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Três vidas que enfrentam o terrorismo todos os dias

Sobreviveram a ataques terroristas, perderam familiares e amigos e recomeçaram uma vida nova. Fomos conhecer estórias dos que vivem marcados pela

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Três vidas que enfrentam o terrorismo todos os dias

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Sobreviveram a ataques terroristas, perderam familiares e amigos e recomeçaram uma vida nova. Fomos conhecer estórias dos que vivem marcados pela memória do terror.

Point of view

Tentamos perceber o grau da nossa incapacidade. Tentamos aceitar a nova forma do nosso corpo. Tudo é diferente.

“Em 83 disseram-me que era o fim do terrorismo. E eu dizia que era apenas o começo.” Françoise Rudetzki sobreviveu a um ato de terrorismo em 1983. Ela e o marido ficaram feridos na sequência da explosão de uma bomba num restaurante em Paris. Françoise fala-nos junto a uma estátua dedicada às vítimas do terror em França, um memorial que ajudou a erigir no meio da longa luta que tem vindo a travar.

“O primeiro combate foi em 1986. Conseguimos criar um fundo de solidariedade único no mundo, que indemniza totalmente as vítimas de terrorismo. O segundo combate demorou quatro anos: em 1990, foi aprovada uma lei sobre o estatuto de vítima civil, um reconhecimento oficial de que o terrorismo é uma nova forma de guerra”, explica-nos.

Rudetzki foi submetida a 78 operações após o ataque. Nas transfusões de sangue que se seguiram, foi contaminada com o vírus da Sida. Os obstáculos que se foram sucedendo não a fizeram parar. Ao longo de trinta anos, o fundo de solidariedade criado ajudou mais de 4200 vítimas francesas do terrorismo.

“A partir de janeiro de 2016, o fundo que criámos passou a ser alimentado por uma contribuição nacional de solidariedade no valor de 4,30 euros anuais, recolhida a partir dos contratos de seguros. Isso permite-nos ter os meios de que necessitámos. Podemos atribuir as chamadas indemnizações integrais, assumindo os custos dos danos físicos, das consequências psicológicas e também dos casos em que há necessidade de reconversão profissional. É um processo difícil, porque as vítimas têm de ser submetidas a exames médicos para avaliar a extensão das consequências. E é verdade que, por vezes, depois dos momentos emocionalmente mais fortes, os especialistas tendem a minimizar as sequelas físicas e emocionais”, considera Rudetzki.

Maryse Wolinski perdeu o marido, o cartoonista Georges Wolinski, no ataque ao Charlie Hebdo. O luto passou pela escrita de um livro muito crítico em relação à falta de proteção que as autoridades conferiam ao jornal satírico. Considera que o fundo de solidariedade é positivo, mas que ainda pouco se concretizou: “Há muitas promessas que nunca foram cumpridas. O fundo de garantia prevê a atribuição de apoios que ajudam, por exemplo, a manter o nível de vida que eu tinha antes de perder o meu marido . Mas já passou um ano e é tudo extremamente complicado. Eles estão à espera dos resultados das vendas dos livros do meu marido depois dos atentados para ver se podem reduzir a minha indemnização. Mas isso não tem nada a ver.”

Maryse diz que continua manifestamente em fúria. Não entende como é que tudo isto pôde acontecer, sobretudo porque os sinais estavam lá. “O título do meu livro é ‘Querida, vou sair agora para o Charlie’ porque é uma frase que me assombrava continuamente. Não parava de a ouvir na minha cabeça. E depois era o vazio. Como é que é possível haver um atentado nas instalações de um jornal satírico que as autoridades sabiam que era um sítio sensível ao nível da segurança, mas que mesmo assim não era alvo de vigilância. Este livro foi uma espécie de investigação. Escrevi-o durante o verão e é uma forma de me começar a reconstruir”, afirma.

Daniel Biddle escapou com vida aos atentados de Londres, a 7 de julho de 2005, que fizeram 52 mortos e centenas de feridos. Encontrava-se a poucos metros de distância de um dos bombistas que se fez explodir. Foi tudo surreal, diz Daniel. Mas não se refere apenas ao ataque: também fala do que veio a seguir.

“Encontramo-nos numa situação em que tentamos perceber o impacto real do que nos aconteceu. Tentamos perceber o grau da nossa incapacidade. Tentamos aceitar a nova forma do nosso corpo. Tudo é diferente. E depois vem alguém dar-nos um livro, com o tamanho quase de um catálogo comercial, com listas de ferimentos. E temos de folheá-lo e ir apontando as partes do corpo atingidas e ver quais é que valem mais dinheiro. No meu caso, foi horrível, porque eu sofri vários ferimentos, mais de uma centena. Mas, de acordo com o sistema de compensações britânico, só tive direito a reclamar três deles. Depois dão-nos o dinheiro por cada um. Recebi 110 mil libras por ter perdido as pernas. Mas, por causa disso, reduziram 70% da indemnização por ter perdido um olho e 85% por ter ficado sem o baço. Portanto, na realidade, fui penalizado por ter mais do que um ferimento grave na sequência de algo pelo qual não fui responsável.”

O processo de reconstrução de Daniel teve muito a ver com o facto de ter conhecido Gem, a mulher com quem casou há dois anos. Regressar ao trabalho também foi uma grande ajuda. Daniel criou uma empresa que fornece consultadoria sobre acessibilidade para portadores de incapacidades: “Ter uma incapacidade era o meu pior pesadelo. Nunca imaginei ver-me numa situação assim. Levei muito tempo até aceitar que a vida não tinha acabado. É simplesmente o início de um novo capítulo. Tenho muita sorte porque tive uma segunda oportunidade quer na vida, quer em ser feliz. A força motriz da minha empresa é dizer às pessoas que há, de facto, coisas horríveis que nos podem acontecer e que demora a aceitá-las, mas que é possível fazer esse caminho. E se conseguirmos tornar esse caminho mais fácil – ir a um restaurante, a um hotel, passar um fim de semana fora -, então há que fazer essas coisas que fazíamos antes. Nós somos a parte essencial do processo, por isso temos de ser positivos”.