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Turquia: Oposição pró-curda impedida de entrar em Cizre

A oposição politica pró-curda da Turquia foi impedida de entrar em Cizre, cidade sob recolher obrigatório no sudeste do país. Selhattin Demirtas, o

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Turquia: Oposição pró-curda impedida de entrar em Cizre

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A oposição politica pró-curda da Turquia foi impedida de entrar em Cizre, cidade sob recolher obrigatório no sudeste do país.

Selhattin Demirtas, o líder do Partido Democrático do Povo (HDP), a força que nas últimas eleições conseguiu 80 assentos parlamentares e roubou a maioria absoluta ao partido do presidente Erdogan, foi barrado por militares.

(“A nossa delegação do copresidente Demirtas, ministros e deputados, a quem foi negada a entrada de carro, está agora a caminhar os 90 quilómetros de distância até Cisre”)

O recolher obrigatório em Cizre dura já há uma semana. Durante esse período e de acordo com o governo turco, confrontos entre as forças de segurança e militantes do PKK resultaram na morte de pelo menos 30 combatentes e um civil. O partido político pró-curdo HDP fala na morte de 21 civis.

O conflito entre Ancara e os militantes dos PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), considerado uma organização terrorista pela União Europeia e os Estados Unidos, voltou às armas depois do fim do cessar-fogo em julho. Desde então, já morreram centenas de pessoas num conflito que dura há 30 anos e que, no total, já terá provocado a morte de 40.000 pessoas.

Em Hatay, junto à fronteira com a Síria, milhares de pessoas saíram à rua para protestar contra o que dizem ser o terrorismo dos curdos.

“Vamos assistir a um agravamento do número de baixas no PKK

O jornalista Bahtiyar Küçük, da equipa turca da euronews, falou esta quinta-feira com Atilla Sandikli, o presidente do Centro de Estudos Estratégicos Wise Man (BiLGESAM), na Turquia, para esclarecer os últimos desenvolvimentos que voltaram a deixar o país em sobressalto.

O processo de paz iniciado há dois anos entre o Governo e o PKK é um dos mais importantes projetos na Turquia. O cessar-fogo estava a pôr fim à violência, mas subitamente houve um retrocesso brutal. Algumas semanas pós as eleições legislativas de 7 junho, que colocaram pela primeira vez um partido pró-curdo no parlamento, registou-se um escalar de violência no sudeste do país, junto à fronteira com a Síria.

euronews: Em tão pouco tempo, o que mudou?
Atilla Sandikli:No decurso do processo de paz, o Estado conseguiu enormes avanços democráticos e sócioculturais. Em conformidade ao entendimento de ambos os lados, desde o início desse processo de paz, a organização terrorista do PKK deveria ter retirado as suas forças armadas das montanhas e saído da Turquia. Mas não cumpriu. Esses terroristas mantiveram-se na Turquia e armados. Mais: esta força militar veio reforçar um outro braço do PKK, a nova estrutura urbana do grupo, o KCK. Para isso, fez entrar na Turquia armas e explosivos.

Pela primeira vez na história , um partido pró-curdo conseguiu representação no parlamento e com tantos deputados (80) quantos os do Partido do Movimento Nacionalista (MHP). Porque é que o PKK retomou os atos terroristas neste contexto?
A Turquia previu uma solução no quadro do reforço dos governos locais em conformidade com as condições europeias de governação local. Mas, vendo os objetivos do PKK para o KCK, demo-nos conta de que eles previam outra estrutura através das próprias forças de segurança: queriam implementar o seu próprio estado autónomo e até implementar uma estrutura confederal interligada com os curdos de outras regiões. Para conseguir essa região autónoma, ameaçaram o povo através de diferentes conflitos e, com isso, estão a ganhar terreno.

A Turquia está a combater em simultâneo o PKK e o grupo Estado Islâmico (ISIL, na sigla inglesa). Toda a região está em sobressalto. Como interpreta a escalada de tensão entre o exército turco e o PKK no enquadramento da presente crise?
A Turquia não é o único país em conflito com o autoproclamado Estado Islâmico. O Partido da União Democrática (PYD, da Síria) está igualmente a combater esse grupo terrorista. Para além disso, o reforço de poder do grupo Estado Islâmico na Síria e no Iraque deu ao PKK alguma legitimidade internacional e o PYD estabeleceu no norte da Síria as condições necessárias para criar um estado autónomo. Não resta nada mais do que a Turquia nos objetivos (de expansão) do KCK. É por isso que aumentaram os ataques do PKK nos últimos tempos.

O IRA, no Reino Unido, e a ETA, em Espanha, aceitaram baixar as armas. Não podia esta crise na Turquia ser resolvida também pela via política?
Desde 2013, no quadro do processo de paz, que pensávamos que seria possível encontrar uma solução política para este problema na Turquia. No entanto, num ambiente de preparação e de manutenção de paz, o PKK continuou a preparar-se para a guerra e enviou as suas forças armadas para o centro das cidades. Estruturas militares começaram a formar-se. Enquanto o PKK isolava algumas pessoas e raptava outras, o exército turco não efetuou quaisquer operações militares e não o fez porque não queríamos que o processo de paz falhasse. Hoje em dia, porém, percebemos claramente que o PKK abusou deste processo e preparou o terreno para o surgimento de novos conflitos.

O que será preciso para parar o conflito?
Para além das operações já efetuadas, com o reforço das medidas de segurança e o envio de reforços para a região vamos assistir a um agravamento do número de baixas no PKK, o que vai limitar a implementação logística deles. De forma gradual, vamos enfraquecer pouco a pouco as estruturas montadas nas cidades e, em pouco tempo, o PKK vai perder a capacidade de agir.