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Onde param os investimentos na Europa?


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Onde param os investimentos na Europa?

O Real Economy visitou o Banco Europeu de Investimento (BEI), no Luxemburgo, para falar precisamente dos investimentos de que a Europa tanto necessita. O volume aumentou, mas as previsões até 2018 apontam para uma estagnação e, nalguns casos, não se recuperam os valores registados antes da crise.

Lembra-se do cubo de Rubik ou cubo mágico? Para aumentar os níveis de investimento, temos de conjugar várias faces: as regulações financeiras, a dimensão dos mercados, a instabilidade política. Uma das soluções passa pelo Fundo Europeu para Investimentos Estratégicos (FEIE). Fazemos aqui um rápido balanço do seu percurso.

Mobilizar 500 mil milhões de euros na Europa

O Fundo Europeu para Investimentos Estratégicos (FEIE) tem como objetivo primeiro mobilizar 500 mil milhões de euros em investimentos. Desde o seu início, em 2015, este fundo já aprovou centenas de projetos de infraestruturas e estabeleceu acordos com PME em toda a Europa.

No total, o FEIE já recolheu financiamentos na ordem dos 30 mil milhões de euros que podem alavancar investimentos na casa dos 160 mil milhões. Isto representa cerca de metade do objetivo programado para 2018.

A versão 2.0 do fundo propõe prolongar o plano de investimentos por mais 3 anos. Através das chamadas garantias europeias e das verbas complementadas pelo Banco Europeu de Investimento, o FEIE alcança uma base que poderá ser alavancada até à meta de 500 mil milhões de euros de investimentos.

A reinvenção de Lisboa

Um dos exemplos mais evidentes neste contexto é o da cidade de Lisboa, onde foi apresentado um plano de investimentos que pretende marcar um ponto de viragem na “regeneração urbana e no seu crescimento e competitividade”.

Os objetivos são claramente ambiciosos: Lisboa pretende reinventar-se. E para isso aposta em vários projetos de infraestruturas. O município vai receber um empréstimo do Banco Europeu de Investimento na ordem dos 250 milhões de euros. Por onde se começa?

Segundo o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, há três eixos de intervenção prioritários: o plano de drenagem, a regeneração urbana e a habitação social. O município prevê complementar as verbas do Banco Europeu de Investimento com mais de 270 milhões de euros.

“O investimento total nos próximos anos ascende aos 524 milhões de euros, provenientes de fundos públicos, do Banco Europeu de Investimento e da autarquia. Isto vai atrair muito investimento privado. A renovação urbana é um fator-chave para mobilizar investimento privado numa cidade”, afirma Medina.

Uma das prioridades é então resolver o problema crítico que consiste nas inundações que Lisboa sofre recorrentemente. O Plano de Drenagem envolve um investimento de mais de 180 milhões de euros, que inclui a construção de dois túneis.

A recuperação do bairro da Boavista, onde nascem novas habitações amigas do ambiente, é um dos exemplos do que se pretende fazer em termos de colaboração com o setor privado. “Há dois ou três anos, era impossível ter projetos desta dimensão em Portugal. Mas ainda não é suficiente para dar trabalho a todas as empresas de construção que existem. Precisamos de mais projetos destes. Neste tipo de concursos, podem estar em competição de 15 a 20 empresas”, diz-nos José Pedro Aguilar, da construtora Gabriel Couto.

A visão de Werner Hoyer, presidente do Banco Europeu de Investimento

Maithreyi Seetharaman, euronews: A reatualização do fundo europeu e a estagnação dos níveis de investimento indicam que correr riscos ainda não compensa…

Werner Hoyer: A questão não se centra apenas no aumento do ritmo de investimentos. Tem a ver também com a necessidade de tornar todo o contexto mais favorável. E é aí que as coisas bloqueiam. A liquidez existe e em abundância. Existem vários projetos, o que é muito positivo. Então porque é que não se consegue canalizar a liquidez para esses projetos? Os níveis de confiança para fazer a máquina avançar ainda são insuficientes.

euronews: As empresas estão a investir 3 vezes mais do que os governos. Como é que os vão incentivar?

WH: As pessoas precisam de se sentir seguras para planificar as coisas. Se alguém quiser investir no setor das energias renováveis, por exemplo, mas não tiver garantias de que as condições se vão manter passados 2, 3, 5 anos, vai hesitar antes de assumir riscos. Nos dias que correm, a missão principal dos governos é dar certezas. As infraestruturas são dos maiores pontos fracos que temos, tanto na Europa, como nos Estados Unidos. Temos de aperfeiçoar urgentemente as estruturas digitais em conjugação com as infraestruturas do setor da eletricidade. É isso que permite transmitir dados em tempo real. Este é apenas um exemplo. Há outros, como o sistema rodoviário, ferroviário e o setor energético.

euronews: As PME, que são as principais empregadoras, registam um volume de investimentos ainda reduzido. Tem isto a ver com a falta de acesso ao financiamento ou a questão vai mais longe?

WH: Se os governos reforçarem o enquadramento para investir, acredito que haja uma disposição maior para assumir riscos e para regressar ao espírito de empreendedorismo que sempre caraterizou as PME europeias. O acesso ao financiamento é um problema na Europa. 80% do financiamento das PME e das grandes empresas passa pelos bancos, não pelo mercado de capitais. Ou seja, há ainda um fosso enorme a colmatar.

euronews: Os bancos privados vão passar a emprestar mais?

WH: Honestamente, a margem de manobra dos bancos comerciais tem vindo a reduzir-se. A banca pública tem a responsabilidade de impulsionar a máquina dos investimentos, financiando bons projetos. Acredito que os vários processos eleitorais que vão decorrer na Europa este ano vão produzir um efeito estabilizador e criar um novo impulso.