que revoltou o povo de Bucareste.*

Euronews:

Mas porquê agora? Mudou algo na sociedade?

*Luca Niculescu:

Esta é uma nova geração. Foram as pessoas que têm entre 25 e 35 anos que saíram à rua. Como disse um psicólogo esta geração é o nosso ouro cinzento. Ela representa a massa cinzenta da Roménia. São pessoas ativas, que têm um emprego e que não querem partir do país, que desejam criar um futuro aqui, ao contrário de gerações precedentes que preferiram partir e deixar a Roménia. O país perdeu 4 milhões de pessoas nos últimos 10, 12 anos. Esta geração pretende criar uma sociedade na Roménia e está a bater-se por ela.*

Euronews:

Há alguns meses, quando surgiram os problemas judiciais, Victor Ponta recusou demitir-se e afirmou que “a democracia não se exerce na rua”. Na quarta-feira disse esperar que “a demissão do governo satisfaça as pessoas que estão na rua”. O que é que se passou nestes cinco meses?

*Luca Niculescu:

O que se passou foi que esta semana houve muito mais gente na rua. É preciso dizer que não se via tanta gente nas ruas de Bucareste desde 1990, depois da queda do regime comunista. Ontem havia 40 mil pessoas nas ruas da capital e outras tantas em várias cidades. Para um país como a França talvez não seja muita gente mas é um grande número para a Roménia porque os romenos raramente investem as ruas para se manifestarem. Perante este tsunami, esta vaga de fundo personificada pelas manifestações, ele foi embora.*

Euronews:

O que é que pode fazer o presidente, um candidato fora do sistema político que foi eleito de forma surpreendente o ano passado com base num programa anticorrupção? Quais são as suas opções?

*Luca Niculescu:

O presidente tem uma missão bastante delicada. Por um lado, ele tem de guardar o contacto direto com as pessoas que protestam nas ruas. Por outro, não se pode afastar demasiado da classe política porque o primeiro-ministro que vai nomear terá de ser aprovado por um parlamento dominado pela classe política que é rejeitada pelos manifestantes. O presidente tem de manter um equilíbrio muito frágil e esta é a primeira vez que enfrenta um desafio deste calibre. Vamos ver como é que se vai sair.*

Euronews:

Deverá haver eleições. Em 2012 os sociais-democratas conseguiram 58 por cento dos votos e o centro-direita obteve 16 por cento. Isto quer dizer que de momento não há alternativa à classe política que os manifestantes rejeitam?

*Luca Niculescu

De momento podemos dizer que não porque são os mesmos grandes partidos que dominam a cena política. Mas foram dados alguns passos e leis foram alteradas. Por exemplo, desde há alguns meses já é possível criar um partido político na Roménia apenas com três pessoas enquanto no ano passado eram necessárias 20 mil. Tendo em conta a dimensão dos protestos é possível que surja uma mobilização política que resulte num multiplicar de partidos e no surgimento de novos líderes.*