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Estabilidade na Zona Euro nas mãos de Enrico Letta

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Estabilidade na Zona Euro nas mãos de Enrico Letta

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A pressão dos mercados regressou esta semana a pairar sobre a Itália. A demissão no passado sábado de cinco ministros afetos ao partido de centro-direita liderado por Sílvio Berlusconi, que orquestrou esse passo, colocou em causa o governo de coligação liderado por Enrico Letta, do Partido Democrático de centro-esquerda.

A bolsa de Milão reagiu em consonância ao choque político do fim de semana e foi a mais penalizada da Europa neste primeiro dia de uma semana que se revela decisiva para o futuro imediato da Itália. Enrico Letta é ouvido quarta-feira no parlamento italiano e vai pedir um voto de confiança para reformular o governo e proceder às reformas consideradas essenciais para a recuperação da terceira maior economia da Zona Euro.

Ao mesmo tempo, o partido Povo da Liberdade, de Sílvio Berlusconi, está em ebulição e algumas das principais figuras revelam abertura para cortar a ligação com o antigo primeiro-ministro e criar uma nova liderança. Os mercados estão atentos ao desenrolar do processo, revelam algum receio de investir e para já levaram a bolsa de Milão a fechar esta segunda-feira nos 1,3 por cento abaixo da linha de água.

O problema é que a crise política ameaça reconduzir a Itália para o caos económico. Depois de cinco meses de relativa estabilidade, tudo pode agora implodir, arrastando provavelmente também toda a Zona Euro para a uma crise devastadora. Com tanto em risco, fomos ao encontro de Maurizio Mazziero, observador privilegiado e analista fundador da Mazziero Research, conhecida consultora financeira italiana

euronews – Estamos de novo à beira do abismo?
Maurizio Mazziero – É possível. No entanto, os setores que poderão vir a sentir maiores problemas são o financeiro e o bancário. Devo sublinhar, contudo, que estamos a assistir a uma certa recuperação económica. Isso mesmo nos é revelado pelos indicadores e previsões da OCDE. Há, porém, um problema que se mantém: a dívida pública. Pelas nossas estimativas, os dados de agosto vão mostrar-nos quase de certeza uma ligeira recuperação e uma diminuição de cerca de 10 mil milhões de euros na dívida. No final do ano, contudo, a dívida pública deverá voltar a atingir um valor recorde.

euronews – Ao mesmo tempo que aqui falamos, circulam rumores de que uma agência de rating se prepara para fazer cair o nível da Itália devido à falta de reformas políticas. Estarão os especuladores financeiros a visar de novo a Itália?
MM – Os investidores estão a avaliar a situação com atenção e, tudo somado, nem sequer foi muito dramática a evolução da bolsa esta segunda-feira. Mesmo o aumento do spread não foi relevante. Em paradoxo, esta crise política pode até ter um efeito positivo nos parâmetros do PIB, que são atualmente superiores a três por cento: 3,1 por cento na ótica do Governo e 3,2 por cento de acordo com o FMI. Mas estes parâmetros podem até cair abaixo dos três por cento se se confirmar um aumento da receita fiscal através da subida do IVA, que, tudo indica, está confirmada e deverá começar a ser aplicada já esta terça-feira – a que se soma ainda a segunda tranche do pagamento do IMI.

euronews – O primeiro-ministro Enrico Letta vai pedir, na quarta-feira, um voto de confiança ao parlamento italiano. Como é que os mercados estão a olhar para isto?
MM – Se ele conseguir unir o Parlamento e conseguir, mesmo com alguma instabilidade, aplicar as reformas necessárias e apresentar aquele que será o orçamento para 2014, os mercados poderiam recuperar alguma tranquilidade. Se em vez disso se avançar para eleições, levanta-se uma grande incógnita e os mercados poderão, de facto, penalizar a Itália com um aumento do spread, mas sobretudo castigar a nova emissão de dívida pública.

euronews – Na bolsa de Milão, entretanto, as ações da Mediaset, da família Berlusconi, estão a perder valor. A crise no Partido Povo da Liberdade pode levar a divisões à direita e, quem sabe, a uma nova liderança. Será, no final, Sílvio Berlusconi o único a pagar a enorme fatura desta revolta que ele próprio provocou?
MM – Penso que quem está a pagar a conta é o povo italiano. Temos dois enormes problemas: a dívida pública e um país que não cresce. São ambos problemas estruturais do ponto de vista económico. Por isso, quem vai pagar a fatura são os italianos.