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A retórica do Daesh e os assassinos do século 11

Al-Baghdadi diz lutar pelo fim do complô contra o Daesh para revelar a verdade aos seus discípulos. Mas esta "verdade" já ecoa desde o século 11.

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A retórica do Daesh e os assassinos do século 11

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A meio de outubro, as forças iraquianas coadjuvadas pela coligação internacional lançaram a operação de reconquista de Mossul, o último grande bastião do grupo Estado Islâmico no Iraque. Há muito que a ofensiva estava a ser preparada, tendo assumido uma dimensão que vai muito além da intervenção no terreno. Trata-se de uma batalha profundamente simbólica e estratégica. O que está em jogo é travar as pretensões do movimento extremista de Abu Bakr al-Baghdadi. E no entanto, na Síria, estes jihadistas retomaram o controlo de Palmira apesar da interposição da aviação russa. A questão coloca-se mais uma vez: de onde vêm os recursos do Daesh? E como nasceu a sua retórica?

O Estado, segundo al-Baghdadi

No léxico do Estado Islâmico, a comunidade (“oumma”) deve submeter-se ao objetivo de devolver a grandeza ao Islão. Do ponto de vista estritamente académico, o “objeto” do Daesh representa algo de novo que ainda não teve o espaço necessário para ser devidamente interpretado. A estratégia do Daesh assenta no conceito da “jihad”, dando continuidade a uma linha de pensamento extremista e destruidora que emergiu no século 13. A verdade é que este grupo assumiu um polimorfismo surpreendente e um mediatismo inédito, em grande parte impulsionado pela agência de informação que criou, a Aamaq. A ressonância gerada interpela tanto o campo político, como estratégico. A partir de 2013, este movimento terrorista conseguiu instalar-se no topo da agenda internacional e semear o terror na Europa.

A obediência exigida por Abu Bakr al-Baghdadi (autoproclamado califa em Raqqa, na Síria) tem eco nos pensadores radicais que foram repetidamente combatidos pelos antigos governantes do mundo árabe. Isto começou a acontecer ciclicamente a partir do século 11. No entanto, nunca se conseguiu neutralizar a inscrição histórica que essas doutrinas extremistas acabavam por produzir.

Al-Baghdadi faz uso de uma espécie de mal-entendido histórico: por um lado, sublinha o aspeto fundamental da rutura contínua com qualquer vontade de reforma (“islaah”), e por outro deixa totalmente de lado o princípio da concertação (“choura”), para fazer sobressair a noção de conspiração (“fitna”). Para ele, o debate sobre as reformas religiosas faz parte de um “complô” contra o Islão, sendo que a solução passa pela jihad conta os “outros” (muçulmanos e cristãos), apontados como “infiéis” (“kofr”).

Ibn Taymiyah e a primeira vaga de jihadismo

No século 11, o matemático e poeta persa Omar Khayyam escrevia obras inspiradas no vinho e nas mulheres. Os seus quartetos (“rubaiyat”) tornaram-se imortais. E ao mesmo tempo, Hassan Ibn al-Sabbah, um missionário ismaelita, cria milícias nizaris nos arredores de Bagdad, semeia o terror e lança o pânico entre os vizires. Envia os seus assassinos, muitas vezes sob o efeito de haxixe, para envenenarem e estrangularem governantes.

Em 1258, os mongóis, vindos do sul da Rússia e do norte da China, tomam Bagdad e ameaçam Damasco e o Cairo. Executam o último califa, terminando assim a dinastia dos Abássidas, no poder desde 750. Foi sob esta dinastia que a cultura árabe progrediu significativamente, incorporando as culturas persa e grega. Quando Bagdad cai às mãos dos mongóis, o exército do general Hulagu, neto de Gengis Khan, rompe definitivamente com cinco séculos de prosperidade intelectual. Mas uma figura que se viria a tornar histórica, Ibn Taymiyah, ergue-se contra esta realidade e utiliza a resistência à invasão mongol como base de sustentação para uma doutrina de leitura única.

Perante as dificuldades em mobilizar forças contra os mongóis, os Abássidas apelam aos Mamelucos (milícias a soldo dos soberanos). Ibn Taymiyah, que deixou a Turquia para se instalar em Damasco, tira partido do conflito estabelecido agora entre Mamelucos e mongóis. Os primeiros pretendem alcançar o poder através da influência exercida pelas suas prédicas, sublimando o conceito de jihad. Sayf ad-Dîn, um mameluco tornado escravo, regressa do Cairo com um grande exército, infligindo a primeira grande derrota aos mongóis, no território da atual Síria, episódio que assinala o início do recuo deste império.

A vitória ajuda a propagar os ensinamentos de Ibn Taymiyah, que recusam tudo o que possa inovar a prática religiosa. Defende-se, pelo contrário, a obediência estrita aos soberanos e autoriza-se a eliminação de todos os que se opõem a esta doutrina (sejam cristãos ou muçulmanos).

Ibn Taymiyah rejeita o legado de pensadores dos séculos 9 e 10, como Al-Kindi, Al-Farabi, Al-Razi e Avicena. Posiciona-se também contra um contemporâneo seu, Ibn Arabi, cuja obra se interroga sobre a razão e os limites da matéria. Ibn Taymiyah foi preso várias vezes pelos Mamelucos e acabou por morrer no cárcere, naquele que foi o final da primeira vaga de jihadismo.

Dois séculos de governo dos Mamelucos viriam delapidar o edifício intelectual árabe. O subsequente domínio do Império Otomano provocaria uma estagnação generalizada ao longo de cinco séculos. O pensamento árabe fragilizou-se e fragmentou-se. As independências nacionais obtidas no decurso do século 20 fizeram com que as capitais árabes se encontrassem nas mãos de famílias monárquicas ou de regimes ditatoriais, que tentaram decalcar modelos ocidentais de governação, mas sem a experiência histórica devida.

O martírio de Ibn Abdel-Wahhab

A estagnação durante o Império Otomano abriu o caminho a inúmeras formas de charlatanismo religioso e à desvirtuação de símbolos. Mohamed Ibn Abdel-Wahhab viria a defender um regresso às origens. Nascido em 1703, rejeita as práticas politeístas (“shirk”). Devido a razões de ordem política, o fundador do primeiro Estado saudita, Mohamed Ibn-Saud, apoia esta tendência de contenção religiosa. No sentido de mobilizar as multidões, Ibn-Saud projeta as predicações de Ibn Abdel-Wahhab (“daawa”), que incorporam um retorno à essência da jihad em oposição às premissas de emancipação intelectual. O conceito de “martírio” torna-se central. Assiste-se então ao nascimento de um Islão político veiculado pela doutrina wahhabita, segundo a qual há apenas uma interpretação possível dos textos religiosos, inscrevendo como sagrada a obediência à governação de uma determinada pessoa ou família.

Os wahhabitas retomam os ensinamentos de Ibn Taymiyah, que permitem excomungar todos aqueles que não sigam a lei islâmica. Em 1802, invadem Karbala, no Iraque, massacrando a maior parte da população e destruindo as mesquitas. Em 1803, procedem ao mesmo em Taif, na Arábia. Mulheres e crianças são submetidas à escravidão. Entre 1811 e 1818, o sultão do Egito, Muhammad Ali, sob as ordens do Império Otomano, envia forças militares para fazer frente aos wahhabitas instalados naquela que se tornou a sua capital, Diriyah, na Arábia. A cidade é destruída, o emir Al-Saud é executado, a primeira vaga wahhabita parecia decepada. Mas o futuro demonstraria que para além do combate no terreno, a luta situar-se-ia crucialmente no plano das ideias.

O regresso de Ibn Al-Sabbah

A ausência frequente de um modelo sólido de pluralismo político nos países árabes fragiliza a capacidade de resistência aos extremismos. Ao longo dos séculos, o conceito de jihad concentrou-se no recurso à violência e abandonou uma outra noção adjacente: a de “ijtihad”, que se traduz como a iniciativa através da reflexão e saber.

Através de poderosas ferramentas de comunicação, o Daesh conduz a sua propaganda numa guerra em nome da instauração de um califado e do conceito aglutinador da jihad, exaltando a noção do martírio.

Al-Baghdadi diz lutar pelo fim do complô contra a sua comunidade, de forma a revelar a verdade aos seus discípulos. Mas a verdade de al-Baghdadi já ecoa desde o movimento criado por Hassan Ibn al-Sabbah, no século 11, uma seita conhecida precisamente pela utilização de substâncias alucinogénicas, pelas missões suicidas e mortes extremamente violentas.