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Anna Nicole, a ópera

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A sua vida foi uma telenovela: objeto de desejo; vítima e ícone dos nossos tempos. Eventualmente, uma mitómana que se transformou num mito. A vida de Anna Nicole Smith é hoje uma ópera, em cena na Royal Opera House de Londres.

Com os seus implantes mamários, as páginas centrais da Playboy, os clubes de striptease, os programas de televisão, os ‘paparazzi’, um casamento por interesse – diz-se-, os intermináveis processos jurídicos, a falência e, por fim, uma morte prematura… a vida de Anna Nicole Smith dava um filme. Mas acabou por ser uma ópera, recentemente estreada em Londres, na Royal Opera House.

Anna Nicole Smith teve dois maridos: o primeiro tinha 16 anos, o segundo, o magnata J. Howard Marshall III, tinha 89.

“Era fabulosamente excêntrica”, explica Richard Thomas, responsável pelo libreto. “Houve algo de absurdamente belo na sua ascensão; e de simplesmente comovente e trágico no final da vida. Os problemas começaram quando ela começou a luta por metade da herança do velhote… Passou dez anos nos tribunais. O que, de certa forma, mostra uma certa ‘moral da história’: o dinheiro fácil não existe. Ela passou dez anos à caça deste dinheiro fácil e não conseguiu um cêntimo.”

Para representar a vida desta self-made jet-set e mostrar a vulnerabilidade dos tempos atuais foi preciso escolher bem a música e, sobretudo, a letra. ““O libreto tem muitos palavrões”, reconhece o responsável. “ É muito contemporâneo, com referências a musicais e a canções pop. É uma linguagem muito falada, misturada com rimas e, de repente, temos explosões de poesia. Há uma grande dinâmica, ritmo, tensão… (Isto é o que a música nos dá…) E depois há um choque entre a letra e a música. É uma boa mistura.”

A música, pelo seu lado, combina diferentes estilos, da pop à soul, passando pelo R&B, com uma pitada de jazz. “A linguagem pode ser uma armadilha, para os cantores de ópera. Têm de produzir sons que favoreçam as palavras, que soem como americano: a certas alturas, deve soar mesmo como a pop – com uma espécie de liberdade e de flexibilidade…”, explica o maestro, Antonio Pappano. “Mas Mark-Anthony Turnage, o compositor, em determinados momentos, pôs frases de ópera na boca de Anna Nicole e a cantora – Eva-Maria Westbrook – tem de interpretá-las como se representasse a Tosca.”

O míto de Anna Nicole Smith foi construído a partir desta modelo ‘vendida’ como um objeto de desejo e paga a preço de ouro. Estava determinada a ‘violar o sonho americano’, como ela própria dizia… Morreu na miséria, aos 39 anos, vítimas de uma overdose de medicamentos.

Eva-Maria Westbrook – tem de interpretá-las como se representasse a Tosca.”

O mito de Anna Nicole Smith foi construído a partir desta modelo ‘vendida’ como um objeto de desejo e paga a preço de ouro. Estava determinada a ‘violar o sonho americano’, como ela própria dizia… Morreu na miséria, aos 39 anos, vítima de uma overdose de medicamentos.

Antonio Pappano deixa-nos a ‘moral da história’: “A mãe da Anna Nicole declarou: ‘Tomem conta dos vossos filhos porque o mundo é um sítio perigoso’, ou algo no género. E é verdade. Os riscos estão lá para serem tomados, mas é assustador. O mundo do risco e da aventura – com um A grande – a que chamamos ‘vida’ – é assustador.”

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