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A Europa e a encruzilhada britânica

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A Europa e a encruzilhada britânica

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O Reino Unido e a União Europeia estão numa encruzilhada. O caminho a seguir será ditado pelos eleitores britânicos esta quinta-feira. O referendo sobre a permanência das ilhas britânicas no bloco continental vai ter repercussões em ambas as margens do canal da Mancha, qualquer que seja o resultado. O mais temido é no entanto o fim do casamento rubricado em 1972 pelo primeiro-ministro conservador Edward Heath.

A relação entre o Reino Unido e a União Europeia nunca foi pacífica, mas houve tempos em que a paixão imperava. Em 1975, 67 por cento dos eleitores votaram pela manutenção do país na então Comunidade Económica Europeia.

O atual chefe do executivo de Londres, o conservador David Cameron, pressionado pela ala eurocética do seu partido e pelo resultado das eleições europeias de 2014, que deu a vitória ao partido da Independência do Reino Unido de Nigel Farage, convocou eleições parlamentares para o ano seguinte e prometeu renegociar a permanência do país na União e submeter o acordo a referendo.

O braço-de-ferro entre David Cameron e os parceiros do Conselho Europeu resultou em algumas concessões, como o reconhecimento de que a menção nos tratados que refere uma união cada vez mais profunda não se aplica ao Reino Unido.

Apesar da incerteza que um eventual “Brexit” representa, este resultado poderá, no entanto, ter o mérito de começar a clarificar as águas no seio da União Europeia.

Para analisar as consequências de uma possível saída, o editor-chefe da euronews em Bruxelas, Frédéric Bouchard, entrevistou Jean Quatremer, autor do blog “Corredores de Bruxelas” e correspondente do diário francês “Libération”.

Frédéric Bouchard/euronews (FB/euronews): “Com ou sem saída do Reino Unido, não está na hora da União Europeia se reinventar?”

Jean Quatremer/correspondente “Libération” (JQ/correspondente “Libération”): “Penso que, em última análise, se os britânicos ficarem nada irá mudar porque todos farão de conta que não se passou nada. Voltam a negociar as cláusulas de exceção para os britânicos com David Cameron, que passará por “imperador”. Afinal será o único líder europeu que, em 20 anos, ganhou um referendo sobre a Europa – e que referendo e com o que população! Será impossível recusar-lhe o que quer que seja, o que seria terrível. Mas, ao contrário, se saírem da União, tal será um choque poderoso, uma vez que se perde uma das principais economias da União Europeia, 25% do PIB da União, o que não é de somenos. Aí, teremos de propor um novo projeto ou, pelo menos, de fortalecer a zona euro para resistir à turbulência nos mercados financeiros e aos problemas económicos que vão surgir”.

FB/euronews: “Não é de temer um efeito dominó na Europa? Muitos países têm a possibilidade de realizar referendos, seja a Holanda, a Dinamarca ou a Finlândia, por exemplo?”

JQ/correspondente “Libération”: “Talvez seja necessário fazer referendos em todo o lado para deixar as coisas claras nos próximos 10 ou 20 anos! Será que podemos continuar a construir a Europa com países e cidadãos que já não acreditam no projeto europeu? Neste caso, não tenho a certeza de que haveria muitas saídas. O que esperar dos países da Europa de Leste, que são tão fortemente anti-europeus? Deve destacar-se que 4% do PIB destes países tem origem no orçamento europeu. Logo, isso convence-os a ficar porque teriam uma queda de 4% na economia. Também na maioria dos países Europa Ocidental, será que há interessados em sair da União? Talvez a França, caso Marie Le Pen se torne Presidente da República e, mesmo assim, os franceses sabem bem defender os seus interesse!”

FB/euronews: “Como avalia David Cameron, que faz esta jogada com o futuro do seu país, mas também de toda a União Europeia?”

JQ/correspondente “Libération”: “Eu acho que David Cameron permanecerá nos livros de história como um génio político de grande categoria: alguém que, para resolver um problema interno do Partido Conservador, convocou um referendo sobre a Europa depois de passar quase sete anos a criticar duramente a União Europeia! Agora argumenta exatamente o contrário do que disse durante sete anos, correndo o risco de perder o referendo, empurrando a Grã-Bretanha para o abismo, ou para um certo isolacionismo que a vai enfraquecer e que poderá causar uma crise europeia ou mesmo uma crise global, como disse Obama. Um génio! Winston Churchill deve estar às voltas no túmulo!”

FB/euronews: “Qual poderá ser o futuro estatuto do Reino Unido?”

JQ/correspondente “Libération”: “Estou cada vez mais convencido de que a Grã-Bretanha será um país terceiro sem qualquer acordo com a União. Porquê? Porque todos os acordos assinados com a União Europeia envolvem sacrifícios de soberania. Existem vários estatutos possíveis: o máximo é o de membro do Espaço Económico Europeu – como a Noruega, Liechtenstein, Islândia -, mas isso significa uma contribuição para o orçamento da UE e a aceitar todas as normas europeias. É o que chamamos de democracia por fax, recebe-se um fax com os regulamentos e diretrizes para integrar. Isso não lhes interessa. Em segundo ligar, há o estatuto da Suíça, com acordos bilaterais, mas também tem de contribuir para o orçamento da União e aceitar as políticas de que não gosta, tais como a livre circulação dos trabalhadores, algo que a Grã-Bretanha vai recusar. Depois pode-se negociar um estatuto como o da Turquia, um acordo aduaneiro, mas é apenas para a livre circulação de mercadorias e não inclui os serviços. Ora, o que os britânicos mais exportam são serviços, pelo que uma união aduaneira não lhes interessa. No fim, poderia ser um acordo de livre comércio? Também terão de respeitar os nossos padrões. Não estou a ver que tipo de acordo possa satisfazer Boris Johnson – que, em caso de saída, seria provavelmente o próximo primeiro-ministro britânico – porque tudo implica perda de soberania. Assim, depois de uma dose explosiva de soberania, resta-lhe ir para o Zimbabué!”.

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