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Condições para o desarmamento químico da Síria

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Condições para o desarmamento químico da Síria

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O massacre de 21 de agosto em Ghouta, perto de Damasco, propulsionou a guerra civil síria para uma outra fase: 1429 pessoas morreram num ataque com armas químicas. Os Estados Unidos acusam o regime de Bachar al Assad e ameaçam fazer uma intervenção militar, sem esperar o relatório dos inspetores da OIAC, a Organização para a Proibição das Armas Químicas.

A análise das amostras recolhidas na Síria pode fornecer elementos que provem a responsabilidade do regime sírio.

Esta quinta-feira, o jornal russo Kommersant, publicou a proposta russa de controlo das armas químicas na Síria.

Damasco terá de:

1. Aderir à Organização para a Proibição de Armas Químicas.
2. Revelar as localizações do seu arsenal.
3. Autorizar as inspeções da OIAC.
4. Destruir as armas químicas, de acordo com a OIAC.

Mas a adesão da Síria à OIAC, com um arsenal químico de cerca de mil toneladas, segundo os cálculos ocidentais, não quer dizer que o caminho seja fácil, mesmo que Damasco siga os passos estabelecidos no plano russo.

A experiência do Iraque, na época de Saddam Hussein, e do suposto arsenal de armas químicas serviu de lição. Os inspetores da ONU sofreram as táticas dilatórias de Saddam Hussein.
Os componentes químicos mudavam de armazém para armazém, numa espécie de jogo do rato e do gato. Os inspetores não podem fazer grande coisa sem a colaboração do Estado inspecionado, até porque se os elementos químicos estão separados podem não constituir uma arma e o regime alegar que servem fins civis.

Por último, para destruir o arsenal químico sírio é preciso muito tempo, e muitos especialistas duvidam de que seja viável fazê-lo durante a guerra civil.

“Para o plano avançar é preciso um cessar-fogo”

Entrevistámos um antigo inspetor de armas das Nações Unidas, Dieter Rothbacher, que treinou os membros da equipa que agora regressou da Síria.

Paul McDowell/Euronews: “Dieter Rothbacher, bem-vindo à Euronews. Em primeiro lugar gostaria de ter um comentário à afirmação de um responsável norte-americano de que “o plano da Rússia para desmantelar a o arsenal químico da Síria é exequível mas complicado”…

Dieter Rothbacher/antigo inspetor de armas das Nações Unidas: “É de facto verdade, quando olhamos para isto temos que dividir a história em várias fases, significando em primeiro lugar, claro, que os sírios colocam o arsenal, toda a informação, em cima da mesa. Significa que vão ter que declarar o que têm e com base nessa informação, as Nações Unidas, a comunidade internacional, pode então criar uma equipa de inspetores e depois começar a visitar locais.”

Euronews: “Como se pode descobrir armas escondidas, especialmente, quando as forças do governo têm um amplo conhecimento do país, do terreno, logo uma grande capacidade de ocultação.”

Dieter Rothbacher: “Bom, existe esse potencial se eles quiserem esconder qualquer coisa no início. Quero dizer, tivemos algo semelhante no Iraque há 20 anos, eles foram obstrutivos durante uma série de anos mas no final a verdade veio ao de cima e no espaço de dois anos foram destruídas centenas de toneladas de armas químicas sob supervisão da ONU.”

Euronews: “Como pode a segurança de alguém estar garantida, como é que trabalham, como pode uma equipa trabalhar de forma eficaz numa região que – como todos sabemos – está devastada?”

Dieter Rothbacher: “Quando visita locais não precisa de muito equipamento. Quando realiza um inventário já é preciso um pouco mais de material, equipamento específico, por exemplo técnicas de análise não destrutivas, significando que pode olhar para contentores e munições sem sequer abri-los. Quando passa para a fase de eliminação, então aí é preciso muito mais, são necessárias infraestruturas de destruição que ainda precisam ser construídas.”

Euronews: “Então dê-nos a ideia do que uma equipa faz quando encontra armas químicas, quero dizer, como começa a desarmá-las?”

Dieter Rothbacher: “O inventário é o início do processo de desarmamento, com isso fica a saber o que é preciso destruir e as quantidades existentes. Igualmente, quando esta a realizar o inventário, tem de perceber se pode transportar as munições e os contentores até ao local de destruição. Se não puder transportá-los então poderá ser forçado a destrui-los no local, tal como foi feito no Iraque há 20 anos.”

Euronews: “E qual é o perigo que existe quando os químicos são queimados. Suponho há um grande perigo para a área envolvente…”

Dieter Rothbacher: “Existem algumas exigências, como as ambientais, que têm que ser cumpridas. Têm que realizar testes para ver se de facto funciona bem e só depois pode iniciar a campanha de destruição”.

Euronews: “Pela sua experiência, se o plano russo for aceite e implementado pode isto significar o caminho para o fim do conflito na Síria?”

Dieter Rothbacher: “É preciso haver uma espécie de cessar-fogo, especialmente para se avançar no aspeto técnico do plano e a fase de destruição. Isso é absolutamente necessário e estou certo que quando os grandes intervenientes concordam num plano é preciso haver uma espécie de cessar-fogo no terreno, porque senão esse plano não pode ser implementado.”

Euronews: “Está a sugerir de alguma forma que se o plano for implementado e avançar com o trabalho e depois, por qualquer motivo as hostilidades recomeçam, têm que interromper tudo?”

Dieter Rothbacher: “O que acontece é que antes de chegarmos à fase anterior à da destruição, existem semanas e meses de observação. Como disse anteriormente, o regime sírio precisa de pôr os dados sobre o arsenal em cima da mesa e isso inclui também os laboratórios de produção no país.”