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O regresso do antissemitismo na Alemanha?

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O regresso do antissemitismo na Alemanha?

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Em Berlim, um refugiado sírio agrediu, com um cinto, dois jovens que usavam um quipá, o barrete usado por alguns judeus. A agressão ocorreu há dois meses e chocou a sociedade alemã. A comunidade judaica da Alemanha, cerca de cem mil pessoas, está preocupada. Será que há uma nova forma de antissemitismo associada ao aumento do número de imigrantes muçulmanos?

A Euronews falou com Wenzel Michalski, o pai da vítima. A família judaica de Berlim acolheu um refugiado sírio, durante um ano. O filho até mudou de escola para conviver com jovens imigrantes.

"No final da primeira semana na escola pública, o professor perguntou aos alunos se conheciam templos religiosos. O meu filho respondeu "sinagoga". O professor replicou: 'por que razão conheces a sinagoga? És judeu?' Ele disse que sim. A partir desse momento, o meu filho começou a ser vítima de bullying, a ser agredido com pontapés", contou Wenzel Michalski.

Mais tarde, o adolescente foi ameaçado com a réplica de uma pistola. Os agressores simularam um tiro na cabeça, uma falsa execução.

"Primeiro, dois rapazes mais velhos prenderam-no pelo pescoço e estrangularam-no com tanta força que ele perdeu consciência. Depois, um rapaz com a réplica de uma arma como esta apontou para ele e disparou", acrescentou o pai da vítima.

A família Michalski tem origens judaicas e cristã. Foi perseguida durante o regime nazi, na Alemanha. Só uma parte da família sobreviveu.

"O meu pai escreveu um livro sobre esse período. Isto é uma loucura, mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, aos 14 anos, o meu pai foi vítima de antissemitismo, num colégio de jesuítas. Tinha a idade do meu filho, agora. Nesse tempo o meu pai foi vítima de bullying na escola. O mesmo está a acontecer com o neto dele, setenta anos depois. É extremamente chocante", desabafou Wenzel Michalski.

Michalski responsabiliza o diretor e os assistentes sociais por não impedirem as agressões antissemitas. O filho foi obrigado a mudar de escola. Por razões de segurança, não dá entrevistas televisivas.

"Por causa do que aconteceu, o meu filho começou a aprender karaté. Está muito orgulhoso por ter conseguido o cinto vermelho. Além de karaté, faz musculação e está a ficar com muitos músculos. Há vários jovens judeus a fazer a mesma coisa", contou Wenzel Michalski.

INSIDERS | Filming in Berlin

Uma minoria intolerante

Apesar da ocorrência deste tipo de agressões, a maioria dos muçulmanos, na Alemanha, defende o princípio democrático da tolerância. Mas, alguns bairros de Berlim, como o bairro de Neukolln, estão na mira dos serviços secretos alemães devido à existência de laços diretos com grupos terroristas como o Hamas e o Hezbollah. Não é preciso uma câmara escondida para ouvir discursos de ódio e antissemitas.

"Os judeus devem ser eliminados. Hitler matou 90% dos judeus, deixou 10%. Foi bom. Se ele não o tivesse feito, os judeus teriam conquistado o mundo inteiro", disse um jovem de origem palestiniana, entrevistado pela euronews. Declarações deste teor são punidas por lei, em vários países.

Mas, a grande maioria dos muçulmanos, na Alemanha, considera que as diferentes religiões devem conviver lado a lado em paz, como constatou o repórter da euronews.

"Somos todos humanos, independentemente de sermos judeus, cristãos ou muçulmanos. É preciso respeitar todos os muçulmanos, cristãos e judeus no mundo. Cada um de nós deve respeitar o outro", disse Amal, residente no mesmo bairro, em Berlim.

Muçulmanos e judeus unidos

"Conhecer para repeitar" é o nome de um projeto de prevenção da discriminação, no bairro de Spandau, em Berlim. Equipas de formadores, compostas por muçulmanos e judeus, organizam encontros nas escolas berlinenses onde há maior diversidade étnica e cultural.

A Euronews assistiu a uma sessão onde estiveram presentes alunos de várias origens. Durante o encontro, Ender Çetin, um dos formadores, colocou a seguinte questão: sabem o que significa a palavra discriminação?

"No meu primeiro ano, na escola, fui excluída porque não falavam bem alemão", respondeu Fatima, aluna na Escola Beerwinkel, na capital alemã.

"A minha mãe é polaca e por isso eu também sou polaco e por causa disso muitas pessoas dizem que roubo coisas" lamentou Erik.

"Quando quero brincar com crianças turcas, às vezes sou excluído porque sou curdo", relatou Cem.

"Não há mal em sentir-se diferente e ser diferente, o que não está bem é sentir-se excluído", explicou Joelle Spinner, uma das formadoras que promove uma maior consciencialização da fé judaica na sociedade.

Para os responsáveis do projeto, é essencial combater todos os tipos de discriminação. Durante os encontros, as crianças ficam a saber que judeus, cristãos e muçulmanos partilham os mesmos valores e problemas.

"Muçulmanos, cristãos e judeus podem ser os melhores amigos, a amizade é melhor do que a guerra", garantiu Cem, um dos alunos.

"Para mim, foi importante falar sobre os judeus e sobre exclusão. Não é fácil para nós, as crianças. As crianças não escolhem a religião que têm", concluiu Fatima.

Discursos de ódio antissemita estão presentes em muitas escolas na Alemanha. Por isso, os projetos voluntários da sociedade civil na área da prevenção das discriminações nunca são demais.

Todos os tipos de violência e e ódio são maus. Somos crentes e somos contra isso. A nossa religião defende o respeito e a prática da caridade. Devemos dar o exemplo. É por isso que estamos aqui", sublinhou o ativista Joelle Spinner."Estamos aqui para mostrar às crianças que os preconceitos são totalmente errados. Muitas crianças têm preconceitos contra os judeus. Convidamos todas as crianças a ver a situação de perto. Sou judeu, podem perguntar-me o que quiserem", acrescentou o responsável.

O dia do quipá em Frankfurt

A cidade de Frankfurt organiza o dia do quipá em que todas as pessoas são convidadas a usar um quipá, o barrete usado por alguns judeus.

O presidente do conselho de estudantes da escola de Wöhler, Carl-Philipp Spahlinger, é cristão e decidiu usar o quipá durante todo o dia para combater preconceitos. No passado, alguns alunos da escola proferiram palavras de ódio antissemita mas os professores reagiram imediatamente e o problema foi resolvido. Os professores afirmam que o mais importante é agir e não esconder os problemas.

Em 2001, a escola lançou um projeto sobre a história do judaísmo.

"Temos um memorial onde comemoramos os estudantes assassinados durante o regime nazi. Hoje, participamos no dia do quipá para protestar contra o antissemitismo. Esta manhã distribuímos 130 quipás em frente à escola. Ao mesmo tempo, é importante ir mais longe. Não estamos a alertar apenas sobre o problema do antisemitismo mas sobre todos tipos de discriminação", contou Carl-Philipp Spahlinger.

O rabino Daniel Alter monitoriza a vários anos o fenómeno do antisemitismo, um problema que já sentiu na pele. Em 2012, foi agredido, em frente à filha. Partiram-lhe o queixo. Além do antissemitismo tradicional de extrema-direita e de extrema-esquerda, será que estamos a assistir a um novo tipo de antissemitismo importado de outros países?

"Por um lado, é uma boa decisão da parte da Alemanha, um país rico, acolher pessoas que fogem da guerra e da perseguição. Está certo. Estou de acordo. Mas por outro lado, vejamos o caso da Síria, por exemplo. Muitos refugiados vêm de países onde se odeia os judeus. O ódio contra Israel é quase o fundamento do Estado", afirmou Daniel Alter.

"Estamos no século XXI, mas, em Berlim, há grupos nas ruas a gritarem "Hamas, Hamas, judeus ao gás'. Essas palavras ouvem-se, hoje, nas ruas alemãs. Se uma forma inimizade centrada num grupo emerge qualquer outra forma de inimizade poderá voltar a surgir", avisou o rabino.

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