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Ucrânia: Tentar ser criança em território de guerra

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De  Euronews
Ucrânia: Tentar ser criança em território de guerra

<p>A dura realidade das crianças, nas zonas de conflito na Ucrânia, é muitas vezes esquecida. Elas tratam a guerra por tu, trocaram os brinquedos por algo cruel e aprendem lições de vida que jamais esquecerão. </p> <p>O Fundo das Nações Unidas para a Infância estima que 1 milhão e 700 mil crianças, de ambos os lados, sofram com a tensão vivida na Ucrânia, quer por falta de casa, alimentação, cuidados médicos ou, simplesmente, por não irem à escola. </p> <p>Em Chermalyk, cidade controlada pelo exército ucraniano, brinca-se aos soldados e disparam-se tiros imaginários com um sorriso nos lábios. </p> <p>Estas crianças viram a sua cidade sucumbir à destruição, provocada por artilharia pesada, mas não demonstram as fragilidades que uma guerra deixa, falam dela, aparentemente, de uma forma, demasiado, natural. Tolik Tokar, 11 anos, é uma dessas crianças. Ele fala do dia em que a morte lhe passou ao lado mas sem consciência disso: </p> <p>“As balas atravessaram o tecido da minha camisola, no meu ombro e voaram. Tive muita sorte”, explica a sorrir. </p> <p>Nas suas brincadeiras, estas crianças lutam contra rebeldes pró-russos e fazem a guerra à sua maneira. Para os pais, esta é uma realidade que os assusta. Ver os filhos perderem a sua infância. Tatiana Belash, vive num centro de acolhimento temporário em Popasna com a filha Zlata e fala da sua experiência: </p> <p>“Ela tem apenas três anos e já sabe o que é um tanque. Isso não é normal. As crianças começam, desde muito cedo, a ter problemas psicológicos. O que é que vai acontecer a seguir? Eles dizem que as crianças da década de noventa são insuportáveis, mas o que vai acontecer com essas crianças? Elas vão crescer entre ruínas. Não há jardins-de-infância, escolas, não há nada.”</p> <p>A juntar-se a esta realidade há outra ainda mais dura. Nos sites, na internet, fala-se de milhares de crianças que vivem nas ruas, expostas a todo tipo de violência. Muitas perderam os pais. </p> <p>Do outro lado da barricada, em território dos rebeldes, as crianças que vivem em centros de acolhimento, porque foram abandonadas pelos pais, porque os perderam ou porque a família não tem condições para criá-las, têm um novo desafio a superar. É com se estivessem do lado errado desta guerra e, sem o apoio do governo ucraniano, a sobrevivência é complicada. Ainda assim, como crianças que são, sempre prontas a aprender, têm a lição bem estudada: </p> <p>“Não, ucranianos não. Eu sei que eles também são pessoas mas eles matam os outros, foi o meu avô que me disse”, afirma uma delas. Para as crianças, vítimas desta guerra, a história do conflito tem uma versão e é fácil identificar “bons e maus” como explica a diretora de um destes centros, Elena Nikulenko: </p> <p>“Estas crianças recebem informação apenas de um lado. Elas veem as tropas do governo a atirarem em nós e os seus pais e irmãos a pegarem em armas para nos proteger. As crianças ouvem as conversas dos adultos. De um lado há os “Ukrops”, algumas pessoas chamam-nos assim, e os seus pais são os terroristas e insurgentes, por isso as crianças chamam-se a si próprias terroristas.”</p>