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Debate em Davos: A era do multiculturalismo acabou?


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Debate em Davos: A era do multiculturalismo acabou?

O tempo do multiculturalismo chegou ao fim? Muitos apontam os resultados negativos das políticas de integração, numa altura de tensões sociais crescentes e rápidas mudanças demográficas. Este foi o tema de um debate que a euronews transmitiu em direto a partir do Fórum Económico Mundial de Davos, com a moderação da jornalista Isabelle Kumar, e do qual fazemos aqui um breve resumo.

Há cada vez mais manifestações de hostilidade em relação às minorias. A diversidade é questionada pelos movimentos populistas de direita que denunciam as consequências da crise dos refugiados. O sentimento de medo disseminou-se perante o incremento do terrorismo. É possível estabelecer um novo contrato social que consolide a confiança entre pessoas de diferentes proveniências?

Os convidados deste painel foram:

- Alexander De Croo, vice-primeiro-ministro da Bélgica – defende um uso mais aprofundado dos dados recolhidos sobre as migrações para compreender melhor as dificuldades sentidas na integração, sendo De Croo governante num país que, ele próprio, se divide entre flamengos e valões;

- Lonnie Bunch, diretor do Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana do Instituto Smithsonian, nos Estados Unidos, tendo um vasto percurso de investigação da história afro-americana num país constantemente abalado pelas tensões raciais;

- Elif Shafak, a premiada escritora turca e comentadora política, conhecida por defender os direitos das mulheres e das minorias, com um trabalho reconhecido em torno das questões de construção de identidade;

- Brendan Cox, ativista britânico, cofundador da More in Common, uma plataforma de combate ao fenómeno anti-imigração na Europa. A mulher de Brendan, a deputada trabalhista Jo Cox, foi assassinada no ano passado quando fazia campanha contra o Brexit. Brendan assumiu a missão de lutar contra os discursos de incitamento ao ódio.

“Falta um verdadeiro debate na Europa”

Segundo De Croo, “tem faltado um verdadeiro debate sobre a integração”, sobre a “coesão social” numa Europa que se diz liberal e herdeira dos valores iluministas. A Bélgica é um país multicultural e o problema não são os fluxos migratórios, mas sim as políticas de integração, como ela se processa, que emprego disponível há para as pessoas, como se desenvolve a partilha de valores comuns. É preciso defender o multiculturalismo, mesmo sendo uma noção que não é bem acolhida hoje em dia por faixas significativas da população. Para este governante, deve haver uma “abordagem personalizada” em relação a cada migrante e refugiado, é preciso compreender o percurso e o perfil de cada um, uma vez que é “facilitar demasiado” reduzir a identidade dos recém-chegados a uma generalização. A identidade é composta por inúmeros fatores.

Aprender com o passado afro-americano

Lonnie Bunch salientou que há muito a aprender com as conquistas dos afro-americanos nos Estados Unidos, um país cuja identidade nacional foi “moldada” pela questão racial. De acordo com este representante do Smithsonian, o passado demonstra que é possível lutar por mudanças positivas e por ideais de construção, e o Estado tem de ser chamado à responsabilidade para assumir esta missão. No entanto, Bunch aponta que este tipo de tensões sociais pode durar gerações, não se trata de um fenómeno de natureza “temporária”. Neste âmbito, os museus e as instituições culturais, espaços onde é possível sentir confiança, têm a responsabilidade de reagrupar as pessoas, têm o poder de as unir.

Estabelecer uma conexão real com os que são diferentes de nós

Elif Shafak sublinha que um terço dos europeus considera hoje que a diversidade é um elemento prejudicial, de acordo com um estudo recente. A Europa não pode repetir os mesmos erros do passado, aponta. Os demagogos têm de ser levados “muito a sério” e ninguém se pode dar ao luxo de não ter uma posição política nos dias que correm. Temos de deixar o nosso espaço vital para nos conetarmos às pessoas que nos rodeiam, afirma a autora, aprendendo com aqueles que são diferentes de nós. Shafak diz-se a favor da liberdade de expressão, mas os discursos de incitamento ao ódio devem ser sujeitos a enquadramento especial.

Falar dos pontos em comum, não das diferenças

Brendan Cox realça que não acredita na existência de “sociedades monoculturais”. Uma das grandes dificuldades atuais, destaca, é que muito se fala nas diferenças e pouco nos pontos em comum. É necessário estabelecermos uma conexão emocional uns com os outros, não falar apenas de factos. O Canadá tem sido um exemplo positivo em matéria de integração, havendo redes de acolhimento já montadas que impedem um sentimento de abandono dos migrantes e refugiados. É preciso salientar a empatia, não a desconfiança. Há várias histórias de famílias canadianas para quem a vida mudou positivamente depois de receberem refugiados. Os europeus que apoiam a vinda de migrantes não se manifestam tanto quanto os europeus que se posicionam contra e são estes que estão a determinar o discurso mediático que passa para a maioria da população.

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