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Há chavismo depois de Chávez?

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Há chavismo depois de Chávez?

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Pode o Chavismo sobreviver à morte do seu líder carismático, Hugo Chávez? O acontecimento marcou o início de um período de incerteza na Venezuela, antes das novas eleições, a terem lugar dentro de um mês. E poderá significar o fim de uma era não só para o país, mas também para a América do Sul.

O avanço da doença não permitiu que Chávez fizesse um discurso de despedida, mas, em dezembro passado, organizou a sucessão designando Nicolás Maduro – o atual presidente interino. Nas próximas eleições Maduro deve competir com o líder da oposição Henrique Capriles, derrotado por Chávez nas eleições presidenciais de outubro de 2012.

As reservas de petróleo permitiram que Hugo Chávez deixasse um forte legado, assente no desenvolvimento de programas sociais, numa luta contra o analfabetismo e redução da pobreza. No entanto, deixa para trás uma economia em desordem e a barra da inflação deverá rondar os 29% este ano.

A grande questão na Venezuela é se o sucessor, seja ela qual for, vai defender a revolução e o legado de Chávez ou se, por outro lado, o tentará desmantelar.A avaliar pelas reações da sociedade venezuelana, a influência política de Chávez não será facilmente esquecida nos próximos anos.

euronews: Estamos na companhia de Teodoro Petkoff, diretor do Diário “Tal e Cual”, um dos mais conhecidos e reputados da Venezuela, para falar sobre as perspetivas de futuro que se abrem com a morte de Hugo Chávez.

Apesar de um balanço económico discutível, Hugo Chávez era um “campeão” nas eleições. Venceu 13 das 14 disputadas desde 2009, foi reeleito 3 vezes e manteve, até ao último suspiro, uma aprovação social enorme, praticamente 70%. Como se explica esta magia?

Teodoro Petkoff, Diretor do jornal “Tal e Cual”: Bom, se tivesse sido um caso isolado na História, teríamos agora que filosofar sobre o assunto, mas como existiram bastantes casos de líderes políticos que criaram vínculos, não apenas políticos, mas também emocionais e até afetivos com as respetivas populações, podemos entender que estas coisas acontecem; acontecem com certos personagens que têm atributos particulares: uma boa oratória, simpatia ou até extravagância e, no caso de Chávez, uma carteira cheia de dólares que lhe permitiu criar um vínculo emocional e afetivo muito sólido com uma parte do país. Chávez era uma personagem que dividia, a tal ponto que dividiu o país em dois: uma metade que gosta dele, e que chega a adora-lo de uma forma devota e outra metade que o detesta, e que chega mesmo a odiá-lo.

euronews: Qual foi a maior conquista do chavismo com Chávez e qual foi o maior fracasso?

Teodoro Petkoff: Chávez fez da pobreza o grande tema nacional. Mas, qual foi o maior fracasso? Precisamente 14 anos depois, a pobreza é o mesma. Fez descer um pouco a pobreza extrema, que era metade da pobreza global. Mas a pobreza global ainda afeta a vida de 60% dos venezuelanos.

euronews: O peronismo de Perón sobreviveu. O “castrismo” continua instalado em Cuba, uma vez retirado Fidel Castro. Sobreviverá o chavismo sem Chávez?

Teodoro Petkoff: Perón tinha uma popularidade muito maior do que Chavez. Mas Perón construiu também um movimento político, vamos chamá-la de doutrina simplesmente, um pensamento político ideológico. No chavismo não há nada para além de Chávez, e em redor dele o que existe é pura mediocridade e monotonia. E não é por acaso, Chávez é o tipo de líder que não suporta estar perto de alguém com brilho próprio. Além disso, construiu um partido sem um pensamento.

euronews: A morte de Chávez deixa livre a cadeira de Bolívar. Quem quer, ou quem pode ocupar este lugar? Será Cristina Kirschner, Morales, Correa…?

Teodoro Petkoff: Não creio que exista outro mandatário para a América Latina. Não só não têm os recursos económicos que Chávez tinha, e lhe permitia comprar amizades, como nenhum tem o desejo de ser um líder continental. Ele achava que a Venezuela era demasiado pequena, já que se sentia o herdeiro de Simon Bolívar, pensava que devia agir como Simon Bolívar, continentalmente.