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Gérard Depardieu: "Nunca procurei ser um monstro sagrado"

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Gérard Depardieu: "Nunca procurei ser um monstro sagrado"

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Estrela do cinema francês, Gérard Depardieu encarnou Balzac e Cristóvão Colombo, passando por Cyrano de Bergerac e pelo conde de Monte Cristo. Muito em breve será Rasputin.

Partilhou o grande ecrã com Marcello Mastroiani, Robert de Niro ou Yves Montand. Nomeado para os Óscares, ganhou uma Palma de Outro em Cannes, um Globo de Ouro e dois Leões de Ouro em Veneza.

Em Lyon, Gérard Depardieu acaba de ser distinguido com o prémio Lumiére, que reconhece toda uma vida ao serviço da sétima arte.

A Euronews esteve à conversa com o ator, numa entrevista intimista.

Frédéric Ponsard, Euronews: Ao ser homenageado na cidade que viu nascer o cinema, pela mão dos irmãos Lumiére, considera-se um “monstro sagrado” da sétima arte?

Gérard Depardieu: “Não sei, nunca procurei ser um monstro sagrado, ainda que algumas pessoas me coloquem nessa posição. O que me preocupa é compartilhar com os espetadores certos momentos, como aconteceu aqui em Lyon. Através dos meus filmes tento partilhar momentos de emoção, violência, turbulências. O cinema permite-me estar junto dos espetadores.”

Frédéric Ponsard, Euronews: Citou Peter Handke que ao falar dos atores dizia: “Quando se é ator, queima-se a vida.”

Gérard Depardieu: “Quando nos vemos no grande ecrã, sentimo-nos numa armadilha. Partilhamos momentos muito intensos, muito emotivos com os espetadores e chega o momento em que o ator se sente atingido pela própria emoção que provoca aos outros. Tanto, que a certa altura é preciso dizer basta!”

Nesta fase estou a rodar uma película que decorre durante a Primeira Guerra Mundial.

Dou vida a um herói, um homem que vive com uma bala alojada no cérebro. Vive numa aldeia onde foi morto um alemão. E os alemães querem 20 pessoas para fuzilar como represália.

Os vizinhos tentam convencer a minha personagem a integrar o grupo de prisioneiros porque, de qualquer forma está condenada, com uma bala no cérebro, não tem boa qualidade de vida. A minha personagem aceita, apresentando-se como voluntária. Mas antes quero saber que tipo de funeral me será oferecido, que estátua será erigida em minha homenagem.

É a mesma impressão que tenho quando vejo os meus filmes. Penso que há um trabalho imenso por detrás e acredito que sou o único a sofrer as consequências de todo esse trabalho requerido atrás das câmaras.”

Frédéric Ponsard, Euronews: Neste filme, que acaba de falar, trabalha com Harvey Keitel. É uma produção romena, rodada na Roménia e na Bélgica. O que pensa do cinema europeu?

Gérard Depardieu: “Infelizmente penso que falta uma verdadeira política de distribuição e difusão. As televisões de muitos países não estão à altura das circunstâncias. Estão obcecadas com as audiências e cometem todas os mesmos erros. Os grandes grupos audiovisuais poderiam, pelo menos, usar as cadeias mais pequenas para difundir o cinema europeu. Há espaço para todos os gostos.

Nos cinemas, a situação é igualmente confusa. Todas as semanas estreiam 20 filmes diferentes, uma quantidade excessiva. Os distribuidores não conseguem dar resposta e oferecem apenas o que lhes é mais rentável. O cinema europeu deve recorrer a fórmulas específicas para agarrar o público.”

Frédéric Ponsard, Euronews: As personagens que interpreta superam as fronteiras francesas. Rodou com Bertolucci, em Itália, com Ridley Scott, em 1942, e dentro em breve será Rasputin. Sente que tem uma alma europeia?

Gérard Depardieu: “Completamente. Cada país tem uma história, uma cultura e é isso que me motiva. No cinema, como espetadores, podemos identificar-nos com um herói ou uma personagem. E eu venero os espetadores. Também tenho necessidade de encontrar pessoas com as quais o espetador possa identificar-se, com quem queiram passar algum tempo.”

Frédéric Ponsard, Euronews: Nasceu numa pequena localidade do centro de França. Tem origens populares, proletárias. Como é que analisa o percurso profissional. Considera-se um “self-made-man”?

Gérard Depardieu: “Não sei. Não desejei isto. Não tinha ambições maiores. A minha única ambição era observar os outros e tentar divertir-me com estas observações. Sempre quis deixar-me levar pela beleza do momento, pelas alegrias ou misérias das pessoas à minha volta. Aproximo-me dos outros com um sentimento de curiosidade e afeto. Não me considero um bulímico de sucesso. Quero morrer como vivi, observando os outros, um pouco como o personagem de Guilherme o Marechal, grande cavaleiro. Após a sua morte, as pessoas tentaram ficar com alguns dos trajes militares, para manter viva a sua memória. Felizmente existe a morte. A eternidade, estamos longe de a ter.”