Última hora

Última hora

Os embondeiros milenares e as mudanças climáticas

Em leitura:

Os embondeiros milenares e as mudanças climáticas

Os embondeiros milenares e as mudanças climáticas
Tamanho do texto Aa Aa

O embondeiro africano pode chegar aos 20 metros de altura, com troncos tão grossos que podem servir de casas e mesmo de prisões em pequenas comunidades do Grande Continente. É considerado como uma das maiores árvores do mundo.

Mas a que é conhecida como "a árvore da vida" econtra-se ameaçada, por causa das alterações climáticas. Vários dos mais antigos exemplares morreram nos últimos anos de forma abrupta e inesperada.

A informação é divulgada num estudo publicado pela revista científica Nature Plants. Pelo menos nove dos 13 embomdeiros mais velhos conhecidos, com idades de entre mil a dois mil anos, morreram na última década.

Reuters
Os embondeiros podem viver milhares de anos e encontram-se entre as árvores mais altas que podem ser encontradas na natureza. Para álem do continente asiático, encontram-se em vários países africanos, da África do Sul a Cabo Verde.Reuters

O estudo começou em 2005. Na altura, foi registado que nove de 13 dos embondreiros mais antigos tinham morrido, alguns dos quais com cerca de 2500 anos.

O mesmo estudo aponta para as mudanças climáticas como principal fator. Deu-se um agravamento dos períodos de sequía, o que reduz a longevidade das árvores e afeta as espécies que vivem na região. Uma tendência verificada especialmente na África Austral.

A investigação foi coordenada por Stephan Woodborne, da Fundação Nacional para a Investigação, organismo sul-africano, que fala numa possível adaptação às mudanças no clima, através de uma redistribuição geográfica.

"As árvores estão a morrer sobretudo na zona sul da distribuição dos embondeiros, o que nos leva a crer que as condições climáticas dos locais onde se encontram passam estão a sofrer transformações. Não falamos da extinção total dos embondeiros, mas sim de uma incapacidade de reprodução."

Para Stephan Woordborn, o embondeiro africano poderá reaparecer em zonas mais a norte, como forma de sobrevivência:

"Por isso, nas zonas de distribuição mais a sul, encontramos poucas árvores jovens.

Ao mesmo tempo, perdemos as árvores mais velhas, pelo que talvez possamos estar perante uma redistribuição dos exemplares forçada pelas mudanças no clima."

Os embondeiros podem ser encontrados na Ásia, Península Arábica e em vários países africanos, como Angola, Cabo Verde, mas também na Tanzânia, Botswana, Moçambique, Namíbia, Zimbabué ou África do Sul.

A província sul-africana do Limpopo é conhecida como a terra dos baobabs, como são chamados em diferentes línguas.

É no Limpopo, não muito longe da fronteira com Moçambique, que se encontra um imponente embondeiro, morto por dentro. Spihuga Lazarus encontrou a árvore na localidade onde vive, Tshipese, há alguns meses e diz que não é o único que conhece na região.

Lembra-se desta árvore em particular desde que era pequeno e diz que não pode evitar sentir-se triste com a sua morte. Os habitantes de Tshipese chamam-lhe a "grande árvore". De acordo com o Parque Natural Transfronteiriço de Kgalagadi, terá mais de mil anos. Mas há quem acredite, em Tshipese, que tem cerca de seis mil.

"Fico confuso quando vejo estas árvores morrer," diz Spihuga. "Porque elas ajudam-nos, dão-nos comida e abrigo, estes embondeiros. Quando vejo um embondeiro lembro-me dos elefantes porque é o único animal que consegue sacar frutas dos seus ramos."

Associated Press
Stephan Woodborne dirigiu o estudo que aponta para uma morte de vários dos mais antigos embondeiros em África. Para o investigador sul-africano, as mudanças climáticas podem originar uma redistribuição da espécie.Associated Press

Em várias comunidades africanas, os embondeiros são um ponto de encontro para a realização de cerimónias tradicionais e religiosas ou simplesmente onde os habitantes se encontram para comunicar.

O fruto do embondeiro é utilizado pelos locais em várias regiões , já que permite fazer bebidas e uma espécie de iogurte.

Claro que a função da sombra do embondeiro não pode ser esquecida, especialmente na savana. Os elefantes também apreciam o fruto da árvore e ajudam a espalhar as sementes pelos solos. Mas a redução do número de exemplares também é apontada como possível causa para um menor número de nascimento de árvores.

Uma recuperação possível

Daniel Pouakouyou trabalha como Conselheiro Regional para o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD) em África. Está convencido que as mortes dos embondeiros têm causas humanas.

"Sabemos que as mudanças climáticas afetam todos os aspetos das nossas vidas, mesmo as árvores que nos rodeiam. Penso que, à medida que o fenómeno se intensifica, vamos ver o que vai acontecer aos embondeiros e a árvores semelhantes," explica.

Pouakouyou diz também que os embondeiros são fáceis de plantar e de criar. E se a intervenção humanas não é suficiente para resgatar as árvores que já morreram, a proteção dos novos exemplares pode ajudar a salvaguardar a espécie:

"Agora que temos a consciência de que os embondeiros durarão menos tempo e que são tão importantes para a vida de pessoas e ecossistemas, talvez devamos colocar esta espécie na nossa lista de prioridades. É fácil de plantar e de criar a partir de uma semente de embondeiro, para quem saiba como fazê-lo.

Uma coisa é certa: a morte de árvores com milhares de anos de história e tão importante para as vidas de comunidades humanas e grupos de animais não deve ser ignorada.