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FMI revê previsões em baixa e nega chantagem: "Não são obrigados a negociar connosco se não quiserem"

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FMI revê previsões em baixa e nega chantagem: "Não são obrigados a negociar connosco se não quiserem"

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A economia mundial vai ter de fazer melhor. O Fundo Monetário Internacional reviu as previsões em baixa e não exclui novas crises no relatório semestral, em que Europa parece deixar de ser a principal fonte de preocupação.

As contrariedades dos países emergentes, especialmente dos que dependem dos investidores estrangeiros para se financiarem, e
as incertezas orçamentas nos Estados Unidos são as causas desta baixa de 0,3% do PIB mundial, em 2014.

O FMI prevê um crescimento de 7,3% na China, de 2,6% em Estados Unidos, de 1,2% no Japão e de 1% na zona euro.

Os desafios, provocados pela crise de 2008 continuam, segundo a análise do economista do Fundo Monetário Internacional, Olivier Blanchard:

Olivier Blanchard. Economista chefe do FMI:

A recuperação da crise continua, é um facto e é importante, mas decorre com demasiada lentidão. As principais economias não saíram do atoleiro em que se encontram, as dívidas pública e privada continuam a ser muito elevadas e a sustentabilidade fiscal não está ganha à partida. A taxa de desemprego continua muito alta e assim continuará durante muito tempo.

A diretora-geral do FMI insitiu na mesma tecla: temos anos difíceis pela frente.

Christine Lagarde – Assistimos a uma crise global e ainda veremos transições globais. Provavelmente estamos a ir da Grande Depressão à Grande Transição. Todas estas transições, todas estas alterações em massa, não vão ser rápidas nem fáceis, e provavelmente os países vão ter de passar o resto da década a tentar ajustar-se à nova realidade.

No entanto, segundo o Crédit Suisse, a acumulação de riqueza à escala planetaria atingiu um novo recorde no fim do primeiro semestre de 2013, com uma subida de 68% nos últimos dez anos.

A liderar o ranking dos países mais ricos, em termos de rendimento anual por adulto, é a Suíça, com 380.000 euros, seguida pela Austrália, a Noruega e o Luxemburgo.

Num ano, o número total de milionários no mundo aumentou em dois milhões, assegura o relatório, que revela também as divergências, porque dois terços dos adultos do planeta só possuem 3% da riqueza total, enquanto 86% da riqueza está nas mãos de 10% dos multimilionários.

Adrian Lancashire, euronews – David Lipton, subdirector gerente do FMI, obrigado por estar connosco.
Há cinco anos, a crise financeira converteu-se em crise global, os ricos estão a cada vez mais ricos, os pobres cada mais pobres e a classe média está sob tensão. Esta recuperação económica não estará a conduzir todos para o precipício?

David Lipton – O mais importante é conseguir que a economia mundial funcione de novo. As economias avançadas estão a recuperar e as economias emergentes estão a desacelerar, e estamos a esforçar-nos por ajudar todos os países, cada parte da economia mundial que é preciso pôr em em marcha outra vez. É verdade que desigualdade aumenta, em parte porque as pessoas estão no desemprego e têm mais dificuldades, em parte, também, porque há pressões constantes da globalização e do desenvolvimento tecnológico, daí a capacidade de alguns mercados terem lucros muito altos. Mas o desafio mais importante é ajudar os países a reerguerem-se e também ajudar a reforma dos sistemas financeiros para não voltarmos a deixar repetir os acontecimentos que temos vivido.

euronews – Em muitos países, os cidadãos que contraíram empréstimos, que não podiam assumir, estão a ser castigados economicamente, perderam os empregos, as casas, as reformas, a educação. Qual é a política do FMI para que as pessoas que permitiram estes riscos, ou os correram, assumam a sua quota de responsabilidade?

David Lipton, FMI – Acho que, no futuro, é importante que os responsáveis, os encarregados de supervisionar os bancos garantam que estes se comportam de forma mais segura. A comunidade financeira internacional pôs em marcha, há vários anos, um projeto de reforma de regulação financeira. Está a progredir bem, mas ainda há muito por fazer, e vai ser muito importante a adoção e cumprimento das novas normas, para que os problemas que provocaram a queda do sistema financeiro mundial não se repitam.

euronews – A condição do FMI para ajudar os países é que a de gerirem a economia de outro modo. Alguns críticos consideram que é chantagem.

DL – Não são obrigados a negociar connosco se não quiserem. O que lhes oferecemos é algo que não podem obter de outro modo, que é o nosso apoio financeiro, e nosso selo de aprovação se prosseguirem políticas destinadas a melhorar a situação. Nesse caso, conseguem o visto do FMI, não da instituição em si, mas da comunidade de membros.

Acho que os conselhos que temos dado aos países europeus têm sido úteis durante a crise e o apoio financeiro, coadjuvado pelo financiamento da própria Europa, também tem sido muito útil.