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Entrega dos Óscares ensombrada pela discriminação nos ecrãs

A cerimónia da Academia de Holywood acontece domingo, 28 de fevereiro, em Los Angeles. Pelo segundo ano consecutivo, não atores negros ou afro-americanos entre os nomeados. Mas o problema não se fica

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Entrega dos Óscares ensombrada pela discriminação nos ecrãs

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Já não são apenas os afro-americanos. Também as mulheres e a comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e travestis) têm pouco peso na atual indústria do entretenimento norte-americano. Esta é a conclusão do alegado primeiro estudo efetuado sobre este polémico tema, inflamado depois dos protestos pela ausência de nomeados afro-americanos entre os nomeados para os Óscares deste ano e isto quando haveria filmes e interpretações a merecer pelo menos figurar na lista de finalistas.

Filmes como “A Coragem de um Campeão”, com Will Smith, “Chi-Raq”, de Spike Lee, ou, sobretudo, “Beasts of No Nation”, com Idris Elba, e “Straight Outta Compton”, que retrata a história do grupo de RAP Niggaz Wit Attitudes (NWA), foram praticamente ignorados pelos membros da Academia. Apenas este último conseguiu uma nomeação para melhor argumento original.

A mulher de Will Smith, Jada Smith, foi das primeiras a assumir o boicote à cerimónia de entrega dos Óscares — o marido disse que seria ridículo que ele fosse. Também o realizador Spike Lee anunciou o boicote à cerimónia.

Na categoria de melhor documentário, um dos nomeados, curiosamente, retrata a vida de Nina Simone, a negra que deu ao mundo na década de 50 uma das melhores vozes de sempre do Blues e da Soul e se tornou numa das maiores defensoras da igualdade de direitos civis nos Estados Unidos. A cerimónia de domingo (28 de fevereiro), onde Nina Simone poderá voltar a brilhar apesar da forte concorrência, entre outros, de Amy Winehouse, terá como anfitrião, curiosamente, um negro: o comediante Chris Rock.

 

Sondagem contra boicote

Uma sondagem da Reuters/LSPSOS questionou cidadõs norte-americanos sobre uma campanha de boicote à entrega dos Óscares devido à falta de nomeados afro-americabnos pelo segundo ano consecutivo. Os resultados ditaram que 43,9 por cento dos inquiridos não concordavam com o boicote e 23,4 por cento conrodavam. Quase 23 por cento preferiu não tomar posição sobre o tema e 9,9 por cento não souberam responder.

Entre os entrevistados brancos, 51,4 por cento estavam contra o boicote e 50 por cento dos entrevistados negros estavam a favor.

O presidente e cofundador da Associação de Críticos de Filmes Afro-Americanos defende, no entanto, que o boicote à entrega dos Óscares não é o passo correto. “Não penso que seja o mais correto. Para mim, os Óscares são uma instituição muito respeitada no setor do entretenimento. Faz um bom trabalho e para muita gente”, afirmou Gil Robertson.

Realizado pela Escola de Comunicação e Jornalismo Annenberg, da Universidade da Califórnia do Sul, nos Estados Unidos, o estudo analisou 109 filmes e mais de 300 séries de televisão lançados em 2014, ano, curiosamente, em que Hollywood consagrou o filme “12 anos Escravo”, a atriz méxico-queniana Lupita Nyong’o (“12 Anos Escravo”) e o realizador mexicano Alfonso Cuarón (“Gravity”). Daí para cá, porém, a Academia de Hollywood já vai em 2 anos sem qualquer nomeação de afro-americanos nas categorias de interpretação.

“Entre os 441 filmes e séries para o pequeno ecrã que avaliámos, mais de 20 por cento não tinham sequer uma personagem falante negra ou afro-americana. Mais de 50 por cento não tinham qualquer personagem asiática ou ásio-americana. Entre os 11.306 personagens de tudo o que estudámos, apenas um terço eram raparigas ou mulheres e apenas 229 eram da comunidade LGBT”, revela a professora Stacy L. Smith, da Escola de Comunicação e Jornalismo Annenberg, da USC.

(À comunidade LGBT falta equidade: representam 2 por cento dos personagens em 414 filmes, séries de TV e no circuito digital.)

Numa entrevista à Associated Press (vídeo em baixo), a docente referiu-se ainda à “hashtag” (termo que cria uma divisão específica nas redes sociais) #OscarsSoWhite (Óscares tão brancos), sugerindo, em linguagem cinematográfica, que “a prequela” deste termo deveria ser a “hashtag” #HollywoodSoWhite (Hollywood tão branca). “O nosso estudo deixa tudo muito claro: Hollywood é um clube de rapazes brancos e heterossexuais. Vemos isto refeltido pelos meios de comunicação”, aléega Stacy L. Smith.

Academia aprova mais equilíbrio de géneros, raças e etnias

Depois da denúncia da atriz Patricia Arquete, na edição do ano passado, da alegada discriminação de salários entre atores e atrizes nas grandes produções do cinema norte-americano, a entrega dos Óscares está agora ensombrada pela ausência de minorias. A Academia de Hollywood, presidida curiosamente por uma afro-americana, garante, no entanto, que está a trabalhar numa inversão deste desequilíbrio.

“A Academia tem estado ativa nos últimos três ou quatro anos na questão de inclusão de novas e diferentes vozes, e de cineastas, independentemente de que género, raça ou origem étnica sejam”, afirmou Cheryl Boone Isaacs, a presidente da mais famosa instituição mundial da sétima arte, concluindo: “Achamos que era importante o mundo saber que estamos a trabalhar nisto.”

(Morgan Freeman sobre a diversidade nos Óscares: tudo começa na indústria, não na Academia.)

No final de janeiro, com uma votação unânime, o Conselho de Governadores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood aprovou uma série de medidas para tornar a composição do organismo mais diversificado, comprometendo-se a duplicar o número de mulheres e representantes de minorias até 2020.

As medidas entram em vigor no final deste ano. Os novos membros vão poder votar durante 10 anos e terão a associação renovada se permanecerem a trabalhar no setor durante a década em questão. Os integrantes passam a ter direito de voto vitalício após 30 anos como membros da Academia ou se forem indicados para um Óscar.

(As mulheres representam apenas 19 por cento das nomeações da Academia em categorias à margem da interpretação.)

(Em 88 anos, a Academia nomeou 4 mulheres para a categoria de melhor realizador, apenas uma ganhou.)