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A adiada corrida ao ouro na Roménia

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A adiada corrida ao ouro na Roménia

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A maior jazida de ouro da Europa encontra-se no coração da Montanha Vermelha, Rosia Montana como lhe chamam na Roménia.

A crise económica fez disparar o preço do ouro, o que está a levar vários grupos internacionais a procurar novas prospeções em países como Espanha, Eslováquia, Grécia, Portugal, onde a produção parou no início dos anos 90, e Roménia.

O projeto que prevê retomar a exploração em Rosia Montana é precisamente um dos mais controversos, pela sua dimensão, pelo impacto ambiental e pela existência de vestígios arqueológicos deixados pelos romanos, numa mina que tem mais de 2 mil anos.

Calin Pal lidera uma equipa que trabalha na preservação desses vestígios que repousam em galerias subterrâneas ancestrais. “Antes de mim estão três gerações de mineiros: o meu bisavô, o meu avô, o meu pai. E espero que o nosso trabalho continue nas próximas dez”, afirma Calin.

Muitos habitantes locais pretendem que a atividade seja retomada o mais depressa possível, apesar dos alertas sobre a eventual destruição das galerias romanas. A empresa canadiana Gold Corporation tem tentado arrefecer os ânimos, investindo milhões de euros na transformação de parte das galerias num museu. É por isso que vários arqueólogos europeus vieram até aqui.

O setor mineiro da Roménia sofreu grandes alterações a partir de 1998. Cerca de 550 explorações foram encerradas, deixando no desemprego 80 mil trabalhadores. As minas da era comunista não cumpriam com as normas ambientais, nem com as diretivas europeias. Por isso, há quem veja os planos de investimento da Gold Corporation como uma luz ao fundo do túnel. Mesmo assim, a empresa canadiana enfrenta o ceticismo de quem afirma que a Roménia pouco vai lucrar. Catalin Hosu, do departamento de Comunicação, rebate esta ideia: “trata-se do maior depósito de ouro na União Europeia, mais de 300 toneladas. Temos um investimento previsto de cerca de 2 mil milhões de dólares. Estamos a falar de um lucro para a Roménia na ordem dos 4 mil milhões de dólares, ou seja, mais de 50 por cento das receitas. E ainda vão ser criados milhares de postos de trabalho.”

Mas há mais receios: a poluição provocada pelo cianeto presente nos desperdícios da mina. A resposta dos canadianos consiste na construção de uma barragem para conter o vazamento. Para alguns, como Sorin Jurca, de uma fundação local, trata-se de uma proposta drástica: “toda a área integrada no vale de Corna será destruída. Há ainda 40 famílias a viverem aí. Há duas igrejas com cemitérios. A empresa quer construir uma barragem e um lago numa extensão de 600 hectares. Se o fizerem, toda esta zona será apagada da face da Terra.”

Muitos habitantes já aceitaram mudar para outra localidade, Alba Iulia, a 70 quilómetros. Nos arredores da cidade, a empresa gastou 30 milhões de euros para erguer todo um bairro, 125 casas e uma igreja.

Não muito longe de Rosia Montana vive a família Pantir, numa comunidade cigana sedentarizada que há muito se vê a braços com a falta de rendimentos. Para Dorinel Pantir, não é justo o facto de apenas 30 ciganos terem sido contratados, quando a empresa já recrutou quase 500 trabalhadores. “A Gold Corporation devia falar diretamente connosco, não através da Câmara. Devíamos criar uma comissão para assinar um protocolo de forma a que, pelo menos, um membro de cada família cigana seja contratado”, propõe Dorinel. O declínio da indústria mineira gerou uma situação asfixiante na região: a taxa de desemprego atinge nada menos do que 80 por cento da população ativa.

Nada pode sobreviver nas águas avermelhadas que saem da mina de ouro. A Gold Corporation abriu uma estação-piloto de tratamento que recorre a técnicas de nanofiltragem para purificar as águas residuais e a nascente afetada por séculos de explorações. Nada que impressione Eugen David, que tem uma quinta situada, justamente, entre duas das explorações previstas. David propõe um modelo económico alternativo na região, baseado na agricultura sustentável e no turismo. Para ele, a nova estação de tratamento é um “presente envenenado”. “Não é preciso andar a remexer 500 milhões de toneladas de pedras e utilizar centenas de milhares de toneladas de cianeto para resolver o problema da pequena nascente ácida de Rosia Montana”, ironiza David.

A renovação de casas na área protegida de Rosia Montana já está a criar algum emprego. Mas quando é que vai arrancar a corrida ao ouro? Não há um entendimento político. O colapso do governo de centro-direita e a subida de Victor Ponta, um opositor do projeto, à chefia do executivo, precipitou a queda das ações da Gold Corporation. O orçamento disponível para investir foi reduzido. Dragos Tanase, diretor-geral da empresa em Rosia Montana, considera que “muitas pessoas vão arranjar trabalho aqui. Os cofres públicos vão receber muito dinheiro. Toda esta gente aguarda uma decisão. A paciência está a esgotar-se, o dinheiro não é ilimitado. A um dado momento, as coisas vão parar. Por isso, é altura de o governo tomar uma decisão.”

Em dezembro, a Roménia vai a eleições legislativas. Provavelmente, a decisão só surgirá depois.