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“Lines”, a crise grega no grande ecrã


Grécia

“Lines”, a crise grega no grande ecrã

Grécia, dias de hoje: O atendedor solitário de uma linha telefónica de ajuda não tem mãos a medir com as chamadas que recebe – Em “Lines” cruzam-se as histórias de vários gregos que a crise levou ao abismo, do casal que se afunda nos sonhos para esquecer a doença e o dinheiro que deixou de conseguir pagar a conta da luz ao polícia que fica nu durante uma manifestação. Mesmo se carregado de onirismo e simbologias, este não deixa de ser o retrato extremamente cru de uma sociedade a contas com uma crise que não é só financeira.




A euronews esteve à conversa com Vassilis Mazomenos no último Fantasporto, onde “Lines” esteve em competição na Semana dos Realizadores.

Ricardo Figueira, euronews: Vemos neste filme um retrato de várias pessoas à beira do abismo. É assim que os gregos estão hoje?
Vassilis Mazomenos: O filme fala sobre a destruição psicológica dos gregos causada pela crise. Há um estrangulamento económico que dura há vários anos e tem consequências não só na vida económica dos gregos, como na psicologia das pessoas. Há um número incrível de suicídios e de pessoas que usam psicofármacos. Falamos de mais de 4000 suicídios. As consequências estão à vista de todos e essas evidências fizeram-me querer fazer este filme.

Quis, com este filme, mandar uma mensagem a alguma instituição ou país?
Os filmes não são feitos para mandar mensagens a ninguém. No entanto, senti a necessidade de expressar, através deste filme, a tragédia que está a ser vivida pelos meus compatriotas.

Quem é, na sua opinião, responsável por esta crise?
A crise não tem um só culpado. Deve-se ao sistema político, à corrupção, aos credores e ao impasse que, na minha opinião, está a ser vivido pela civilização ocidental.

A nudez é um símbolo muito presente ao longo de todo o filme. Tem um significado especial?
Nos meus filmes, e neste em particular, a nudez representa a negação da existência da própria vida. Por exemplo, o polícia, ao despir a farda, está a negar o seu papel na vida. O mesmo acontece com o político.

Como foi fazer o filme? Há uma aposta muito forte nos planos-sequência…
Foi um filme difícil de realizar, porque a lógica da construção repousa, justamente, nos planos-sequência. Isso significa que todos aqueles que participaram no filme tiveram de dar o seu melhor. Tive a sorte de ter um excelente lote de atores.

Como vê o futuro próximo e a médio prazo da Grécia?
É uma grande incógnita. Tenho medo que, por enquanto, não haja uma solução que não passe por terceiros.




Como caracteriza os gregos de hoje?
O que mais caracteriza o estado emocional dos gregos de hoje é o medo e o embaraço. O pior da crise não é ter dívidas para pagar, é não saber como enfrentar a incógnita do dia seguinte.

Vê semelhanças entre os gregos e os portugueses?
Com certeza que sim. Ambos são povos extrovertidos, amigáveis e que mantêm muita da inocência do passado. A ligação que ambos os povos têm com o mar criou uma relação que começa com o mar e acaba com a poesia.

Entrevista traduzida do grego por Aikaterini Arampatzi

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