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Selahattin Demirtaş: "Não somos o braço político do PKK"

Entrevista exclusiva ao co-líder do principal partido curdo da Turquia.

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Selahattin Demirtaş: "Não somos o braço político do PKK"

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Zeki Saatci, euronews: À esquerda no espetro político da Turquia, estamos com Selahattin Demirtaş, líder conjunto do Partido Democrático do Povo (HDP) e representante dos eleitores curdos. Gostaria de começar com uma questão que interessa de perto à comunidade internacional. Até às eleições de 7 de junho, na Turquia, tinha-se começado um processo de paz com o PKK. Durante um ano e meio, conseguiu-se manter um ambiente sem conflitos. Depois destas eleições, o processo de paz foi deixado em “standby” e a violência ressurgiu. Porquê?

Point of view

A Turquia não tem de fazer uma escolha entre dois blocos. Deve estabelecer boas relações com os diferentes povos, crenças e identidades na Síria.

Selahattin Demirtaş: Infelizmente, depois do dia 7 de junho, o governo declarou ter posto esse processo em “standby”, disse que as negociações tinham sido abandonadas e que não haveria mais discussões para encontrar uma solução. O governo escolheu a via da operação militar, o que é triste para a Turquia, uma vez que, durante os dois anos e meio que durou o processo de paz, foram feitos enormes esforços e chegámos a uma fase de negociação. A 28 de fevereiro, em Istambul, foi assinado e apresentado um memorando de acordo. Foi algo que fizemos em conjunto com o governo. Um texto muito bom, que continha uma perspetiva e um princípio de democratização em dez pontos e fazia também um apelo ao PKK para que depusesse as armas. A declaração foi apoiada, simultaneamente, pelo Presidente da República, pelo primeiro-ministro e pelo senhor (Abdullah) Öcalan (líder do movimento armado PKK).

Também demos o nosso contributo a esta declaração, enquanto partido político, Os responsáveis do PKK aceitaram conformar-se a esta declaração, mas chegámos ao ponto seguinte: O processo de paz que, durante dois anos, deu votos a ganhar ao governo e reforçou o apoio do povo ao governo, de repente não deu a explosão de votos que o governo queria. O governo percebeu que o acordo fortalecia, sobretudo, o nosso partido e o futuro político do governo começava a ficar ameaçado.

Zeki Saatci, euronews: Nas últimas eleições, ultrapassaram a fasquia dos 10%. Com 80 deputados, tiveram uma boa ocasião para apresentar o problema curdo perante o Parlamento. Com um sucesso desses na mão, por que razão o PKK voltou a pegar em armas? Isso não vos deixa em dificuldade, enquanto partido político?

Selahattin Demirtaş: Quem deve responder a essa questão deve ser a direção do PKK. Fizemos sempre apelo a depor as armas e voltar à situação de um cessar-fogo. Vimos que a trégua se degradou, por culpa do governo, desde as eleições, quando houve uma primeira tentativa de violar esse cessar-fogo.

Zeki Saatci, euronews: Qual a abordagem da questão curda por parte do HDP, depois do dia 1 de novembro? Se houver um novo processo de paz, quais seriam as condições e o melhor método a seguir?

Selahattin Demirtaş: Há pouco tempo, o parlamento era muito passivo. Primeiro, era preciso torná-lo funcional, ativo, colocá-lo no centro do processo de paz. Se fizermos parte do governo depois de 1 de novembro, naturalmente que vamos fazer esforços para que os curdos sejam considerados um povo e que os direitos em termos de língua, cultura e participação no governo sejam respeitados, tal como para todos os outros povos. Ao mesmo tempo, vamos tratar de estabelecer um diálogo e criar um novo quadro legal que permita ao PKK depor as armas na Turquia. Se não fizermos parte do governo, vamos continuar a nossa oposição e os nossos esforços democráticos para que o governo avance nesta matéria.

Zeki Saatci, euronews: Ao mesmo tempo, o HDP pretende ser um partido de toda a Turquia, mas é apresentado como sendo um braço político do PKK. Recentemente, o Partido do Movimento Nacionalista fez essa mesma acusação. Quais são as vossas relações com o PKK, reconhecido como uma organização terrorista por parte da comunidade internacional?

Selahattin Demirtaş: Não somos um braço político do PKK. Há uma confusão, na Turquia, a esse respeito. Um partido diz que somos uma extensão do PKK, outro diz que o PKK multiplica os ataques para que o nosso não possa passar os 10%. Na Turquia, há uma confusão a esse respeito, entre os vários partidos políticos.

Zeki Saatci, euronews: Nas eleições de 1 de novembro, está à espera de um resultado diferente das de 7 de junho? Tem medo de não passar essa barreira?

Selahattin Demirtaş: Penso que o nosso partido vai ter um melhor resultado. O nosso objetivo é 13% e penso que o vamos ultrapassar. Toda a gente na Turquia está consciente do que se passa. O Presidente lançou uma guerra pela presidência e pelas ambições dele. O povo turco sente profundamente tudo o que se está a passar. Veja o funeral dos mártires, oiça bem o choro das famílias dos mártires. Não é o HDP que criou esta guerra, não a ordenou nem a controla. O controlo das armas não está nas mãos do HDP. Há o Presidente de um lado e o PKK do outro. A nossa linha política é a que se bate mais pela paz, a Turquia está bem consciente disso.

Zeki Saatci, euronews: Suponhamos que o movimento político curdo partilha a gestão do governo. Quando olhamos para a política externa, por exemplo com a Síria, beneficia mais a linha dos Estados Unidos e do bloco ocidental ou a da Rússia, China e Irão? Já que falamos de Síria, favorece um processo de transição com ou sem Assad?

Selahattin Demirtaş: A Turquia não é obrigada a fazer uma escolha entre dois blocos. Pode e deve ter uma política própria. A Turquia é o maior vizinho da Síria. As relações históricas, culturais e económicas com a sociedade síria são muito fortes. Não tem de fazer uma escolha entre dois blocos. A Turquia deve estabelecer boas relações com os diferentes povos, crenças e identidades na Síria. O que fez até agora? Favoreceu certas seitas, entrou em contacto unicamente com grupos radicais, unicamente porque são sunitas. Esses é que são apoiados pela Turquia, o que faz com que a Síria se tenha envolvido em problemas muito mais graves e que a Turquia tenha perdido o prestígio que tinha. O que deveríamos ter feito era estabelecer boas relações com os sírios xiitas, cristãos, arménios e turcomenos. Focar-se em Assad e limitar a discussão externa à discussão sobre se Assad deve ficar ou partir é uma cegueira. Infelizmente, a Turquia foi tocada por esta cegueira. Se formos eleitos, vamos deixar de apoiar a al-Qaida e todos os grupos semelhantes. Vamos melhorar a segurança das fronteiras e impedir que sejam atravessadas em direção da Síria.

Zeki Saatci, euronews: A organização terrorista Estado Islâmico é um problema muito grave na fronteira com a Turquia. Se no quadro da luta contra esta organização for apresentada ao parlamento uma proposta para autorizar uma intervenção militar, qual vai ser a vossa posição?

Selahattin Demirtaş: Não podemos admitir nenhuma operação militar ou intervenção terrestre. Isso torna as coisas muito complicadas. A Turquia deve dar um apoio mais ativo na coligação internacional que luta contra o Estado Islâmico. O trabalho dela não deve ser enviar tropas. Deve, sim, cortar a logística, as informações, os recursos económicos e humanos. Tudo isso é fácil para a Turquia e seria eficaz. Porque, infelizmente, tudo isso passa pela Turquia. Recentemente, vimos documentos escritos sobre carregamentos de armas que chegavam através da Turquia, sob pretexto de que esses carregamentos eram para os turcomenos. Ouvimos dizer que foram enviados muitos carregamentos de armas aos grupos radicais. Infelizmente, os grupos radicais como o Estado Islâmico ou a al-Nusra intercetaram muita da ajuda vinda da Europa.

Zeki Saatci, euronews: Que quer dizer com ajudas vindas da Europa?

Selahattin Demirtaş: Sabe que há muita ajuda humanitária vinda da Europa. Foram mandados camiões de ajuda humanitária para a Síria e foram todos intercetados pelo Estado Islâmico e outros grupos radicais. É disso que falo. Pensamos que a Turquia deve mudar as políticas, aceitar as negociações e procurar uma solução. Em vez de escolher entre dois blocos, ela deve ter uma política própria, o que será mais benéfico para a Turquia.