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Christos Stylianides, UE: "A educação é a defesa contra os extremistas"

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Christos Stylianides, UE: "A educação é a defesa contra os extremistas"

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O mundo está a sofrer a pior crise humanitária desde a II Guerra Mundial. Conflitos armados, enormes desastres naturais, exploração humana, vagas de refugiados. Por tudo isto, as Nações Unidas (ONU) convocaram pela primeira vez uma Cimeira Mundial Humanitária, que vai decorrer a 23 e 24 de maio em Istambul, na Turquia. Há muita coisa em jogo.

Para aprofundar este tema e antecipar um pouco a cimeira, conversámos em exclusivo, em Bruxelas, com um dos altos responsáveis da matéria na União Europeia (UE), o cipriota Christos Stylianides, comissário europeu para a Ajuda Humanitária e Gestão de Crises.

Efi Koutsokosta, euronews: O que é que está em jogo, nesta cimeira? Existem muitas frentes…
Christos Stylianides, comissário europeu para a Ajuda Humanitária e Gestão de Crises: O processo, em si mesmo, rumo a esta cimeira é importante porque todos os interessados participaram. Fossem Estados ou organizações humanitárias, todas as entidades que trabalham na ajuda humanitária (ajudaram). Preparámo-nos bem e agora vamos ter de alcançar um resultado estrondoso, com uma mensagem muito forte para que as entidades de ajuda humanitária possam apoiar-se nela e enfrentar os enormes desafios que se lhes apresentam e os quais, infelizmente, em termos de necessidade, são os piores desde a II Guerra Mundial.

 

Biografia: Christos Stylianides, 57 anos

  • É atualmente o comissário da UE para a Ajuda Humanitária e Gestão de Crises;
  • Membro da delegação do Presidente do Chipre nas negociações de adesão à UE e para as conversações com vista à reunificação de Chipre, em 1998;
  • Começou a trabalhar como dentista antes de enveredar pela política;
  • Apoiou a controversa proposta da ONU para o Chipre, conhecida como “O Plano Annan”, a apelar a um fim imediato da divisão da ilha de Chipre, a qual foi rejeitada num referendo pelos cidadãos gregos cipriotas;
  • Embora seja descrito como liberal, a carreira política evoluiu pelo centro-direita na abordagem à reunificação cipriota.

Estaremos, contudo, perante uma mera cimeira simbólica? Pergunto isto porque embora tenha começado por ser uma boa notícia, os Médicos Sem Fronteiras (MSF) já anunciaram a ausência e descreveram mesmo esta cimeira como “uma grande folha de boas intenções”, assumindo não ter esperanças nesta iniciativa.
Talvez houvesse maiores expectativas, claro. A União Europeia, e eu pessoalmente, enquanto comissário, gostávamos que resultasse numa declaração política concreta. Eu gostava que houvesse um compromisso político concreto, uma declaração política vinculativa. Mesmo assim, penso que ainda há espaço para conseguirmos compromissos políticos importantes em relação a problemas graves. Por exemplo, acredito que poderemos alcançar importantes compromissos em relação à lei internacional humanitária. Em especial, na proteção das pessoas que trabalham no terreno — e isto está ligado aos Médicos Sem Fronteiras. Sabemos que eles têm sido terrivelmente alvejados — hospitais, centros de saúde, médicos e assistentes têm sido atingidos. Depois, temos também o grave problema do financiamento da ajuda humanitária.

O acordo europeu com a Turquia

Colocando agora o foco mais na Europa e na crise de refugiados, para si, é um plano humanitário dar muitos milhões de euros a outros países — os quais, claro, tem elogiado pelas suas atitudes, como a Turquia, o Líbano ou a Jordânia — e ao mesmo tempo acolher milhões de refugiados? O que estão a fazer é dar dinheiro, em especial à Turquia, para manter os refugiados longe da Europa, não é?
A nossa ajuda financeira à Turquia e a cooperação são muito importantes. A Turquia mantém-se como o principal interveniente nesta gestão da crise de refugiados, mas não é uma questão de troca. Isto é necessário para um certo país com uma grande necessidade de ajuda para gerir esta crise. O mesmo serve para o Líbano e para a Jordânia. Visitei muitas vezes o Líbano e a Jordânia. Estamos em dívida. Não apenas como Europa, mas como comunidade internacional. É por isso que sempre insisti nisso. Esta não é uma crise regional, não é uma crise europeia. Esta é uma crise global e é por isso que precisamos de dar uma resposta global.

A Human Rights Watch acusou, recentemente, patrulhas turcas de terem disparado contra refugiados na fronteira entre a Síria e a Turquia. Inclusive contra crianças e mulheres.
Todas estas denúncias são tidas em conta e discutidas por nós com cada Estado sob esse tipo de acusações. Dentro do que devem ser as nossas preocupações, quero deixar, contudo, bem claro que a ajuda humanitária não está a ser dada aos governos, mas às organizações humanitárias. Para evitar mal-entendidos, estou a referir-me às agências da ONU, a organizações internacionais e grandes ONG. Todas elas têm de respeitar critérios específicos para terem acesso ao dinheiro.

O Iémen na linha da frente

Falemos agora de uma outra crise não tão conhecida do público como a da Síria: o Iémen. O enviado especial da ONU para a Ajuda Humanitária afirmou que 14 milhões de pessoas não têm acesso a alimentos suficientes. Entre eles, há sete milhões de pessoas com problemas de segurança. Já lá esteve? Teve acesso a essas pessoas?
Está absolutamente certa. A crise no Iémen é uma das mais severas no Mundo. Infelizmente, está fora do foco dos meios de comunicação internacional. Encontrámos ali grandes dificuldades. Fomos forçados a falar com as partes em conflito. Conseguimos entregar importante ajuda humanitária, mas infelizmente não existem no Iémen organizações humanitárias para receber esta ajuda. Como a situação no Iémen é muito instável, é impossível a qualquer organismo conseguir trabalhar naquele país. Houve, no entanto, um sinal positivo: as tréguas. Esperamos que se mantenham. As vias de acesso ao país estão a aumentar. Nós vamos ajudar e esperamos que estas tréguas se tornem permanentes para que possamos gerir a crise humanitária. Faço, contudo, um apelo aos meios de comunicação internacionais: não deixem que o Iémen se torne uma crise esquecida.

O senhor comissário já esteve em muitos locais em crise. Houve alguma dessas experiências que o tenha tocado de forma emocional ou que o tenha motivado a fazer um pouco mais por uma região específica ou um campo?
Houve. Muitos dizem-me que estou ‘obcecado’ pela educação e pelas urgências. De facto, aconteceu. Fora do campo de refugiados de Al Zatari, na Jordânia, conheci uma família síria a viver em condições muito difíceis. Era uma mãe com seis filhos, com idades entre um e 13 anos. Viviam em condições mesmo muito difíceis. No final, antes de me vir embora, a mãe aproximou-se de mim com um tradutor e disse-me: “Obrigado por tudo, mas como vê, nós temos um sítio para viver e comida. Obrigado, mas o que eu quero é que os meus filhos tenham dignidade. Para que tenham um futuro, eles precisam de educação”. Ela estava completamente certa. É impensável, em especial na era atual, ver-se toda esta assistência humanitária não ter a educação por base. A educação é a defesa contra os extremistas que queremos manter longe de todas as crianças no mundo. É uma pena que tantas e tantas crianças não tenham hipótese de ir à escola. Sendo assim, nós insistimos no pacote completo de ajuda humanitária, mas eu penso que nos devemos focar na educação.

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