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Crise nas divisas emergentes

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Crise nas divisas emergentes

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A rupia indiana caiu, esta segunda-feira, para um mínimo histórico face ao dólar, depois de também o real do Brasil e outras moedas de economias emergentes terem estado a cair. Para os investidores, estas são as divisas mais vulneráveis às fugas de capital.

Este ano, a rupia desceu já 13%, enquanto o real caiu 15%.

O anunciado fim dos estímulos ao dólar por parte da Reserva Federal americana não deve parar esta tendência para vender as divisas das economias emergentes.

Pelo contrário, a mudança de política da Fed está a encorajar os investidores a abandonar os negócios considerados mais arriscados, como é o caso dos que envolvem estas divisas.

A Fed anunciou que iria abrandar o programa de compra de obrigações, o único estímulo monetário que tinha ao dispor, depois de não poder baixar mais a taxa de juro.

Para falar sobre esta crise das moedas emergentes, a euronews convidou Jean-Pierre Petit, presidente dos Cahiers Verts de l’Economie, um organismo independente de estratégia em investimento.

Aintone Juillard, euronews: Podemos dizer que a mudança de política da Reserva Federal Americana foi apenas a faísca que provocou o incêndio e que as razões fundamentais têm de ser procuradas nas fraquezas destas economias. Quais são essas fraquezas?

Jean Pierre Petit: Se estes países sofrem de défices exteriores é, em parte, porque têm problemas de competitividade. É porque nos últimos três ou quatro anos não fizeram muitas reformas estruturais, ao contrário do que ocorreu nos anos 2000. E porque têm estrangulamentos ao nível da oferta, sobretudo a Índia e o Brasil. É nisto que deveriam concentrar-se, tentando convencer os investidores internacionais acerca da credibilidade e da sustentabilidade das suas medidas.

A decisão da Reserva Federal desempenha um pequeno papel. Porquê? Porque quando a Fed anuncia mudanças na política monetária – e não nos esqueçamos que os principais investidores do mundo estão nos Estados Unidos – e se comprova que o diferencial das taxas de juros será um pouco mais favorável neste país, os fluxos de capital dos últimos cinco anos para os países emergentes regressam aos Estados Unidos. Fluxos muito importantes, que durante estes anos foram parar aos mercados de títulos: Os mercados de dívida e os mercados de taxas de juro. Vários países que viram como o seu défice aumentava, especialmente a Índia, ou défices que se mantiveram de forma muito importante, como a Turquia e a África do Sul ou certos países da Europa de Leste, como a Ucrânia, estão em dificuldades.

euronews: Uma crise duradoura nestes países pode provocar danos na zona euro?

Jean-Pierre Petit: É evidente que se há um grande impacto nos países emergentes ou pelo menos em alguns deles, haverá um impacto final negativo. Ponho de parte a China, porque ela tem uma grande autonomia financeira, tem muito mais margem de manobra, nomeadamente em termos de reservas de câmbio e não tem problemas de défice da balança corrente.

O que eu diria, de uma maneira geral, é que não acredito num choque massivo sobre o conjunto dos países emergentes, como o que fez baixar a procura mundial em 1997 e 1998.

euronews: Os BRIC procuram um acordo sobre um fundo de intervenção no mercado de câmbios. Esta é a medida necessária a curto prazo?

Jean-Pierre Petit: No estado atual, não é a medida adequada. O que os países mais vulneráveis devem fazer é atacar as causas do défice, dos problemas, nomeadamente as estruturais e o défice de governação que há especialmente na Índia. Este país já não faz reformas, tem uma situação política muito frágil, ocupa o nonagésimo quinto lugar no índice de perceção da corrupção no mundo e não pode tomar todas as medidas que deveria por razões políticas.

Este problema é mais importante que introduzir um fundo de intervenção. Eu sei que é preciso tomar medidas urgentes, mas para já a situação não é dramática. Se eu excluir um certo número de países, creio que os países devem tomar medidas para convencer a comunidade internacional da vontade dos governantes para resolverem os desequilíbrios na origem dos problemas.