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Portugal abre base das Lajes a eventual utilização pela China

Em entrevista à bloomberg em Macau, o primeiro-ministro António Costa procurou ainda descansar os Estados Unidos face à aproximação de Pequim aos Açores.

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Portugal abre base das Lajes a eventual utilização pela China

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O primeiro-ministro português, António Costa, admitiu quarta-feira em Macau, em entrevista à Bloomberg, que a base aérea das Lajes, na ilha Terceira, Açores, pode vir a ser usada pela China se os Estados Unidos não renovarem o acordo de exclusividade. Mas apenas para fins científicos e não militares.

“Temos um acordo com os Estados Unidos e queremos continuar com esse acordo, mas respeitamos a decisão” dos norte-americanos, disse António Costa, referindo-se ao noticiado desinvestimento progressivo do Pentágono na base açoriana, incluida no acordo de cooperação e defesa assinado em 1995 entre Lisboa e Washington.


Pouco depois, confrontado com as declarações do primeiro-ministro, também o presidente do Governo dos Açores confirmou que uma eventual parceria com a China na base das Lajes pode ser aprofundada, mas não no plano militar. Vasco Cordeiro lembrou a relação histórica com os Estados Unidos da América e a prioridade é dar-lhe continuidade.

“Sendo de interesse mútuo, julgo que nada obsta a que nesses planos, que não o plano militar, ela (a parceria com a China) possa ser analisada, aprofundada e debatida”, afirmou o também recandidato nas eleições legislativas de domingo para o Governo Regional dos Açores.


Base das Lajes (foto de arquivo, registada em 2007)

Vasco Cordeiro considerou que as declarações de António Costa “espelham bem a perspetiva com que o Governo português encara a possibilidade de, no âmbito dos Açores, poder reforçar esta ligação que há com a China”. “A questão militar não está sequer em causa, mas há um conjunto de outras áreas onde se pode, havendo esse interesse, reforçar esta parceria”, considerou Vasco Cordeiro.



(Portugal está aberto ao investimento chinês nos Açores e isso está a preocupar Washington.)

“O que temos é uma situação em que existe um outro país que demonstra interesse em reforçar neste âmbito dos Açores a sua parceria com o nosso país, não se coloca da forma como vejo com o dramatismo que alguns lhe querem imprimir, mas sim como uma oportunidade, não apenas de reforçar esses laços, mas de explorar novas áreas de interesse comum, desde o conhecimento até a componente comercial”, acrescentou.

Na entrevista em Macau, António Costa assumiu que “a base nos Açores é muito importante em termos militares, mas também em termos de logística, tecnologia e pesquisa nas águas profundas e de alterações climáticas.”

À insistência do jornalista da Bloomberg sobre o futuro da base das Lajes pela China, o primeiro-ministro admitiu: “Claro que é uma boa oportunidade para criar uma paltaforma de pesquisa científica e estamos abertos à cooperação com todos os parceiros, incluindo a China.”

“Portugal tem sido sempre uma economia aberta, e o investimento chinês tem sido muito positivo, particularmente no setor financeiro, mas também na energia e noutros. Por exemplo, o investimento chinês permitiu recapitalizar os nossos bancos”, recordou António Costa.

Sobre a banca, o chefe de Governo disse aliás que “no final do ano” espera “ultrapassar os problemas com os bancos” e ter “uma solução para o crédito malparado.”


Questionado se está cómodo com a diversidade de áreas em que o investimento da segunda maior economia do mundo tem estado a ser feito em Portugal, António Costa disse sentir-se “bastante confortável” e exemplificou que também há investimento avultado de Espanha e Angola.


“Queremos uma economia aberta, queremos diversificar as fontes de investimento, e vemos isso como uma vantagem e não como uma desvantagem”, vincou o chefe do Governo.

Questionado sobre as consequências da saída do Reino Unido da União Europeia, Costa disse estar “confiante de que as relações centenárias entre os dois países vão permanecer fortes”.


Embaixador chinês em Portugal elogia cooperação

Portugal é um membro “importante” da União Europeia e com “ampla” influência nos países lusófonos, afirmou o embaixador chinês em Lisboa, numa entrevista divulgada esta quinta-feira pela agência oficial chinesa, a Xinhua.


“As empresas chinesas em Portugal atribuem grande importância e aproveitam ativamente o papel do país como ponte e plataforma”, frisou Cai Run, na extensa entrevista, simultânea à visita oficial do primeiro-ministro António Costa à China.


 

A entrada da China na EDP


Em 2012, na sequência de um concurso internacional, a CTG pagou ao Estado português 2.700 milhões de euros por uma participação de 21,35 por cento no capital da EDP, num dos maiores investimentos chineses na Europa.

A CTG tornou-se, entretanto, a segunda maior geradora de energia com capital privado no Brasil e tem projetos conjuntos com a EDP em vários países da Europa.


Estas firmas “têm cooperado em outros mercados com empresas portuguesas”, explorando oportunidades nos países lusófonos, na Europa e na América Latina, acrescentou. A Xinhua cita o exemplo da cooperação entre a EDP e a China Three Gorges (CTG), como “exemplo de sucesso” desta parceria luso-chinesa.

“Através da sua empresa em Portugal, a CTG desenvolve os mercados de energia hidroelétrica, eólica e novas fontes de energia na América Latina, Europa e EUA”, descreve a agência.

“A CTG acelerou o seu processo de internacionalização e a sua expansão global através de cooperação tripartida”, acrescentou o embaixador chinês, destacando ainda o “grande potencial de desenvolvimento” no comércio bilateral.

O comércio luso-chinês

Segundo dados das alfândegas chinesas, em 2015, o comércio bilateral ascendeu a 4,37 mil milhões de dólares (4,02 mil milhões de euros), menos 8,99 por cento do que no ano anterior.


 

Caldo verde “conquista” China


O caldo verde, uma das sopas mais tradicionais de Portugal, deu este mês um salto para a globalização, ao entrar no menu do Element Fresh, uma cadeia com 34 restaurantes espalhados por toda a China.

Trata-se de uma versão adaptada daquela receita do Minho, servida com uma dúzia de rodelas de chouriço e a couve-galega substituída por uma variante local.

Em vez da tradicional tigela de barro, o caldo verde do Element Fresh vem num prato de porcelana e, obedecendo ao paladar chinês, o ‘chef’ capricha na pimenta. Cada dose é vendida a 59 yuan (oito euros).


A balança comercial é favorável a Pequim, que vendeu a Lisboa bens na ordem de 2,89 mil milhões de dólares (2,65 mil milhões de euros), menos 7,6 por cento, e comprou produtos avaliados em 1,47 mil milhões de dólares (1,35 mil milhões de euros), menos 11,59 por cento.

A China é o maior parceiro comercial de Portugal na Ásia, enquanto o mercado português é o 18.º maior destino das exportações chinesas para a UE.

Com a política dos “vistos dourados” também a ajudar, claro, Portugal tornou-se nos últimos anos um dos principais destinos do investimento chinês na Europa, logo a seguir ao Reino Unido, Alemanha e França, num montante que já ultrapassou os 10.000 milhões de euros, segundo fontes portuguesas.

As empresas chinesas investiram sobretudo nos setores da energia, eletricidade, aviação civil, finanças, seguros e saúde e empregam hoje mais de 21.000 pessoas em Portugal, aponta a Xinhua.