Última hora

Quando a retoma nasce em Espanha, não é para todos

Segundo dados oficiais, mais de 40% das pessoas que vivem na região da Andaluzia está em risco de pobreza e exclusão social.

Em leitura:

Quando a retoma nasce em Espanha, não é para todos

Tamanho do texto Aa Aa

É um quadro típico nos meses de verão: um grupo de crianças que usufrui de uma piscina pública, neste caso em Sevilha, no sul de Espanha. Mas há um elemento particular no cenário. Todas estas crianças pertencem a famílias para quem a retoma económica ainda não chegou.

Vivem no bairro do Polígono Sul, um dos mais desfavorecidos de Espanha. Para além dos passeios que organizam, os educadores sociais da associação Entre Amigos distribuem diariamente refeições nas escolas locais durante o verão, no âmbito de um programa de assistência lançado há 3 anos pela ONG Educo.

“Este ano, recebemos mais 40% de pedidos para ajuda alimentar do que no ano passado. A crise económica provocou cortes nos setores da educação, da saúde, dos apoios sociais. Isso fez com que muitas famílias procurassem reduzir os encargos que têm com a comida. Não se pode falar de fome em Espanha. Mas há má nutrição”, diz-nos Fernando Rodríguez, desta ONG.

“O receio é que a pobreza se torne crónica”

Segundo dados oficiais, mais de 40% das pessoas que vivem na região da Andaluzia estão em risco de pobreza e exclusão social. Na cidade de Sevilha, uma das maiores do país e um destino turístico privilegiado, não é difícil encontrar casos como os de Salud Funes.

Todas as manhãs, leva os seus filhos gémeos à escola antes de ir trabalhar. As crianças podem participar aqui nas atividades lúdicas e educativas organizadas pela ONG Save The Children, uma iniciativa que visa colmatar algumas das carências do sistema.

“Vimos chegar famílias que perderam o que tinham, perderam o emprego ou então trabalham em condições precárias e perderam o direito a receber ajudas. O nosso receio é que a pobreza se torne crónica”, aponta Javier Cuenca, da Save The Children.

Salud vive em casa dos pais, juntamente com as famílias dos dois irmãos. Afirma que o seu trabalho de empregada doméstica e o do seu marido na construção civil não lhes permite pagar uma renda. “É a minha mãe que nos ajuda. É ela que põe comida na mesa todos os dias. E é a vida que temos”, desabafa.

O marido de Salud esteve desempregado durante anos. Recentemente encontrou trabalho, mas com contratos temporários e salário variável. “No primeiro mês, recebeu 800 euros; no segundo, 900; no terceiro, 550. É uma miséria. Não sabemos quanto vamos ter no fim do mês. O meu salário também depende das horas que faço. Tento poupar um pouco quando ganho mais, porque há meses em que não sobra nada para pagar as contas”, conta.

“Vou continuar a dever dinheiro ao banco”

Manolo Garrido trabalha numa plataforma que ajuda pessoas com problemas de crédito, especificamente no setor imobiliário. Encontramos aqui quadros superiores, empresários, pessoas das mais variadas proveniências. Alguns foram literalmente despejados de casa; outros estão em vias disso.

“Aqui podem encontrar algum conforto, alguma ajuda. As pessoas dão-se conta que podem negociar a sua situação. Se não houver mesmo forma de pagar, é possível encontrar uma solução. Não vão parar logo à rua, como alguns deles pensam”, afirma Manolo.

Celestina e o marido tinham uma empresa com cerca de 15 pessoas. Quando alguns dos maiores clientes deixaram de pagar, deixaram também de ter forma de respeitar os compromissos bancários. Seguiu-se um processo de falência. O seu apartamento foi penhorado. As instalações da empresa vão ser vendidas para colmatar a dívida.

“A empresa era aqui. Perdi a minha casa. Está um processo em curso para que o banco se aproprie das instalações. E, mesmo depois, vou continuar a dever dinheiro ao banco”, explica-nos.

Celestina vive em casa do filho de 25 anos, cujo salário, de mil euros, lhe tem garantido a subsistência. Tudo isto lhe valeu uma grave depressão e o divórcio. Aos 53 anos, tenta abrir um novo capítulo. Acabou de encontrar um trabalho numa empresa de serviços de assistência a idosos. Vai ganhar 500 euros por mês.

“Tenho trabalho para dois ou três meses. Não sei quanto tempo vai durar. Continuo a procurar emprego, todos os dias. Peço ajuda às assistentes sociais, à Caritas, para que me ponham em contacto com outras pessoas. Continuo a mandar o meu currículo para restaurantes, bares. Estou a tentar arranjar alguma coisa”, diz.

“Os políticos continuam a meter dinheiro ao bolso”

A Espanha regista uma das mais elevadas taxas de crescimento da zona euro. Mas os índices de pobreza na Andaluzia permanecem mais ou menos idênticos, sublinha Mariano Pérez de Ayala, responsável regional da Cáritas, que aponta o dedo à política de austeridade e à reforma da lei laboral.

“O nosso sistema praticamente não corrige as desigualdades numa altura que é de retoma económica. Aliás, agrava as desigualdades e destrói o emprego. A crise deu cabo de muitas das conquistas sociais europeias. Está a impor-se um modelo ideológico de recorte neoliberal que restringe as políticas sociais. Todas as reformas laborais que têm sido executadas limitam os avanços feitos nos últimos anos”, considera.

Há 9 anos que Asunción Campanario não tem um emprego fixo. Decidiu trabalhar por conta própria: todas as semanas, vai comprar vestuário a grossistas para o revender nos mercados. Mesmo assim, procura regularmente ajuda de associações caritativas para sustentar os dois filhos e a mãe que vive com ela.

“Já tive um bar, já trabalhei em armazéns grossistas, já vendi bijuteria… O meu marido também já fez de tudo um pouco: já trabalhou para uma empresa de elevadores, já esteve nas obras. Agora estamos por nossa conta. Trabalhamos muito mais e ganhamos menos… (…) Isto está para durar… Os políticos continuam a meter dinheiro ao bolso. Só pensam neles. Os pobres são cada vez mais pobres e os ricos, mais ricos. Foi sempre assim…”, remata.