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Clinton vs. Trump: o debate

Terá sido o debate presidencial mais visto na história da televisão.

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Clinton vs. Trump: o debate

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Terá sido o debate presidencial mais visto na história da televisão. O número de espetadores terá alcançado os 100 milhões. Em Nova Iorque, na segunda-feira à noite, Donald Trump e Hillary Clinton esgrimiram argumentos em torno da economia, segurança e terrorismo. Trump apresentou-se como um homem de negócios bem-sucedido e Clinton como uma política experiente.

“O meu plano passa por reduzir os impostos de forma tremenda, dos 35 para os 15 por cento para as pequenas e grandes empresas, o que vai permitir criar empregos como nunca vimos desde Ronald Reagan” – afirmou o candidato republicano, ao que a democrata respondeu – “O género de plano que o Donald avança iria sobretudo beneficiar os mais ricos, mais uma vez. Na verdade seria a versão mais extrema, os maiores cortes de impostos que os mais ricos deste país alguma vez teriam tido. Eu chamo-lhe uma farsa, porque é disso que se trata. Não é desta forma que se faz crescer a economia.”

Donald Trump foi encostado às cordas por não revelar a declaração fiscal. “Porque será que ele não revela a declaração fiscal? Eu acho que há um par de razões. Primeiro, talvez não seja tão rico quanto afirma. Segundo, talvez não seja tão caridoso quanto reivindica” – rematou Clinton. O candidato republicano contra-atacou com o caso do servidor privado de correio eletrónico que Hillary Clinton utilizou quando era secretária de Estado – “Eu vou revelar a minha declaração fiscal, contra a opinião dos meus advogados, quando ela publicar os 33 mil emails que foram apagados. Quando ela o fizer, eu também o faço.” Clinton não deixou o adversário sem resposta – “Eu cometi um erro ao usar um email privado e se pudesse voltar atrás, obviamente que agiria de forma diferente. Mas não vou apresentar nenhuma desculpa. Foi um erro e assumo as minhas responsabilidades.”

Trump acusou a candidata democrata de ser responsável pelas políticas que criaram vários problemas ao país, como a ameaça do autoproclamado Estado Islâmico – “Isto é algo que nunca deveria ter acontecido. Nunca. Agora toda a gente fala do Estado Islâmico mas você era secretária de Estado quando aquilo ainda era uma criança. Agora está implantado em 30 países. E agora vai travá-lo? Não me parece.”

O multimilionário acusou Hillary Clinton de não ter energia para ocupar o cargo de presidente. A antiga secretária de Estado recordou a misoginia do adversário – “Este é um homem que chamou às mulheres porcas, tolas e cadelas, e que disse que a gravidez é um inconveniente para os empregadores, que disse que as mulheres não merecem um salário igual ao dos homens, a menos que façam um trabalho tão bom quanto um homem. E, uma das piores coisas que disse foi acerca de uma mulher num concurso de beleza. Ele chamou-lhe Miss Doméstica porque era latina. Ela tornou-se cidadã americana e podem crer que vai votar em novembro.”

“o problema de Hillary Clinton é que não conseguiu mobilizar as bases democratas”

A análise do correspondente da euronews em Washington, Stefan Grobe.

euronews:

A maioria das opiniões parece dar a vitória neste primeiro debate a Hillary Clinton. Quais foram as reações na América?

Stefan Grobe:

Para a grande maioria dos comentadores, Donald Trump sobreviveu a muito custo. Ele não meteu os pés pelas mãos mas não também conseguiu impedir Hillary Clinton de ter uma das melhores noites da sua campanha. Donald Trump não estava tão bem preparado quanto Clinton. Teve problemas com os factos, teve problemas com questões políticas e passou grande parte da noite na defensiva o que não foi bem visto. Já Hillary Clinton permaneceu bastante calma e muito confiante, por vezes teve piada e foi espirituosa e aparou os golpes de Trump de forma muito fácil, pelo que se pode questionar se venceu o debate. Trump perdeu-o claramente e se fosse um apoiante de Trump hoje não estaria feliz, nem nos dias que se avizinham.

euronews:

A pergunta fundamental é saber qual o impacto no eleitorado indeciso. Temos alguma indicação sobre este dado?

Stefan Grobe:

Bem, ao fim de um ano e meio de campanha, acredite-se ou não, há apenas uma pequena fatia do eleitorado indecisa. Muitos destes eleitores são apoiantes de outros partidos. Existem dois pequenos candidatos que, combinados, totalizam 10 por cento das intenções de voto e o mais forte deles é Gary Johnson, o antigo governador republicano do Novo México, mas os seus apoiantes são sobretudo republicanos que detestam Trump. Agora estes eleitores vão olhar novamente para os dois candidatos e o que veem é que Hillary Clinton é bem mais presidenciável, competente e confiante. O meu palpite é que, eventualmente, estes eleitores vão acabar por votar Hillary Clinton.

euronews:

Até que ponto foi este debate importante uma vez que ainda há um longo caminho a percorrer até às eleições, em novembro?

Stefan Grobe:

Aqui diz-se que o primeiro debate é sempre o mais importante, porque depois de um debate de 90 minutos as pessoas desligam. Tradicionalmente, o segundo debate, em termos de audiência, é fraco, com alguma recuperação no terceiro. É difícil dizer se este debate em particular vai mudar a narrativa. Certamente que deixou os democratas contentes porque, convém recordar, o problema de Hillary Clinton é que não conseguiu mobilizar as bases democratas como Barack Obama fez há quatro e há oito anos. Ela precisa apenas que os eleitores de Obama apareçam e votem nela. Mas isso Clinton ainda não conseguiu.