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'A ocupação da Palestina desumaniza Israel'


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'A ocupação da Palestina desumaniza Israel'

“A ocupação da Palestina não é só um atentado grave aos direitos dos palestinianos e às normas humanitárias – é um cancro que vai acabar por destruir completamente a democracia em Israel.”

Quem o diz é Daniel Bar-Tal, um israelita de 71 anos, fundador do movimento “Salvemos Israel, fim à ocupação” (Save Israel-Stop the Occupation, SISO) e uma das maiores autoridades mundiais em psicologia política.

Em 2017 completam-se 50 anos desde que Israel controla ilegalmente Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Leste. Alarmado com os efeitos da ocupação na sociedade israelita, Daniel Bar-Tal decidiu agir.

Em Israel, multiplica esforços para convencer a sociedade israelita de que pôr fim à ocupação da Palestina é uma obrigação moral e uma questão estratégica e económica vital para Israel. Consciente do enorme potencial de pressão que representam os judeus da diáspora, corre o mundo apostado em congregar as vozes de todos aqueles que se opõem à ocupação.

Exige do governo israelita que se retire das terras ocupadas antes de 5 de Junho de 2017, data do quinquagésimo aniversário da ocupação militar dos territórios palestinianos na sequência da Guerra dos Seis Dias.

“Estes 50 anos de ocupação da Palestina transformaram Israel num Estado pária”, disse Daniel Bar-Tal à Euronews em Genebra, onde participou no debate “Israelitas e palestinianos contra a ocupação”.

Descomprometimento moral

O conhecimento que tem da sociedade israelita não lhe permite ser optimista. Explica que os judeus de Israel foram alvo de endoutrinamento: “Na sequência da ocupação, o governo e as instituições construíram uma narrativa que foi assumida como fundamento epistemológico.

Os frutos estão à vista: para 72% da população não existe nenhuma ocupação e os palestinianos são terroristas intrinsecamente violentos que querem aniquilar os judeus.” Bar-Tal ressalva que esta é uma convicção partilhada pelo cidadão comum e pelos dirigentes políticos, incluindo muitos da oposição, e que só 20% da população rejeita esta narrativa.

Constata um processo de “desumanização da sociedade israelita” que deveria chocar profundamente os judeus porque “evoca memórias da perseguição nazi contra o povo judeu”.

As pessoas acreditam no governo e consideram traidores todos os judeus que defendam a paz com os palestinianos ou que denunciem a imoralidade da ocupação. Os palestinianos não podem ser vítimas, porque o estatuto de vítima pertence em exclusivo aos judeus.

“A lição a tirar do holocausto é que nunca deveríamos permitir que possa ser instaurado um regime baseado no desprezo por outros seres humanos, mas essa lição tem uma versão adulterada: nós, judeus, temos de nos defender sem dar ouvidos ao que dizem os outros, porque as outras nações permaneceram em silêncio quando seis milhões de judeus foram aniquilados.”

Daniel Bar-Tal recorre aos conceitos da sua disciplina: “A vitimização, a reivindicação do estatuto de vítima em regime de exclusividade, está ligada a dois grandes princípios da psicologia: o de descomprometimento moral – os judeus não se sentem culpados nem envergonhados pelo que fazem aos outros, e o de direito moral – o sentimento de que os judeus são merecedores do privilégio de cometer crueldades para se defenderem. Estes dois princípios dão-nos o retrato do judeu de hoje em Israel.”

Esta narrativa é cimentada de geração em geração. O governo usa para isso os média e o sistema educativo, frisa o activista: “A Linha Verde, que delimitava a fronteira entre Israel e os territórios Palestinianos desapareceu em 1972 dos manuais de geografia. As crianças israelitas são levadas a pensar que se trata de território de Israel.”

Uma sociedade doente

Em Agosto de 2014 o presidente de Israel, Reuven Rivlin, disse que “Chegou o momento de admitir que Israel é uma sociedade doente, com uma doença que exige tratamento”. Recentemente, condenou a exploração do medo por políticos israelitas. O nome de Benjamin Netanyahu não foi evocado, mas o primeiro-ministro é um dos políticos que não hesita em alimentar fantasmas antigos para empurrar os judeus da diáspora a instalarem-se em Israel.

Apesar disto, seria esperança vã procurar nas declarações do presidente sinais de uma oposição à ocupação. Para Daniel Bar-Tal, esta contradição ilustra bem uma esquizofrenia instalada na política israelita. “A deterioração da democracia e o desprezo pelos direitos dos palestinianos são duas questões intimamente ligadas, mas o político do Likud não vê essa ligação.” Porquê? Bar-Tal explica que o chefe de Estado é um “falcão”, um político que “sacrifica os princípios democráticos para defender que a totalidade do território nos pertence em exclusivo e que ao mesmo tempo se considera um democrata.”

Os políticos israelitas negam plenos direitos aos palestinianos porque isso significaria perder a maioria e a natureza judaica do Estado, “o grande dogma sionista”. Para Daniel Bar-Tal quem paga a factura é a democracia: “A verdade, é que, se continuarmos a dominar os palestinianos, vamos transformar Israel num sistema de apartheid. O apartheid já existe e evitar a palavra não altera a realidade. A situação prolonga-se há 50 anos e de nada serve dizer que a ocupação é temporária.”

O governo de Israel “transformou Gaza numa prisão a céu aberto”: “Se perguntar aos israelitas, dizem-lhe que Gaza é livre, mas não é verdade, Gaza está sob controlo total de Israel – tudo o que entra ou sai, pessoas e mercadorias.”

O que mais desagrada ao governo são todas as informações que desmentem a narrativa de hegemonia que se esforça por disseminar. Bar-Tal aponta um dos exemplos mais flagrantes: o movimento “Breaking the Silence”, que denunciou crimes cometidos pelo exército na Faixa de Gaza em 2014. “Irritam e incomodam muito, pois vêm desmentir a imagem de que o exército de Israel é o exército mais moral do mundo. “Breaking the Silence” é uma voz que interpela todos os israelitas, porque em Israel o serviço militar é obrigatório para homens e mulheres, todos os cidadãos são convocados às Forças de Defesa.”

Convencido de que “os judeus não vão poder por mais tempo agir como agiam os seus perseguidores”, Bar-Tal sublinha que são cada vez mais numerosos aqueles que dizem “Chega!”, que não se sentem representados por Benjamin Netanyahu. Apostado em unir os judeus da diáspora que estão contra a degradação da democracia em Israel, rejeita as criticas do governo: “As mesmas autoridades israelitas que dizem que os judeus que vivem fora de Israel não têm o direito de se pronunciar contra as políticas de Israel, fazem constantemente apelo ao lobby político e financeiro da diáspora.”

Daniel Bar-Tal

Professor emérito de Psicologia Social do Instituto de Educação da Universidade de Tel Aviv, Daniel Bar-Tal nasceu no Tajiquistão, URSS, em 1946, mas viveu a infância em Szczecin, Polónia, até imigrar para Israel em 1957. Completou a graduação na universidade de Tel Aviv e fez a pós-graduação em psicologia social na Universidade de Pitsburgo, na Pensilvânia.

Daniel Bar-Tal é uma das maiores autoridades mundiais em psicologia política e educacional. Recebeu várias distinções académicas pelos seus trabalhos sobre a aplicação prática dos princípios da psicologia política à solução de conflitos.

Save Israel-Stop the Occupation (SISO)

O professor Daniel Bar-Tal fundou o movimento “Salvemos Israel, fim à ocupação” em 2015, com um grupo de personalidades proeminentes do meio político e diplomático de Israel e destacados acivistas pela paz, entre os quais o ex-conselheiro em política estrangeira de Ehud Barak e ex-director geral do ministério dos Negócios Estrangeiros Alon Liel, o embaixador e hitoriador Eli Barnavi, o conselheiro do secretário de Estado americano John Kerry durante as negociações israelo-palestinianas de 2013-2014 Menachem Klein e a ex-directora executiva entre 2001 e 2104 de B’Tselem, o centro israelita de informação para os direitos humanos nos territórios ocupados Jessica Montell.

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