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Com a abstenção, os outros decidem por nós

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Com a abstenção, os outros decidem por nós

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Há uma preocupação crescente com a descida constante na participação nas eleições europeias. Isso levanta uma questão fundamental: Como pode a Europa do futuro ser construída sem a participação dos cidadãos?

Fazer com que as pessoas votem e reforçar a legitimidade política é um desafio para as autoridades em toda a Europa. Nas últimas eleições europeias, em 2009, só 43% da população eleitora foi às urnas. Nas primeiras europeias, em 1979, a participação tinha sido de 62%.

Um dos países a tentar melhorar a taxa de participação é a Eslováquia. As eleições de 2014 vão coincidir com o décimo aniversário da adesão à União Europeia.

O país teve a abstenção mais elevada, nas últimas duas europeias… com menos de um quinto dos eleitores a votar.

A Bélgica e o Luxemburgo, onde o voto é obrigatório, tiveram taxas de participação de mais de 90%.

Em Bratislava, fomos ao encontro de três gerações de uma família típica, que nunca votou nas eleições europeias.

Viera tem uma loja de cosméticos. A filha, Sylvia, que tem uma bebé de seis meses, trabalha em informática: “Não votei nas eleições europeias, no passado, em primeiro lugar porque tinha muito pouca informação. Era algo que eu via como distante dos meus problemas. Estava preocupada comigo e com a Eslováquia, a Europa parecia-me uma coisa distante”, diz a avó desta família. Para Sylvia, as razões da abstenção foram outras: “Era muito nova e tinha outros interesses. Os jovens interessam-se por outras coisas. Não me interessava pela política, na altura. Mas agora a situação é outra, quando somos mais velhos vemos as coisas numa outra perspetiva”.

Uma grande parte do eleitorado está farta de eleições com várias voltas e das complicações da política nacional. Outros dizem que se sentem felizes em não votar. Antes da separação da Checoslováquia, em 1993, o voto era obrigatório.

Mesmo se a participação cresceu três pontos percentuais nas últimas europeias, a representação do Parlamento Europeu em Bratislava insiste que é preciso ir mais longe: “Continua a ser uma participação muito fraca, mas estamos já mais próximos de outros Estados membros. É um desafio, porque temos de aumentar o interesse no Parlamento Europeu, nas eleições europeias, temos de criar uma plataforma de diálogo entre os nossos eurodeputados e os empresários, a sociedade civil e o público em geral”, diz Robert Hajsel, do gabinete de informação do PE na Eslováquia.

Aumentar o interesse não é tarefa fácil. A Comissão Europeia publicou uma recomendação oficial, que diz que os partidos nacionais devem deixar claro, durante a campanha, quais os partidos europeus com que estão alinhados.

Outra medida para aumentar o interesse dos cidadãos é fazer com que os partidos nomeiem um candidato a presidente da Comissão Europeia e tornem essa escolha pública antes das eleições.

O Parlamento Europeu elege o presidente com base nas propostas dos líderes europeus, que devem ter em conta os resultados eleitorais.

Outra recomendação para trazer mais eleitores é fazer das eleições um evento único, afastando-se da tradição de ter eleições durante um período de período de quatro dias. Os Estados membros devem chegar a acordo sobre um dia único para o voto.

Mas essa é uma meta difícil de atingir, devido às tradições diferentes em cada país. Por exemplo, no Reino Unido, as eleições nunca são ao fim de semana.

Para atrair mais eleitores, os especialistas dizem que a atuação da Comissão Europeia tem de estar mais dependente da composição do parlamento. Pedem também uma melhor comunicação aos partidos.

“Basicamente, o que temos de dizer aos cidadãos é que eles podem mudar alguma coisa: se votam neste ou naquele partido para o Parlamento Europeu, isso pode mudar alguma coisa na direção da União Europeia. Porque as pessoas não votam só porque gostam da instituição ou porque conhecem muito bem as coisas. Votam se sentem que podem mudar alguma coisa em termos políticos”, diz Radovan Geist, da EurActiv.

A maioria dos partidos ainda não deu a conhecer a estratégia para as próximas eleições europeias, mas as pessoas pedem mais informação, acessível e fácil de digerir.

O debate continua à volta de outros temas como o possível voto obrigatório ou a marcação das europeias para o mesmo dia das autárquicas, em vários países.

Todos parecem concordar sobre uma coisa: A participação do eleitorado nas europeias não é nada famosa e alguma coisa tem de ser feita para mudar a situação.