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Que países da UE foram total ou parcialmente privados do gás russo?

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De  Jorge Liboreiro
A Gazprom informou vários Estados-membros de que ficariam privados do gás russo
A Gazprom informou vários Estados-membros de que ficariam privados do gás russo   -   Direitos de autor  Michael Sohn/Copyright 2022 The Associated Press. All rights reserved   -  

A União Europeia está à beira de um precipício energético.

A Rússia, o principal fornecedor de combustíveis fósseis do bloco, está a travar uma guerra violenta contra a Ucrânia, sem um fim aparente à vista. Enquanto as nações ocidentais aplicam ao país um número cada vez maior de sanções, o Kremlin está a duplicar a retaliação, chegando ao ponto mais fraco da UE: a dependência do gás.

Nos últimos meses, Moscovo cortou, total ou parcialmente, o fornecimento de gás a vários Estados-membros da UE, um ataque drástico que prejudica tanto a economia europeia como a russa.

A principal razão para justificar a mudança foi um decreto emitido pelo Presidente Vladimir Putin que obriga as empresas de energia a abrir uma conta em rublos na Gazprombank para concluir as suas transações.

Como alguns governos se recusaram a cumprir esta imposição, unilateral, temendo que isso violasse os seus contratos e o espírito das sanções da UE, Putin começou a punir aqueles que considera como países "hostis".

O bloco está agora a preparar-se para uma interrupção total dos fluxos de gás russo, um cenário que muitos economistas pensam que desencadearia, automaticamente, uma profunda recessão e obrigaria os governos a racionar a energia.

A Comissão Europeia está a trabalhar num plano para coordenar medidas de contingência e evitar a abordagem egocêntrica que dificultou a resposta inicial à pandemia da Covid-19.

"Precisamos também de nos preparar para novas perturbações no fornecimento de gás e mesmo para um corte total no fornecimento de gás russo", afirmou a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

"É óbvio: Putin continua a utilizar a energia como arma".

Estes são os países da UE que até agora têm sido vítimas da retaliação russa.

Polónia e Bulgária

No final de abril, a Polónia e a Bulgária tornaram-se os primeiros países da UE a serem privados de gás russo.

A Gazprom, o gigante energético russo controlado pelo Estado, informou os dois países de que os fluxos de gás seriam interrompidos devido à sua contínua recusa em pagar as suas faturas em rublos.

A Polónia e a Bulgária denunciaram, abertamente, o procedimento de pagamento em duas etapas, prometendo acelerar a diversificação do seu cabaz energético.

Para a Polónia, o corte inesperado era controlável, uma vez que a maior parte da sua eletricidade provém da combustão de carvão. O país tem um terminal de gás natural liquefeito (GNL) em Świnoujście, a partir do qual pode receber fornecimentos adicionais de parceiros mais fiáveis, tais como os Estados Unidos, Qatar, Egito e Israel.

A Bulgária, que dependia cerca de 90% do gás russo, também aumentou as aquisições de GNL e revelou planos para expandir a capacidade de um gasoduto que bombeia gás do gigantesco campo do Azerbaijão no Mar Cáspio.

Finlândia

A 20 de maio, a Gazprom disse à Finlândia que iria suspender todos os fluxos de gás depois de a Gasum, o grossista de gás estatal do país, se recusar a cumprir o decreto de pagamento em rublos.

A decisão coincidiu com um impulso de Helsínquia para aderir à NATO, a Aliança Transatlântica cuja expansão Putin criticou, veementemente.

Embora a Finlândia fosse altamente dependente do gás russo, a referida matéria-prima representava apenas cerca de 5% do seu consumo anual de energia, o que tornava a crise mais fácil de gerir.

Dinamarca e Países Baixos

No final de maio, poucos dias após a Finlândia ter visto os seus fluxos de gás russo desaparecerem, da noite para o dia, a Dinamarca sofreu um destino semelhante quando a multinacional dinamarquesa de energia, Ørsted, ignorou os apelos para pagar em rublos.

"Isto não é de todo aceitável", afirmou a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen. "Isto é uma espécie de chantagem de Putin".

Quase ao mesmo tempo, a Gazprom interrompeu, totalmente, os fornecimentos ao distribuidor holandês GasTerra, também por causa de uma recusa em liquidar as suas faturas em moeda russa.

A GasTerra declarou ter tomado as medidas necessárias para assegurar fornecedores alternativos e compensar a perda dos dois mil milhões de metros cúbicos (bcm) de gás russo, previstos.

Natacha Pisarenko/Copyright 2022 The Associated Press. All rights reserved
Enquanto Draghi, Macron e Scholz visitavam Kiev, a Gazprom reduzia os fluxos de gás para os seus países.Natacha Pisarenko/Copyright 2022 The Associated Press. All rights reserved

Alemanha, Itália e França

As três maiores economias da União Europeia foram atingidas pela retaliação russa na preparação de uma viagem conjunta a Kiev do Chanceler alemão Olaf Scholz, do Primeiro-ministro italiano Mario Draghi e do Presidente francês Emmanuel Macron.

A Alemanha registou um decréscimo de 40% nos fluxos do Nord Stream 1, o gigantesco gasoduto que liga a Rússia à cidade de Greifswald, no norte do país, que transporta até 55 bcm por ano.

A Gazprom afirmou que as reparações do gasoduto foram a razão para a redução, mas Berlim reagiu, acusando a empresa de distorcer, deliberadamente, o mercado para aumentar os preços e injetar mais dinheiro nos cofres do Kremlin.

À medida que o fornecimento de gás diminuía, o governo de Olaf Scholz mobilizou-se para ativar a segunda fase do seu plano de emergência, de três fases, aproximando o país das medidas de racionamento.

Em Itália, a multinacional de energia Eni, que abriu uma conta bancária em rublo para cumprir o decreto de Putin, disse que o fornecimento de gás russo tinha diminuído 15%, uma redução que continua até aos dias de hoje.

A Gazprom não forneceu à Eni uma explicação para os fluxos limitados.

O Primeiro-ministro Draghi disse na altura que a alegada manutenção do gasoduto por parte da Gazprom era uma mentira. "Existe uma utilização política do gás tal como existe uma utilização política do trigo", salientou o chefe do executivo italiano, referindo-se ao bloqueio dos portos ucranianos.

Entretanto, em França, o operador da rede GRTgaz informou, inicialmente, que já não recebia qualquer gás proveniente da Rússia, embora o governo tenha, posteriormente, esclarecido que os fornecimentos ainda estavam a chegar, embora em quantidades variáveis.

Áustria, Eslováquia e Chéquia

No mês de junho houve novas reduções de gás para outros países da UE.

O grupo energético austríaco OMV registou um declínio de 50% de gás russo, que depois melhorou, ligeiramente, para cerca de 40%, no início de julho.

A companhia de gás eslovaca, SPP, também registou uma queda gradual nos fornecimentos, podendo os referidos volumes atingir metade do que estava estipulado nos contratos.

A Chéquia, que exerce, atualmente, a presidência rotativa do Conselho da União Europeia, registou uma queda global no trânsito de gás, mas constatou que os fornecimentos ao país não estavam sob ameaça.

"Estamos prontos a trabalhar na coordenação das reservas de gás antes do próximo Inverno e a promover a compra voluntária conjunta", afirmou o Primeiro-ministro checo, Petr Fiala, ao Parlamento Europeu.

"Devemos ter sempre em mente que podemos encontrar-nos numa situação em que a solidariedade entre os Estados-membros é mais do que nunca necessária".

A lista crescente de interrupções no fornecimento de gás lança sérias dúvidas sobre o objetivo, recentemente, acordado da UE de atingir um nível mínimo de 80% de armazenamento de gás até um de novembro, uma meta projetada para evitar um inverno de escassez e insatisfação.

O nível atual de armazenamento, em todo o bloco europeu, situa-se nos 60%, com apenas três países - Portugal, Polónia e Dinamarca - acima da marca dos 80%.