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O envelhecimento da Europa exige respeito


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O envelhecimento da Europa exige respeito

Uma esperança de vida mais alargada, uma taxa de fecundidade mais reduzida – é este o ciclo em que a Europa entrou. Que consequências tem o envelhecimento da população sobre a economia e os sistemas de saúde? Através de dois exemplos, Portugal e Eslovénia, vamos abordar os desafios das mudanças demográficas na Europa.

O retrato dos europeus mudou: a população está mais velha. As gerações que se seguiram ao ‘baby-boom’ enfrentam as consequências da mudança demográfica sobre a economia e os sistemas de saúde. E, à medida que os anos passam, os desafios aumentam. Comecemos por analisar o cenário que os europeus têm perante si.

Um retrato antecipado da Europa

Por volta do ano 2060, estima-se que a taxa de natalidade na Europa seja maior do que hoje em dia. Mas não o suficiente para equilibrar a balança face a uma esperança de vida também maior. A partir de 2040, prevê-se uma queda significativa das migrações rumo à Europa. Todos estes fatores arriscam duplicar a população mais velha dependente dos trabalhadores mais jovens.

Ou seja, hoje em dia, por cada pessoa com mais de 65 anos, há 4 em idade ativa; mas a crise demográfica irá reduzir este número para metade. Até 2060, a Europa vai perder cerca de 9 milhões de trabalhadores.

Entre 2007 e 2011, a população ativa aumentou, mas os níveis de emprego não acompanharam; entre 2012 e 2022, regista-se uma tendência de crescimento de oportunidades entre os mais jovens; mas a partir de 2023, estreita-se a faixa da população ativa que vai iniciar assim um percurso descendente.

Uma população envelhecida significa mais custos na área da Saúde, logo um peso orçamental maior: 16 países europeus apresentam um risco concreto em termos de sustentabilidade do sistema. Estima-se que as despesas relacionadas com o fenómeno do envelhecimento atinjam cerca de 2% do PIB europeu. O jornalista Guillaume Desjardins foi até à Eslovénia ver que mudanças estão a ser feitas no setor da Saúde.

Eslovénia: Envelhecer sai mais caro

Nem todas as pessoas da mesma idade de Franci podem dizer o mesmo: “Tenho 79 anos e uma vida muito ativa: ando de bicicleta, faço ski, conduzo, faço caminhadas…”. Franci paga 660 euros por mês por um quarto com uma casa de banho privativa num lar de idosos de Liubliana.

Natasa Schwartbartl, assistente social, explica-nos que “são eles que assumem as despesas. Se não tiverem meios, são os filhos. No pior dos cenários, se ninguém da família tiver dinheiro, então aí sim, é o governo que paga”.

Segundo as estimativas, daqui até 2060, a população sénior vai aumentar cerca de 60%. Uma realidade que implica mais postos de trabalho nos cuidados médicos e em atividades para ocupar o tempo.

As flutuações do mercado laboral tornam ainda mais instável o futuro de um sistema de proteção social que depende do percurso contributivo dos trabalhadores. O foco da sustentabilidade centra-se agora, por exemplo, na implementação generalizada de métodos para detetar antecipadamente doenças como o cancro.

Como gerir o acréscimo de custos? O envelhecimento da população pode implicar uma subida de 1,4 pontos percentuais do PIB da União Europeia até 2060. E aqui na Eslovénia, essa previsão ascende aos 6,8.

As soluções variam de país para país, mas os especialistas salientam que não são só os governos que têm de tomar medidas, como a subida da idade de reforma, mas também cada um de nós.

Segundo Boštjan Vasle, diretor do Instituto de Análise Macroeconómica da Eslovénia, “sem a imigração, não vamos conseguir resolver este problema. Temos de encontrar estratégias para atrair pessoas que venham trabalhar e viver na Eslovénia. E que depois tenham aqui a reforma também”.

A visão de Pedro Barros, Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa

Maithreyi Seetharaman, euronews: Até 2060, metade dos países europeus vai ver a população regredir. Que implicações concretas é que isto tem para o setor da Saúde? Que ensinamentos podem as reformas feitas em Portugal trazer para a Europa?

Pedro Barros: A experiência diz-nos que são reformas difíceis e que demoram muito tempo a implementar. A criação de uma rede de cuidados continuados leva pelo menos dez anos. E ainda estamos a meio. Ou seja, é difícil identificar os recursos necessários, fazer com que as pessoas se motivem e levar os profissionais e os idosos a realizar a transição para um modelo diferente. Estes são os principais desafios.

euronews: Tendo em conta as diferenças, são ideias aplicáveis noutros países europeus?

PB: Sim, seguramente. As pessoas serão sempre o maior dos desafios numa questão como esta, que abarca uma grande diversidade de ideias. Provavelmente o caminho não será centrarmo-nos nos cuidados hospitalares, mas sim na assistência ao domicílio através de uma rede de outros profissionais para além dos médicos: enfermeiros, fisioterapeutas, entre outros.

euronews: Isso significa que a reforma da Saúde pode até criar oportunidades em termos de crescimento económico…

PB: Por vezes, temos tendência a tentar reorganizar a vida das pessoas. Mas se lhes for dada a possibilidade de escolher, provavelmente não vão optar pela solução mais cara. Isso permite-nos testar ideias novas, possivelmente até com os próprios pacientes ou idosos, no sentido de criar soluções que podem gerar novas oportunidades de negócio, por exemplo. E isso já começou a acontecer. Há empresas que fornecem sistemas de monitorização e de suporte de vida, por exemplo. São propostas que o sistema nacional de saúde pode vir a integrar.

euronews: E quais são os riscos inerentes aos custos dos cuidados continuados?

PB: Um dos pontos positivos da perspetiva organizacional é que podemos realmente introduzir mudanças de forma a gastar menos. Tomemos o exemplo de uma pessoa que sofra uma queda – pode optar por ser tratada em casa, garantindo que terá pessoas próximas que lhe deem algum tipo de acompanhamento. Será uma solução mais acessível do que ir para uma instituição privada. Não creio que seja uma visão com grandes riscos financeiros.

euronews: Considera que a Europa está a analisar a questão da perspetiva certa?

PB: É difícil encontrar uma só política para todos. Mas, talvez, o ponto de partida seja partilhar uma nova visão sobre os cuidados de saúde. É importante refletir sobre o que pretendem as pessoas mais velhas, como querem ser tratadas e que cuidados desejam receber. A perspetiva é que as pessoas também têm uma parte da responsabilidade na preservação da saúde e que o sistema tem deixar de pensar nele próprio, e em vez disso deve preocupar-se com as necessidades reais das pessoas.

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