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Na linha da frente: refazer a vida na região de Donbas

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Na linha da frente: refazer a vida na região de Donbas

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Viver no leste da Ucrânia, região castigada por um conflito sem fim, é tarefa complicada, mas, para muitas famílias, não há outra opção. Por todo o lado, há histórias de superação, num quotidiano de que pouco se fala. Natalia Liubchenkova, jornalista da Euronews, viajou até Donetsk, onde viu a construção de uma normalidade possível em tempo de guerra. Há ideias para todos os gostos, desde yoga para reformados a aulas de tosquia de ovelhas para turistas.

A visita começou em na estação de caminhos de ferro da pequena cidade de Sloviansk, Natalia tinha encontro marcado com Yana Synytsia.

"Tenho uma surpresa para ti", disse-lhe Yana.

Natalia conhece Yana desde a primeira vez que visitou o leste da Ucrânia. Yana vive na zona de Donetsk, controlada pelos separatistas e teve de abandonar a sua casa por causa da violência do conflito na região.

Desta vez, Yana aceitou ser a companheira de viagem de Nataliia. Juntas, procuram novas histórias de pequenas comunidades. Histórias de resiliência, histórias de resistência a quatro anos de confrontos.

Natalia Lubchenkova
Os encontros deste grupo de mulheres em Sloviansk permite-lhes entender que são muito mais do que mães, avós ou donas de casa. Podem existir muito para além disso e recuperar o amor próprio. Natalia Lubchenkova

Yana apresenta, depois do encontro na estação, um grupo de senhoras reformadas a Natalia. Tomam chá e recitam poemas. Algumas entram e saem do Facebook. Vão partilhando um enorme ecrã que se encontra na parede.

Natalia adora o ambiente desde o primeiro momento. Estão numa sala que pode ser requisitada para encontros e eventos, num centro social.

Ouve as conversas entre as aquelas senhoras, cheias de energia, sobre os passeios e as explorações que fazem juntas. Partilham outras ideias. Há quem queira melhorar o nível de inglês e quem tenha vontade de aprender mais sobre computadores. "O meu amor-próprio subiu tanto," explica Halyna a Natalia, com um grande sorriso. "Vivo em casa com a minha família. Somos seis."

"Eles agora já sabem que a avó está ocupada aos sábados, tem aulas de inglês. Tenho a sensação de ter crescido. Dantes, era pouco mais do que uma criada na cozinha para eles."

"A Idade da Felicidade"

A iniciativa é a responsabilidade a ativista Natalia Bondarenko. Chama-se "A idade da felicidade" e tem como objetivo proporcionar momentos de lazer a pessoas mais velhas. Muitos destes reformados foram fortemente afetados pelo conflito no leste da Ucrânia.

Natalia Remenyuk também vem aos encontros. Luta contra uma depressão, causada pela perda do filho, um soldado. Diz que os encontros a ajudam a superar a tristeza no dia a dia.

"Fiquei em choque depois de ter perdido o meu menino, mas a Natalia e as outras senhoras ajudaram-me muito. As coisas foram acontecendo pouco a pouco. Comecei a ver-me de forma diferente. Até comecei a usar maquilhagem. Gosto muito dos encontros e espero impaciente pelo próximo dia."

Encontros que ajudam Natalia a superar um quotidiano que nem sempre se aguenta.

"As nossas vidas eram sempre a mesma coisa. E um dia, isto aconteceu. Mudou tudo", explica outra mulher.

A partilha de experiência faz-se mais intensa e Natalia tem alguma dificuldade em conseguir ouvir tanto entusiasmo ao mesmo tempo!

As interrupções sucedem-se. Há muito para contar. Recordações de viagens que fizeram juntas, dos lugares que viram, das comidas que provaram.

Natalia Lubchenkova
Natalia conversou, em Sloviansk, com um grupo muito dinâmico. Entre c´há e poemas, há também tempo para ir ao Facebook. Natalia Lubchenkova

Iniciativas como "A idade da felicidade" não são ofeceridas pelo Estado ucraniano. Algo que acontece, por exemplo, na Europa Ocidental, onde o sistema social prevê que os mais velhos, na idade da reforma, possam manter-se ativos, com vários tipos de atividades. Mas, na Ucrâna, como em alguns países europeus, ser socialmente ativo é visto como estranho.

A iniciativa foi mesmo vista com alguma desconfiança por parte das famílias das mulheres que frequentam os encontros e os passeios. Houve quem pensasse que era uma seita religiosa. Preconceitos ultrapassados com o tempo.

Claro que iniciativas como esta podem ser mais difíceis de levar a cabo, especialmente se falamos de localidades mais próximas da chamada linha da frente.

Para além do Comité Internacional da Cruz Vermelha (ICRC, sigla em inglês), poucas organizações humanitárias se atrevem a trabalhar em território ocupado pelos separatistas pró-russos. Nos territórios recuperados pelo exército ucraniano, as pessoas chegam a sobreviver apenas graças à ajuda internacional ou ao voluntariado das igrejas.

Uma ameaça de fogo permanente

As aglomerações próximas da linha da frente, em ambos os lados da "linha de contacto" permanecem sob ameaça de fogo. O acesso da parte de missões humanitárias, pessoal médico e até bombeiros pode ser limitado. A eletricidade e a água não se encontram garantidas.

A reconstrução é importante para um possível processo de paz. É o que defendem as organizações humanitárias na região. Um processo que pode, no entanto, demorar anos.

Natalia foi depois à localidade de Oleksandro-Kalynove, apenas a 40 quilómetros da "linha de contacto". Conheceu Svitlana Sozanska, que a recebeu com uma refeição onde não faltaram os prátos mais apreciados na região.

Natalia ficou a conhecer a pequena casa. O quarto de banho fica numa pequena cabana de madeira improvisada, no quintal das traseiras. E ainda que o saneamento básico seja um problema para Svitlana, a verdade é que o mesmo não acontece com a Internet. A senhora tem uma ligação incrivelmente rápida!

Natalia Lubchenkova
Svitlana recebeu Natalia com uma refeição completa, com os pratos mais apreciados na região. Natalia Lubchenkova

Como a Euronews esteve anteriormente na região, onde produziu uma reportagem em 360, Natalia decide mostrar a Svitlana como usar um par de óculos de VR (Realidade Virtual). Svitlana está curiosa e experimenta-os, entusiasmada. É a primeira vez que vê imagens panorâmicas da sua própria região, que conhece bem, mas por onde há muito que não pode passear tranquilamente.

Oleksandro-Kalynove já foi mais popular entre os turistas. Era mesmo bastante popular, antes do início do conflito. Havia visitantes das grandes cidades da região, turistas interessandos em descansar, entre paisagens de cortar a respiração e comida feita como em casa.

"A nossa aldeia encontra-se muito bem localizada," explica Andriy Taraman. Natalia encontra-se com ele à porta de um museu recuperado e gerido pelos habitantes da aldeia.

Natalia Lubchenkova
Svitlana tem a casa de banho numa barraca de madeira improvisada no quintal. Mas conta com uma rápida ligação de internet. Adorou experimentar os óculos 3D, emprestados por Natalia. Natalia Lubchenkova

"Temos, por exemplo, as paisagens de Kleban Byk, mesmo ao pé. Algo importante, numa região industrial como a nossa. Organizamos festivais, temos mesmo uma quinta com ovelhas. Os turistas vêm e aprendem a tosquiar. Temos uma montanha onde famílias inteiras fazem snowboard."

Desde o início da guerra, no entanto, os turistas começaram a evitar a região. A estrada que chega de Donetsk está quase sempre vazia.

Mas os habitantes da aldeia continuam a desenvolver o museu, com uma exposição cuidada dentro de uma casa de campo do século XIX.

Mas a guerra cansa as pessoas, pensa Natalia. Andriy parece-lhe cansado. Esteve no exército ucraniano e perdeu alguns dos amigos mais próximos. Apesar de todos os obstáculos, continua com esperança num futuro melhor.

Mais perto da linha da frente, encontramos Hranitne, onde dezenas de casas abandonadas, algumas das quais parcialmente destruídas são testemunhas de um fogo cruzado que não perdoa nada nem ninguém. Natalia atreveu-se a chegar até à chamada "zona vermelha." A fronteira mantida entre os separatistas pró-russos e os soldados do Governo ucraniano, na região do rio Kalmius.

Hranitne, uma história de histórias

Hranitne foi fundada no século XVIII pelos Urums, gregos turcófonos da Península da Crimeia. Depois da Segunda Grande Guerra Mundial, chegaram grupos de tártaros. Há mesmo uma mesquita na localidade e um cemitério muçulmano.

Agora, as coisas estão mais seguras, mas Natalia consegue sentir a tensão no ar. Há pouco tempo, um edifício foi atingido por um míssil. A maioria dos destroços fotografados por Natalia, no entanto, datam de 2014 e 2015. Há ainda casas sem teto, sem ninguém para recuperá-las. Mas as coisas estão a mudar, como explica Vasylyna Nikolayeva, presidente do conselho municipal de Hranitne.

"Entre 2014 e 2015, fomos alvo de lançamentos de artilharia pesada. Mesmo o telhado do centro de saúde ficou completamente destruído. Era onde ficavam também uma pequena biblioteca e uma escola de música para as crianças. Restaurámos o telhado em 2016. Mas o edifício nem tinha aquecimento central. Agora, com a ajuda da Cruz Vermelha, estão a ser feitos trabalhos, mas ainda não há janelas. Vamos colocá-las em breve, graças à ajuda de organizações locais, " explica Nikolayeva.

Natalia Lubchenkova
Yana Synytsia e Andriy Tamaran em Oleksandro-Kalynove, junto ao museu gerido pela população local. Natalia Lubchenkova

Muitas famílias de Hranitne perderam familiares nos últimos anos de guerra. Houve mesmo quem perdesse crianças. O cemitério foi recentemente restaurado, mas teve de ser protegido - da forma mais eficaz possível - para não ser destruído pelos mísseis.

Natalia ouve histórias sem fim de quem perdeu familiares, mas nota que, em Hranitne, tal como nas outras povoações, há um desejo inabalável de reconstrução e de futuro. Uma reconstrução que faz com pequenas ideias. Em Hranitne, a música parece ser a chave para superar a guerra.

Há uma pequena banda que toca em três línguas: uma língua túrquica, em ucraniano e em russo. A presidente do concelho municipal explica a Nataliia que procuram desenvolver pequenas iniciativas para momentos de lazer.

Hranitne conta agora com clubes para as crianças, um coro infantil, e um local de encontro para os mais velhos.

Em Hranitne, como em Sloviansk, o poder local, mas sobretudo, os habitantes do leste da Ucrânia, tentam refazer os pedaços do conflito que opõe o Governo central aos separatistas.

Natalia Lubchenkova
Vasilina Nikolaeva no cemitério local. Esteve fechado durante meses por causa dos ataques. Natalia Lubchenkova

Na linha da frente, na linha de contacto, na zona vermelha, seja onde for, as populações de Donbass, vítimas diretas de uma guerra sem fim, parecem ter apenas uma opção. A da resistência.

Jornalista multimédia na Euronews, Natalia Liubchenkova é autora do projeto fotojornalístico "Donbass: para além das manchetes", com exposição patente ao público em Berlim, de 16 a 31 de março, na Academia Konrad-Adenauer.