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As sombras que pairam sobre os mercados mundiais

O outono parece ter ensombrado ainda mais as principais praças mundiais, com os índices a precipitarem-se flagrantemente em terreno negativo. Desde o

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As sombras que pairam sobre os mercados mundiais

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O outono parece ter ensombrado ainda mais as principais praças mundiais, com os índices a precipitarem-se flagrantemente em terreno negativo. Desde o início de julho, as perdas acentuadas nos mercados já ascenderam a cerca de 11 biliões de dólares. São os piores resultados dos últimos quatro anos. Todas as atenções se deslocam agora para os lucros empresariais, cujas estimativas também não são sorridentes.

Point of view

Os corretores terão de ser muito cautelosos durante as próximas semanas.

A sucessão de derrapagens nos mercados globais

Desde 2011 que as praças mundiais não conheciam resultados tão desoladores. Uma sucessão de declínios abalou os mercados que terminaram o terceiro trimestre de 2015 com números negativos.

Comecemos por onde mais doeu: os mercados emergentes da Ásia, onde as perdas foram particularmente significativas. Em Xangai, o dia 24 de agosto foi mesmo apelidado de “segunda-feira negra”. A queda suplantou os 26%. O índice Hang Seng despenhou-se em mais de 27%, o de Singapura, acima dos 20% e o Nikkei, mais de 12%.

No Médio Oriente, as quedas atingiram sobretudo o Egito e os países do Conselho de Cooperação do Golfo, com os preços do petróleo em derrapagem. Os mercados menos atingidos nesta área foram os de Abu Dhabi e do Dubai, com desvalorizações na ordem dos 12%, enquanto que o saudita registou uma derrocada que rondou os 18%, seguido do egípcio, com menos 14%.

Do lado europeu, foram os piores resultados desde o início da crise da dívida soberana na zona euro. Recentemente, o cenário agravou-se ainda mais com o escândalo Volkswagen e a crise dos refugiados. O DAX acabou o trimestre num declive de quase 13%; Espanha e Reino Unido recuaram mais de 11%. A França teve uma prestação um pouco melhor, perto dos 8%.

Finalmente, os Estados Unidos também não escaparam à onda de choque. A Reserva Federal adiou, por várias vezes, a subida das taxas de juro e o trimestre concluiu-se com o índice S&P 500 a perder mais de 7% e o Dow Jones, acima dos 8%.

Agora os investidores aguardam o que vai acontecer aos lucros corporativos.

A opinião de Nour Eldeen al-Hammoury, analista da ADS Securities

euronews: O trimestre terminou com os mercados a apresentarem perdas significativas. Qual é o impacto deste cenário e, se ele se prolongar, que estimativas estão no horizonte?

Nour Eldeen al-Hammoury: O sentimento de incerteza continua a dominar os mercados, sobretudo após os Estados Unidos terem divulgado os números do desemprego no país, na semana passada. O quadro para os próximos meses é incerto, uma vez que não há indicadores económicos sólidos que permitam estabelecer previsões credíveis. O contexto a que assistimos no terceiro trimestre pode produzir vários efeitos negativos sobre o último trimestre deste ano. Os corretores terão de ser muito cautelosos durante as próximas semanas.

euronews: Os mercados do Médio Oriente foram bastante penalizados pela queda dos preços do petróleo. Este trimestre pode ainda agravar as coisas?

Nour Eldeen al-Hammoury: As ações no Médio Oriente são tão afetadas quanto as outras pelo contexto global. No entanto, é verdade que o fator petróleo continua a ser o mais determinante, apesar de ter havido uma certa estabilização. Houve também outras quedas que não ajudaram estas ações. As tensões geopolíticas na região, o Iémen por exemplo, acrescentaram mais pressão sobre os mercados. É verdade que as estimativas são bastante ditadas pelo quadro mundial, mas se as tensões geopolíticas continuarem, a região do Médio Oriente pode ser mais afetada, sobretudo após a intervenção da Rússia na Síria.

euronews: Quando os desempenhos dos mercados pioram, aumenta a procura por investimentos seguros. Porque é que o ouro não tem beneficiado com este momento?

Nour Eldeen al-Hammoury: A questão do ouro assenta, normalmente, em dois fatores: a incerteza e os receios sobre a inflação. Nos últimos meses, as dúvidas em torno do panorama mundial aguentaram o valor do ouro ou, pelo menos, impediram que ele caísse a pique. No que diz respeito à inflação, as previsões são acentuadamente negativas. Ninguém pode proteger-se da inflação, comprando ouro. Quando as estimativas sobre a inflação melhorarem, o ouro pode finalmente beneficiar.

euronews: Todas as atenções estão agora centradas nos lucros empresariais. As empresas reviram em baixa as estimativas. É uma medida para tentar minimizar os resultados negativos?

Nour Eldeen al-Hammoury: É possível. Como sabemos, o terceiro trimestre foi o pior dos últimos anos, o que levou muitas empresas a limitar as previsões, sobretudo tendo em conta o rumo da procura global e os lucros estimados. As previsões podem acertar ou não. Não podemos esquecer que houve empresas de investimento de capitais do mundo inteiro a rever as estimativas em baixa e a tomar a decisão de despedir trabalhadores, o que prolonga a incerteza dos mercados.