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Didier Reynders: a Europa constrói-se em momentos de crise

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De  Euronews
Didier Reynders: a Europa constrói-se em momentos de crise

<p>Ele é apontado como um substituto de</p> <p>Yves Leterme, no lugar de primeiro-ministro interino da Bélgica, que está sem governo desde há um ano e três meses.</p> <p>Advogado de formação, Didier Reynders é o atual vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças no seio do governo interino. Para ele, a crise política que o país atravessa não impede a Bélgica de dar a seu contributo à resolução da crise da dívida.</p> <p>Euronews: Para falar da crise política na Bélgica, mas também da crise do euro, convidámos Didier Reynders, ministro belga das Finanças. Um ministro sem governo desde há 450 dias.</p> <p>Senhor Reynders, como consegue gerir as finanças quando as suas decisões são limitadas por um governo de gestão corrente?</p> <p>Didier Reynders: É verdade que este governo de gestão corrente tem poderes limitados, mas pode tomar todas as medidas de urgência, decisões que obviamente protegem os interesses do país. E sobretudo pode faze-lo se tiver o apoio do Parlamento. E o atual governo dispõe de uma maioria parlamentar, o que é um pouco particular em relação a outros países.</p> <p>Noutros países, há governos que são minoritários, que precisam de conseguir o apoio de uma parte da oposição. Nós tomamos cada decisão indo ao Parlamento. Foi assim que fizemos o orçamento de 2011 e que decidimos a participação da Bélgica nas operações militares na Líbia. E é assim que, nas próximas semanas, eu espero que consigamos elaborar e fazer votar o orçamento de 2012. </p> <p>Por outro lado, estive no Parlamento nos últimos dias para votar a implementação das decisões europeias relativas à facilidade da estabilidade financeira. Acredito que era importante a Bélgica estar entre os primeiros Estados europeus a colocar em prática as decisões tomadas na cimeira de 21 de julho. </p> <p>É verdade que não há um governo em pleno exercício, mas nós podemos tomar todas as decisões para proteger os interesses nacionais, e, sobretudo, podemos ir bem mais além com o apoio do Parlamento.</p> <p>E: Yves Leterme, o chefe de governo, anunciou que vai sair para a <span class="caps">OCDE</span>, no momento em que se chegou a um acordo: consegue ver o fim do túnel?</p> <p>DR: Acredito que é difícil ver o fim das negociações para formar um novo governo. Mas o que é seguro é que, neste momento, nas negociações as coisas avançam um pouco. Mas ainda há muito caminho a percorrer. E, à parte disso, há um primeiro-ministro que vai ficar até ao fim do ano.</p> <p>E: Você vai suceder a Yves Leterme para gerir a crise?</p> <p>DR: Isso é da ordem do protocolar, normalmente no governo belga, em caso de ausência do primeiro-ministro, é o número dois do governo que assume funções, mas ainda não estamos lá, Yves Leterme vai, certamente, ficar em funções até ao fim do ano e será provavelmente com ele que vamos realizar o orçamento de 2012. Espero que antes do fim do ano um novo governo entre nos carris, senão será mais uma questão protocolar na função. </p> <p>E: Para fazer face à crise, o presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, apelou à Bélgica para a realização de reformas estruturais. É possível sem governo? </p> <p>DR: O melhor é fazê-lo com um novo governo. Mas mesmo que o tenhamos de fazer com o atual governo, podemos mais uma vez ir ao Parlamento. Há duas reformas a fazer na Bélgica: a reestruturação das reformas, como já foi feito em outros países. Hoje em dia damo-nos conta que, nos próximos anos, o financiamento das reformas vai cada vez ser mais pesado. E para financiar as reformas é preciso não somente reformular, mas também fazer com que haja mais gente a trabalhar.</p> <p>A segunda reestruturação é a do mercado de trabalho. Na Bélgica os cidadãos deixam o mercado de trabalho por volta dos 58 anos, o que é muito cedo. Não se trata de aumentar a idade legal de reforma, que é aos 65 anos, mas fazer com que a saída seja mais próxima da idade legal. Aos 60 ou 62 anos, e amanhã talvez aos 65. </p> <p>Temos de ir ao Parlamento, com Yves Leterme e outros, para colocar em prática estas reformas. Jean-Claude Junker tem razão, tal como todos os países da zona Euro, a Bélgica tem de tomar medidas orçamentais e fazer as reformas fundamentais. É da nossa responsabilidade, e minha como ministro das Finanças, qualquer que seja o clima político na Bélgica.</p> <p>E: Os líderes políticos reúnem-se frequentemente em Bruxelas para falar da Grécia. Nos últimos dias, cada vez mais, surgem vozes que reclamam a </p> <p>saída da Grécia da zona euro. Acha que tal se vai concretizar?</p> <p>DR: Espero que não, porque é uma visão catastrófica. Em jeito de caricatura posso dizer que: podemos fazer sair a Grécia, e outros países, reconstruir um muro, avançar para a desconstrução de toda a Europa, de toda a zona euro.</p> <p>A Europa tem sido construída a cada momento que há uma crise e no momento de uma crise é preciso ter força para gerir a curto termo, fazer com que os gregos tomem as medidas necessárias para restabelecer a sua situação, mas também para garantir que ajudamos, dando tempo para voltar a uma melhor situação orçamental, económica e social. </p> <p>Em paralelo, é preciso pensar em reformas mais fortes. Estou convencido que nos próximos meses vamos conseguir reforçar a integração na </p> <p>zona euro, talvez ter um ministro das Finanças permanente ao nível europeu, como propõe Jean-Claude Trichet e talvez assim dar à zona euro, ou seja à União Europeia, a capacidade de tomar as medidas orçamentais. Quando os Estados não tomam essas decisões, agir no lugar destes, ter uma verdadeira capacidade de ação, e depois ter também uma ferramenta, não se vê um ministro das Finanças sem tesouro, sem tesouraria, e é por isso que são necessárias as euro-obrigações. Mas vamos ter os dois ao mesmo tempo.</p> <p>E: Os ministros das Finanças dos 27 vão reunir-se este fim de semana, na Polónia, para falar da Grécia. Muitos países pedem garantias como contrapartida das ajudas concedidas à Grécia. É isto o fim da solidariedade europeia?</p> <p>DR: Bem, é um risco: sabemos que esses pedidos partem de países que são confrontados com partidos políticos um pouco populistas que desejam opor-se â evolução europeia e nomeadamente à solidariedade na Europa. É preciso ter em conta o debate democrático. Mas ter em conta procurando as soluções que mantenham a solidariedade. </p> <p>Acredito que se um país, por exemplo</p> <p>como a Finlândia, pede garantias, </p> <p>isto significa que este país deve receber um valor </p> <p>menor para esses empréstimos, quero dizer com isto que se são pedidas garantias significa que não se pode pedir uma taxa de juros tão elevada. E, se a operação com a Grécia correr bem, se a prazo </p> <p>a Grécia pagar os seus empréstimos, a Finlândia terá de receber menos em troca, porque ela pediu para ter garantias. </p> <p>O que explica que outros países como a Bélgica não peçam garantias é porque em primeiro lugar queremos mostrar solidariedade, porque estamos convencidos que as coisas vão evoluir bem, que a Grécia vai pagar os empréstimos e, logo, nós teremos uma taxa de juros mais elevada.</p>