Última hora

Última hora

Jornalista de 'Spotlight' conta à euronews: "Trump vai dar-nos muito trabalho"

Michael Rezendes, descendente de açorianos, foi representado por Mark Ruffalo no filme que triunfou na última edição dos Óscares.

Em leitura:

Jornalista de 'Spotlight' conta à euronews: "Trump vai dar-nos muito trabalho"

Tamanho do texto Aa Aa

Não tem o ar de galã de Mark Ruffalo, mas os amigos de Michael Rezendes são unânimes em dizer que o ator fez um excelente trabalho ao representá-lo em ‘Spotlight’, o filme que foi o grande vencedor da última edição dos Óscares.

Point of view

Hoje, vivemos numa situação em que as pessoas acreditam que têm direito aos seus próprios factos.

Michael Rezendes Jornalista de investigação

‘Spotlight’ é também o nome da equipa de jornalistas de investigação do Boston Globe, de que este descendente de açorianos faz parte há 16 anos. A equipa ficou famosa com a revelação, em 2002, do escândalo de pedofilia na Igreja Católica de Boston.

Em Lisboa, à margem do Congresso dos Jornalistas, onde foi orador convidado, Rezendes conversou com a euronews a propósito do filme, da investigação, da Internet, do papel das notícias falsas e do futuro da América, agora que Donald Trump chega à Casa Branca.


Michael Rezendes (foto: RF)

Ricardo Figueira, Euronews: Michael Rezendes, é um jornalista de investigação galardoado com o Pulitzer, famoso pela investigação ‘Spotlight’ sobre o abuso de menores na Igreja Católica de Boston. A Internet, a revolução da ‘Web 2.0’ e as redes sociais mudaram a sua área de trabalho para melhor ou para pior?

Michael Rezendes: É uma faca de dois gumes. A Internet deu-nos novas ferramentas para o trabalho, sobretudo no que toca ao jornalismo de investigação. Agora, temos acesso imediato a documentos da polícia ou dos tribunais, sem sairmos das nossas secretárias. Documentos que antes demoravam dias ou semanas a obter. Por outro lado, a Internet destruiu o modelo de receitas dos órgãos de comunicação social. Jornais como o Boston Globe estão com dificuldade em sobreviver. Precisamos de um novo modelo de receitas e ainda não o encontrámos.

Viu a paródia que John Oliver fez a propósito de ‘Spotlight’?

Ouvi dizer que está muito boa, mas ainda não vi.

Basicamente, diz que os meios de comunicação, hoje, estão menos focados em investir no jornalismo de qualidade e mais em coisas parvas que possam tornar-se virais e gerar cliques. É uma visão realista?

Há muita verdade nisso. Há muitos sites ditos de notícias que estão mais interessados em ter cliques que em ter um jornalismo de qualidade. Espero que seja apenas uma fase e, em breve, possamos evoluir para uma situação em que temos mais jornalismo de qualidade através dos novos meios.

Falemos sobre a investigação ao escândalo de pedofilia. Foi difícil para a equipa? Como conseguiram quebrar o encobrimento e chegar à verdadeira história?

Foi uma investigação difícil. Mais trabalho do que alguma vez imaginei. No filme, o que vê é uma investigação de cinco meses que leva à publicação da primeira reportagem. O que não vê é que continuámos a investigar a Igreja Católica e publicámos mais 600 reportagens, ao longo de um ano.

Também escrevemos um livro, durante a investigação. Tivemos muito trabalho. Posso dizer-lhe que a investigação à Igreja Católica consumiu dois anos da minha vida. Todos, na equipa ‘Spotlight’, pagaram um preço, tal como as pessoas à nossa volta. Ouvir dezenas de pessoas contar-nos como as suas vidas foram destruídas pelos abusos sexuais cometidos pelas pessoas em quem mais confiavam, os padres da Igreja Católica, foi devastador. Por isso tudo, foi uma investigação difícil.

Disse que ainda é crente, mas deixou de ir à igreja e está à procura de outros meios de exercer a sua fé. Foi esse o preço que pagou?

Não me considero católico agora. Era-o, durante a investigação. Mas, mesmo se continuo a considerar-me um homem de fé e crente em Deus, perdi a fé na Igreja Católica durante esta investigação.

Na Igreja ou nas pessoas da Igreja?

Na instituição. O facto de o Vaticano ter feito muito pouco quanto a este assunto, ao longo dos últimos 15 anos, não fez nada para restaurar a minha fé nesta instituição.

Mesmo com o Papa Francisco?

O Papa Francisco disse muitas coisas bonitas sobre fazer algo nesta matéria, mas ainda não vi nada concreto. Apontou uma comissão para estudar o tema dos abusos sexuais por padres, mas três anos depois não há conclusões nem recomendações. Também anunciou a criação de um tribunal para julgar os bispos que encobrem padres que abusam de crianças. Recentemente, anunciou que não haveria tribunal, apenas alterações à lei canónica para facilitar as sanções aos bispos. Talvez seja verdade, mas muitas vítimas de abuso veem isso como um retrocesso e uma promessa quebrada.

Como foi fazer o filme? Ter uma equipa de Hollywood a estudar a vossa forma de trabalhar e uma estrela como Mark Ruffalo a desempenhar o seu papel?

Foi, em grande parte, muito divertido. Foi instrutiuvo, aprendi muito sobre como se faz e como se promove um filme. Eu e o Mark [Ruffalo] ficámos grandes amigos, descobrimos que temos muito em comum. Ele tem origens italianas e franco-canadianas, eu tenho origens portuguesas e franco-canadianas. Temos as mesmas iniciais, gostamos dos mesmos livros, ele é muito ativo politicamente, falamos muito de política. Foi um grande prazer conhecer o Mark. Penso que fez um grande trabalho ao representar o meu papel. Todos à minha volta dizem que fez um retrato perfeito.

Foi muito divertido, mas nem sempre foi um mar de rosas. Como disse, foi uma investigação difícil. Foi uma etapa difícil na minha vida e nem sempre foi fácil voltar atrás no tempo e reviver aqueles anos. Contas feitas, foi uma experiência positiva, com muito mérito para os atores e, em particular, para o realizador Tom McCarthy e para o argumentista Josh Singer. Eles empenharam-se em recriar com grande fidelidade o Boston Globe, a nossa investigação e o nosso trabalho. Empenharam-se em fazer um filme sobre a importância do jornalismo numa altura em que o jornalismo está em crise e conseguiram-no com um grande sucesso.

Já que fala sobre o jornalismo estar em crise: O dicionário Oxford elegeu “pós-verdade” (post-truth) como a palavra de 2016. Pensa que este é um conceito real?

Hoje, vivemos numa situação em que as pessoas acreditam que têm direito aos seus próprios factos, o que é muito preocupante. As pessoas agarram-se às suas próprias visões da realidade, sem que haja muito consenso sobre o que é verdade e o que não é, o que faz com que seja difícil haver um debate frutífero sobre os temas da atualidade. É difícil termos uma sociedade unida em torno de um determinado tema. Há a ideia de que estamos numa nova era e isso pode, em grande medida, ser atribuido ao que é posto na Internet. As pessoas encontram sempre notícias que reforçam os seus pontos de vista ideológicos ou culturais, sem prestarem muita atenção à veracidade dessas notícias. Isso é um problema.

Pensa que as notícias falsas tiveram um impacto na eleição de Donald Trump?

Com certeza que tiveram, não tenho quaisquer dúvidas. Mas, como o próprio Trump disse, as notícias falsas funcionam nos dois sentidos. De ambos os lados da barreira ideológica americana, encontramos notícias menos que credíveis. As notícias falsas foram, sem dúvida, um fator.

Já que fala em notícias falsas de ambos os lados, pensa que a CNN fez bem ao revelar os detalhes da alegada armadilha montada a Donald Trump em Moscovo, já que esse relatório se baseia, aparentemente, apenas no que foi dito por alguém?

Tenho mais probIemas como o que o BuzzFeed publicou a com a explicação que deu. O BuzzFeed disse que era impossível corroborar a informação que publicaram e que deixaria a decisão aos leitores. Isso é uma desresponsabilização do jornalismo. Os jornalistas não devem ser meros estenógrafos. O trabalho de um jornalista é determinar o que é correto e o que não é, o que é verdadeiro e o que é falso e apresentar a verdade aos leitores, espetadores ou ouvintes. Dizer “vamos publicar isto, vamos conseguir muitos cliques e os nossos leitores logo decidem se é verdade ou não” é uma desresponsabilização por parte dos jornalistas.

Que conselhos daria a um jovem jornalista que quer fazer carreira no jornalismo de investigação, encontrar a verdade e derrotar os encobrimentos montados pelos poderosos?

Falo muito com estudantes de jornalismo e sou honesto com eles. Digo-lhes que é mais difícil viver desta profissão do que alguma vez o foi durante a minha vida. Por outro lado, também lhes digo que, se querem um mundo melhor e fazer algo pela mudança, então esta é uma ótima profissão.

Mas é difícil…

Sim, é difícil.

E vai ser mais difícil com Trump?

De certa forma, diria que não, porque com Trump vamos ter muito trabalho. Vamos ter muito sobre que escrever.