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A "seleção" russa e os tiques "czaristas" de Putin

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A "seleção" russa e os tiques "czaristas" de Putin

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Ora no papel de presidente, ora no de primeiro-ministro, Vladimir Putin liderou a Rússia nos últimos 12 anos e vai continuar por mais seis. Um eurodeputado lituano, figura promeminente na ex-União Soviética, explica o lado peculiar do sistema russo.

“Como explicar o esmagador apoio expresso a Estaline? 100% do povo soviético dava-lhe o voto. É a mesma coisa agora. Como na União Soviética, a Rússia não leva a cabo a uma eleição, mas uma seleção”, disse Vytautas Landsbergis.

Putin prometeu defender o país dos inimigos internos e externos. Para alguns é um discurso de czar, nome dos líderes absolutistas do império russo, alguns representados em obras no Museu Militar de Bruxelas.

“Putin personifica aquilo que é mais importante para o povo russo. Reconstruiu a imagem do país como uma grande potência. A grande afluências àas urnas resulta das manifestações de protesto tanto na Russia como no estrangeiros. Serviram de toque a reunir para os apoiantes de Putin, que foram votar em massa”, afirma Sergei Petrosov, representante da Comunidade Russa na Europa.

O corresponente da euronews Andrei Beketov realça que “os políticos em Bruxelas estão preocupados não só com a eventual derivada Rússia para o autoritarismo, mas estão também incomodados com as referências de Putin aos “inimigos que rodeiam o país” e às promessas que fez de gastar mais com ao nível da defesa”

Para mais análise destas eleições, outro correspondente da Euronews, Paul Hackett, falou com o eurodeputado liberal britânico Graham Watson.

“O sistema é uma espécie de democracia controlada’‘

Paul Hackett/euronews (PH/euronews): “Há comentários sobre alegadas irregularidades nas eleições russas. Quão legítimos considera estes resultados?’‘

Sir Graham Watson/eurodeputado do Partido Liberal Democrata Europeu (GW/eurodeputado): “Estou muito preocupado porque não são resultados legítimos. Em primeiro lugar, porque Putin tem usado um truque. O truque de deixar a presidência para ser primeiro-ministro por algum tempo e depois voltar para à presidência. Isso não é o que a Constituição prevê. Mas também estou preocupado porque todos os outros partidos dizem que não foram eleições justas. É difícil dizer até que ponto foram manipuladas. Podem ter existido diversos tipos de fraudes, em locais diferentes, mas essa manipulação teve início ainda antes de um único voto ter sido colocado nas urnas. Por exemplo, devido à nova legislação sobre partidos políticos.”

PH/euronews: “Os resultados oficiais dizem que Vladimir Putin obteve 60% dos votos. Mas até os observadores internacionais dizem que terá obtido mais de 50%. Logo, num certo sentido, é um resultado justo, não acha?”

GW/eurodeputado: “Posso acreditar que teve mais de 50% dos votos, mas não considero o resultado justo porque os outros partidos não tiveram o acesso aos meios de comunicação que tinha o partido de Putin. Os candidatos dos outros partidos não tiveram as mesmas oportunidades. Todo o sistema é, na melhor das hipóteses, uma espécie de democracia controlada.’‘

PH/euronews: “Mas de momento não existem reais alternativas?”

GW/eurodeputado: “Penso que podem existir alternativas, se estas forem autorizadas a funcionar. A razão porque digo isto prende-se com as recentes manifestações a que assistimos. Havia uma forma completamente nova de protesto. São outras as pessoas que saem para as ruas e Putin tem a classe média contra ele. Não se trata apenas de uma franja liberal, ou de pessoas que estão despeitadas por um ou outro motivo. Há uma grande parte da sociedade urbana russa que acha que o tempo de Vladimir Putin já passou.”

PH/euronews: “A Rússia tem características histórias e políticas específicas. Não devíamos ser nós a dizer o que devem fazer”.

GW/eurodeputado: “Claro que a Russia é histórica e politicamente diferente. Tal como o é a China, ou qualquer outro país fora da Europa Ocidental. Mas a realidade é que os princípios básicos são os mesmos. Os direitos humanos são direitos humanos. Democracia, eleições livres e justas são a democracia e eleições livres e justas. O atual governo russo não apoiaria uma resolução das Nações Unidas contra a forma como o governo sírio está a tratar o seu próprio povo. Espero que não venhamos a ver esse tipo de tratamento na Rússia.’‘

PH/euronews: “No que respeita à Síria, pensa que a posição política russa poderá mudar com Vladimir Putin?”

GW/eurodeputado: “Duvido muito mude, porque penso que Putin teme seriamente a opinião pública do seu próprio país. Esse é o preço que qualquer autocrata tem de pagar. Na Rússia, na China ou em qualquer outro sítio. Vivem constantemente com receio de seu próprio povo. E penso que com bastante razão para isso, no caso da Rússia.’‘

PH/euronews: “É muito fácil, estando aqui sentados, criticar a falta de democracia, de mudança na Rússia. Mas o que pode a União Europeia realmente fazer? Não pode muito, não é?”

GW/eurodeputado: “Certamente a Europa não vai fazer qualquer tipo de intervenção militar na Rússia, e nem devemos.’‘

PH/euronews: “Mas nem sequer tentamos algo ao nível do comércio. Dependemos tanto do petróleo e gás russos que nossa influência é quase nula,não é?”

GW/eurodeputado: “Considero, de facto, que a Europa está perigosamente dependente de petróleo e gás russos. Mas penso que isso não impede que se faça alguma coisa. Acho que se poderá fazer muito em termos políticos para privar o regime de certas coisas”.

PH/euronews: “Como pensa que se desenrolarão os próximos seis anos? Acha que Vladimir Putin completará o mandato?’‘

GW/eurodeputado: “Os meus amigos russos dizem-me que ele pode muito bem não ser capaz de cumprir o mandato. Dizem-me que o nível de oposição pública à sua reeleição é tal que pode ter apenas dois anos. O mais importante para a Rússia é que vejamos uma mudança o mais rapidamente possível’‘

PH/euronews: “Pensa que pode acontecer na Rússia o que está a acontecer no mundo árabe?”

GW/eurodeputado: “É muito difícil dizer. Da última vez que estive em Moscovo sentia um certo cheiro a jasmim no ar. Estou muito interessado no que me poderão dizer os meus amigos que estão lá agora e que vão ficar nos próximos dias. Mas não excluo a possibilidade de algum tipo de revolução russa.’‘