Última hora

Em leitura:

Nelson Freire, o discreto portento do piano


musica

Nelson Freire, o discreto portento do piano

Em parceria com

A sua editora considera-o “o segredo mais bem guardado do mundo do piano”. A verdade é que muito poucos virtuosos comunicam através desse instrumento como Nelson Freire. Numa das raras entrevistas que deu até hoje, Freire falou-nos de música (naturalmente), cinema e amor.

O recital que Nelson Freire deu do Concerto Número 4 para Piano de Beethoven teve sala esgotada no Festival de Páscoa de Aix-en-Provence, no sul de França. O diretor artístico deste evento, Renaud Capuçon, partilhou connosco como é trabalhar com um virtuoso tão admirado.

“Aquilo que me comove no Nelson são as dúvidas que tem em permanência, está sempre à procura de algo. Ele fica muito ansioso antes dos concertos. Para mim, isso revela um grande artista. Um grande artista é alguém que se coloca sempre em questão. Não creio que ter muitas certezas seja essencial para fazer música. Do ponto de vista humano, ele é excecional. Tem uma candura, uma inteligência que se refletem na forma como toca. Não é nenhum mistério: quando um artista consegue ter uma carreira a este nível durante 50 anos, é porque tem realmente algo a comunicar. Não é um daqueles nomes que aparece e desaparece. Há grandes mestres e nós temos muito orgulho em recebê-los”, afirma Capuçon.

“Estas coisas funcionam através do amor”

O primeiro concerto deste portento brasileiro foi aos 4 anos de idade. Aos 12, ganhou uma bolsa para estudar em Viena. Aos 20, conquistou o Concurso Vianna da Mota, em Lisboa. Seguiu-se uma carreira ao lado das maiores orquestras do mundo.

E, no entanto, se há traço que o carateriza é a discrição. Freire contou-nos como o seu amor pelo piano se revelou através da primeira professora que teve ainda no Brasil, Nise Obino.

“Tive a sorte de encontrar alguém… Estas coisas funcionam através do amor, como tudo na vida. Talvez tenha a ver com o meu signo. Sou Balança, dizem que é o signo do amor. Eu amava realmente essa professora e fazia tudo o que ela me pedia”, diz-nos Freire.

Mas as suas paixões estendem-se muito para além da música. “Gosto muito do ‘film noir’, das obras de Hitchcock, de Fritz Lang, do cinema dos anos 40 e 50. O cinema é a minha segunda paixão. E a música é uma parte muito importante dos filmes. A música e a ausência dela. Com o Hitchcock, por exemplo, temos cenas de suspense às vezes sem música nenhuma. Uma má música pode destruir um filme. Gosto muito de jazz. A Ella Fitzgerald fascina-me…”, revela.

Um entusiasmo instilado pela amiga de longa data Martha Argerich, a pianista argentina com quem já tocou vários duetos. “Conhecemo-nos quando tinha 15 anos. Passámos um verão juntos. Foi um período muito especial. Ouvíamos montes de coisas diferentes. Até essa altura, só conhecia o piano. Com a Martha aprendi muitas outras coisas, sobretudo o jazz”, explica-nos.

Os nossos destaques

Artigo seguinte

musica

Werther "provocou uma tempestade" na Ópera de Zurique