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Presidenciais2017: Beaucaire, um dos 11 "tubos de ensaio" da Frente Nacional


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Presidenciais2017: Beaucaire, um dos 11 "tubos de ensaio" da Frente Nacional

Beaucaire é uma comuna de 16 mil habitantes. Fica na região de Languedoc-Roussillon, no sul de França. Destaca-se como um dos 11 municípios governados desde há três anos pela Frente Nacional, de Marine Le Pen, a candidata de extrema-direita à sucessão de François Hollande como Presidente de França.

A taxa de desemprego ronda os 20 por cento nesta pequena cidade agrícola, cujo presidente da câmara é o carismático Julien Sánchez, um ultranacionalista de apenas 33 anos, famoso pela ascensão meteórica e, mais recentemente, também por ter dado a uma rua o nome de “Brexit”, o termo anglófono usado para descrever o divórcio unilateral do Reino Unido com a União Europeia. Algo que Marine Le Pen também defende para a França.

Julien Sánchez segue à risca a cartilha da Frente Nacional: proximidade às bases e assertividade com o eleitorado. Reforçou o efetivo da polícia municipal e fez das tradições uma prioridade.

As políticas do autarca parecem ser bem acolhidas, mas no mercado de Beaucaire poucos aceitaram assumi-lo para as câmaras da euronews.

Astrid Quirin, no entanto, não teve problemas em revelar as suas preferências. “Sánchez é da Frente Nacional. Todos os clientes me falam bem dele. Mesmo os que não votam Frente Nacional”, contou-nos esta comerciante.

“Eu vou votar Frente Nacional. Não tenho medo de o assumir”, prosseguiu Astrid Quirin: “Penso primeiro nos migrantes, mas, assumo-o sem vergonha, para mim, são os franceses primeiro. No entanto, se após as eleições não houver mudanças, não voltarei a votar. Estou muito desiludida com a política.”

Julien Sánchez começou cedo na política, tinha 16 anos. Tornou-se num comunicador experiente. Aderiu à Frente Nacional no ano 2000 e tem vindo a ajudar a melhorar a imagem do partido nos últimos anos. Fez inclusive parte do conselho estratégico da campanha eleitoral de Marine Le Pen.

Em entrevista, Julien Sánchez contou ter passado “metade da vida no partido”, justificando-o com a convicção de que “para dar boas soluções à França é preciso perceber a realidade”. “Acredito que somente a Frente Nacional não fecha os olhos aos atuais problemas do país e, por isso, é quem pode propor as soluções mais ajustadas”, alegava o autarca de Beaucaire.

O partido da extrema-direita modernizou-se. Tem uma importante presença nas redes sociais e Marine Le £Pen, por exemplo, soma mais de um milhão de seguidores, tanto no Facebook como no Twitter.

A candidata presidencial aponta os discursos aos jovens e às mulheres, mas as prioridades continuam a ser a segurança, a imigração e o emprego, os temas preferidos dos militantes mais antigos.

Contabilista reformada, Laurence Sylvestre lembra: “Eu votei Jean-Marie Le Pen no início. Ele era um pouco mais duro com os imigrantes. Parece-me que a Marine é um pouco mais complacente.”

Esta apoiante fiel da Frente Nacional garante não ser “contra os muçulmanos nem outros quaisquer”, mas diz ser preciso “parar todos estes migrantes que continuam a entrar em França”. “Como já não há trabalho para todos, para mim, o fecho das fronteiras em França seria muito bom”, afirma Laurence Sylvestre.

A filha de Laurence, Sabrina Berqué, segue a mesma linha de pensamento no apoio à candidata da extrema-direita. “Já tentámos de tudo. Agora não outra alternativa se não a Marine. É preciso que ela seja eleita e depois logo se vê. Queremos dar um futuro aos nossos filhos, isso é que é o importante, mas hoje em dia não sabemos para onde vamos. Nem sei para onde eles pretendem ir”, atirou a funcionária de limpeza hoteleira.

Em Beaucaire, no entanto, nem todos estão satisfeitos. O mal-estar é tal que a oposição uniu forças para denunciar a comunicação agressiva e falsa da Frente Nacional na cidade e ainda um rol de processos judiciais abertos contra membros do partido, muitos contra Julien Sánchez.

Tendo o autarca da Frente Nacional por base, Stéphane Linossier, do coletivo de esquerda “Reagir por Beaucaire” perspetiva Marine Le Pen como presidente de França. “A nível municipal, existe uma prática de poder concentrada nas mãos de um só homem. Sanchez não delega nada. Por isso, a nível nacional, podemos esperar que Marine Le Pen queira ter nas mãos o poder absoluto porque na V República todos os poderes se concentram numa só pessoa. Se for ela, isso seria assustador”, antevê.

O Ajuntamento de Cidadãos de Beaucaire é uma associação de luta contra o racismo e a discriminação. Não está contra a autarquia, mas também revela receios.

“Se ganhar, Marine Le Pen vai atacar primeiro as liberdades individuais. Aqui, em Beaucaire, o presidente da câmara tem atacado a liberdade de consciência e de expressão. Se exprimirmos o que pensamos, somos apontados como estando do contra e o autarca vitimiza-se. No meu caso, não sou política nem economista, mas o fecho das fronteiras não faz sentido e, quanto a sair da Europa, não sou nada a favor porque sou uma pró-europeia convicta”, assume Laure Cordelet.

Embora poucos o assumam, em Beaucaire há preocupação pelo eventual “Frexit”, a saída da França da União Europeia, que Marine Le Pen tanto defende. A divisão de opiniões existe nesta cidade dominada pela Frente Nacional, mas para o presidente da câmara, a haver uma divisão, será apenas entre aqueles que respeitam as regras e os outros.

Autora de “Ilusão Nacional” avisa: Frente Nacional continua xenófoba

A jornalista da euronews Sandrine Delorme entrevistou, a propósito da reportagem em Beaucaire sobre a ascensão da Frente Nacional, a historiadora Válerie Igounet, a autora do livro “Ilusão Nacional” e especialista na análise do partido liderado por Marine Le Pen.

euronews, Sandrine Delorme: Durante dois anos estudou o eleitorado e os municípios franceses governados pela Frente Nacional para escrever o livro. O que a marcou mais?
Valérie Igounet:
O que sentimos, em primeiro lugar, foi a desilusão total em relação à política francesa. Isto é, as pessoas confiaram nos políticos e agora já não acreditam em nada. Muitos insistiam nas promessas não cumpridas. Não as esquecem. Houve políticos que vieram junto do eleitorado rodeados de câmaras, mas nunca mais voltaram a mostrar-se apesar das promessas eleitorais. Agora também confiam em Marine Le Pen, é o que demonstram. Porque ela dá a cara, faz promessas e também porque a Frente Nacional nunca foi testada no poder. Isto ouve-se muito.

“Dizia-me que a Frente Nacional evoluiu, que mudou. Foi essa uma mudança profunda e verdadeira ou é artificial e apenas superficial? Hoje em dia, este partido que se diz de direita e de esquerda é um partido que pretende açambarcar todos. Entre os 144 compromissos estabelecidos no programa de Marine Le Pen existem medidas para todos os gostos. No fundo, a Frente Nacional não mudou e isso é preciso dizê-lo. Contudo, há uma diferença: os eleitores acreditam que esta mulher, presidente da Frente Nacional há alguns anos, mudou o partido e que o partido já não é o mesmo. Defendem mesmo que o partido já não é racista. Mas, no que toca à islamofobia, a Frente Nacional revela-se xenófoba e assume-o sem problemas. A prioridade nacionalista que reivindica não se pode dizer que esteja isenta de xenofobia e isso é claro.

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