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Coreia do Norte: A guerra fria entre a China e... os Estados Unidos

A China assume-se preocupada com o extremar de posições na península coreana. Em especial pela crescente presença dos Estados Unidos, ao abrigo da

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Coreia do Norte: A guerra fria entre a China e... os Estados Unidos

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A China assume-se preocupada com o extremar de posições na península coreana. Em especial pela crescente presença dos Estados Unidos, ao abrigo da Coreia do Sul, e a ameaça crescente sobre o colapso da cada vez mais isolada e misteriosa Coreia do Norte.

Kim Jong-un, o terceiro membro da família fundadora da oficialmente denominada República Popular Democrática da Coreia a liderar o único partido do país e, por conseguinte, a nação, prepara-se para presidir ao primeiro congresso político norte-coreano em mais de 35 anos.

A última vez que um congresso se realizou, em 1980, ainda o filho do 2.° líder supremo do país (Kim Jong-il) não seria nascido — nem isso se sabe com total certeza: terá Kim Jong-un 30 anos, 33, mais?…

Uma rara filmagem no interior do metro de Pyongyang

Pyongyang Metro Escalator from Elliott Davies on Vimeo.

O congresso do Partido dos Trabalhadores da Coreia está a ser preparado em segredo há meses e acaba de ser anunciado para sexta-feira 6 de maio. Prevê-se que Kim Jong-un aproveite para anunciar uma nova doutrina política para a Coreia do Norte, conhecida como “byongjin”.

A nova política terá por base o impulso à economia — sufocada por várias sanções internacionais — e ao programa de desenvolvimento nuclear — justificado pela alegada “política hostil” dos Estados Unidos ao lado do rival sul-coreano.

Os testes militares para… americano ver?

O líder norte-coreano tem promovido, entretanto, supostos testes militares. Uma alegada tentativa de mostrar ao mundo que a Coreia do Norte tem força para repelir qualquer ameaça. No início de janeiro, terá ordenado o quarto teste nuclear da história do país — o regime de Pyonyang terá mesmo confirmado a realização com sucesso de um teste com uma bomba de hidrogénio.

A sul, os Estados Unidos reforçaram a presença militar em território sul-coreano e intensificaram exercícios militares conjuntos, mostrando a Kim Jong-un estar a “brincar com fogo”. A proximidade cada vez mais forte entre Seul e Washington representa uma das principais preocupações de Pequim.

Um eventual conflito na península coreana “não é benéfico para ninguém”, salientou já esta quinta-feira o presidente da China durante a Conferência para as Medidas de Interação e Construção da Confiança na Ásia (CICA), a decorrer em Pequim. “Como vizinho próximo da península coreana, não vamos permitir que a guerra e o caos se instalem na região”, avisou Xi Jinping.

Principal aliado político e comercial de Pyonyang, a China detém um importante peso na saúde económica e social da Coreia do Norte. Reforçar as sanções decididas recentemente pelas Nações Unidas para serem implementadas ao parceiro, poderia levar ao colapso do regime de Kim Jong-un e à absorção do país pela Coreia do Sul num género de cenário de reunificação. Essa assimilação ameaça a influência chinesa na península em benefício dos Estados Unidos.

Kim Jong-un não parece contudo muito preocupado face aos receios chineses. No início de janeiro, o 3.° líder supremo norte-coreano terá ordenado o quarto teste nuclear da história do país, o primeiro com uma bomba de hidrogénio. Terá sido um sucesso, fez saber o regime.

Um mês depois, terá testado o lançamento de um míssil balístico. O Conselho de Segurança da ONU reagiu com a aprovação por unanimidade a implementação mais pesadas das duas últimas décadas sobre a Coreia do Norte e os Estados Unidos reforçaram a presença e os exercícios militares na Coreia do Sul. Kim Jong-un refreou os “jogos de guerra”? Não.

De acordo com fontes militares sul-coreanas, que monitorizam a atividade militar para lá da fronteira norte, esta quinta-feira o regime de Pyonyang terá falhado o segundo lançamento-teste de um projétil de médio alcance. “O míssil, presumivelmente do tipo Musudan, foi disparado por volta das 06h40 (hora local) das redondezas de Wonsan, mas parece ter-se despenhado poucos segundos depois”, afirmou fonte oficial citada pela agência sul-coreana Yonhap.

A tensão entre as Coreias continua a agravar-se e Pyonyang justifica o desenvolvimento de armas nucleares com a alegada “política hostil” dos Estados Unidos. Ainda assim, o regime de Kim Jong-un terá aceitado suspender o alegado programa nuclear se os norte-americanos também parassem com os exercícios militares que mantêm na Coreia do Sul.

Washington, porém, não recua. Até porque a Coreia do Sul suspeita que um novo teste nuclear esteja a ser preparado pela Coreia do Norte.

Os preparativos do congresso pelos olhos de uma portuguesa

Ao mesmo tempo que a comunidade internacional discute as intenções nucleares norte-coreanas, o regime de Pyonyang continua a preparar o congresso de 6 de maio. Margarida Serra, da rádio portuguesa está na Coreia do Norte e reportou os “ensaios dos gigantescos desfiles, que são a imagem de marca do país”. A jornalista contou ter sido proibida de registar fotos do que tem visto.

Quem não participa nos desfiles, foi convocado para trabalhar para o “bem da comunidade” durante 15 dias. “É possível ver soldados a lavrarem os campos, cidadãos a apanhar ervas daninhas nos muitos relvados de Pyongyang e a varrerem o lixo quase inexistente, chegando mesmo a limpar o asfalto com panos”, relata Margarida Serra.

Para lá da apresentação da nova política para o país, que sucede à chamada “Songun” implementada pelo pai, Kim Jong-il, e que sublinha “primeiro os militares”, o congresso terá o objetivo de reforçar a liderança do líder supremo e o prestígio do do Partido dos Trabalhadores aos olhos do povo.

Isto num país em declínio, como contou à Reuters Seo Jae-Pyoung, um desertor norte-coreano e antigo membro da única força política do país. “A vontade de aderir ao partido enfraqueceu porque um grande número dos membros do partido morreram de fome durante o período da ‘marcha forçada’ (meados dos anos 90). Há até atuais membros já a perceber que fazer parte do partido não os alimenta e que devem procurar fazer dinheiro em vez de continuar com o partido”, garante Seo Jae-Pyoung.

(O metro de Pyongyang está abertto aos turistas pela primeira vez e o que se vê é fascinante.)

Sem grande conhecimento, há quem sugira que a economia norte-coreana está sufocada pelas sanções impostas pelo Conselho de segurança das Nações Unidas. Na verdade, parece que o regime tem dado a volta ao problema, em grande parte, com a forte ajuda da China.

Pequim não se mostra muito satisfeita com as ambições nucleares de Pyongyang, mas revela-se também relutante em abusar da vantagem económica que detém para punir Kim Jong-un. A China, presume-se, é responsável por 90 por cento do comércio externo da Coreia do Norte. Xi Jinping assume que a China vai promover a desnuclearização da península mas “através do diálogo e das consultas”. Será?