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Moscovo ou Bruxelas? As escolhas do novo presidente búlgaro

A meio caminho entre Moscovo e Bruxelas: assim se posiciona o novo presidente búlgaro, eleito no meio da vaga de descontentamento que varre o país.

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Moscovo ou Bruxelas? As escolhas do novo presidente búlgaro

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O novo presidente da Bulgária foi eleito na sequência da vaga de descontentamento que atravessa um país que continua a ser o mais pobre do bloco europeu, passados 10 anos da adesão, e aquele onde a corrupção se encontra mais generalizada. Muitos asseguram que o mandato de Rumen Radev irá marcar a aproximação à Rússia. O novo chefe de Estado não o desmente, mas garante que isso não implica distanciar-se da Europa. Para debater esta e outras questões, o Global Conversation foi até ao palácio presidencial em Sófia.

Isabelle Kumar, euronews: Porque é que a Bulgária ainda não conseguiu endireitar o seu caminho?

Rumen Radev: Temos de olhar objetivamente para os problemas da Bulgária como parte dos problemas que atingem toda a União Europeia. É óbvio que há uma série de questões que persistem no nosso país, nomeadamente a pobreza, o sentimento de que a Justiça não funciona, a crise demográfica… Só conseguiremos resolver estes problemas se aqueles que estiverem ao leme tomarem medidas.

O combate à corrupção

euronews: A corrupção é um dos grandes problemas da Bulgária. A União Europeia emitiu recentemente um aviso, há relatórios internacionais que apontam os índices de corrupção no país como os mais graves do bloco europeu... O que é que vai fazer de diferente em relação aos seus antecessores no cargo de presidente?

RR: É verdade que existe corrupção na Bulgária, mas não diria que a Bulgária é o país mais corrupto da União Europeia. Há medidas em curso, mas temos de fazer muito mais para juntar os esforços das instituições, dos partidos políticos, das organizações da sociedade civil e de todo o país para conseguir combater a corrupção e o crime.

euronews: Outra questão é a instabilidade política: o país vai ter o terceiro governo em 4 anos. No final de março vão decorrer novas eleições legislativas. Como é que se gerem os problemas fundamentais com toda esta instabilidade à volta?

RR: Tem toda a razão: a instabilidade política dá origem a uma série de outros problemas, seja na economia, na justiça, entre outros. Eu espero que as próximas eleições resultem num parlamento capaz de dar mais atenção aos interesses das pessoas, que seja capaz de adotar legislação que defenda esses interesses e que o governo tome medidas incisivas para restabelecer a confiança nas instituições públicas.

A meio caminho entre Moscovo e Bruxelas

euronews: Muitos consideravam-no como o candidato de Moscovo nas eleições presidenciais, dizendo depois que a sua vitória foi uma perda para Europa. Acha que é realmente possível agradar tanto a Moscovo como à União Europeia?

RR: Sinceramente, não percebo a sua pergunta. Eu formei-me em duas academias militares americanas, liderei vários exercícios da NATO aqui na Bulgária, tanto bilateralmente, como com vários países ao mesmo tempo.

euronews: Tem defendido, por exemplo, uma abertura política e que as sanções impostas à Rússia sejam atenuadas…

RR: Sim, considero realmente que as sanções não trazem benefícios, antes prejudicam seriamente as economias da Rússia e da União Europeia…

euronews: As sanções foram impostas, em parte, pela questão da Crimeia. Se elas forem levantadas, não significa isso que estamos a deixar de lado o respeito pela lei internacional?

RR: É óbvio que a anexação da Crimeia foi uma violação da lei internacional. E a Bulgária defende firmemente todos os princípios da lei internacional. A grande questão está em saber até quando é que a Europa vai continuar dividida em relação a estas sanções que minam o sentimento de confiança: 5 anos? 10? 50?

euronews: A União Europeia vai votar em julho sobre o prolongamento ou não das sanções. Vai fazer com que a Bulgária se posicione contra a continuação destas sanções?

RR: Temos muito tempo daqui até julho. A situação muda a cada dia que passa. Vamos imaginar o seguinte cenário: a administração do presidente Trump e o presidente Putin chegam a acordo sobre uma maior abertura para o diálogo, para desenvolver a confiança, para atenuar o confronto que existe na lógica das sanções… Como é que a Europa reage a isto?

Terrorismo: “Não podemos descurar nenhuma ameaça”

euronews: Mencionou o presidente americano. Trump estabelece uma ligação entre refugiados, migrações e terrorismo. Concorda com esta posição?

RR: Temos assistido a vários ataques terroristas com consequências muito sérias. Se estes se tornarem cada vez mais frequentes, o que é que isso significa para a Europa?

euronews: Há quem denuncie a deturpação dos factos… Muitos dos ataques terroristas foram conduzidos por cidadãos dos próprios países…

RR: Alguns desses ataques terroristas foram conduzidos por pessoas que pertencem à segunda ou terceira gerações de imigrantes. É um problema muito sério. Por outro lado, tem havido atentados realizados por pessoas que vieram nos fluxos de migração a que assistimos agora. Ou seja, há uma combinação de fatores que são uma ameaça. Não podemos descurar nenhuma ameaça quando a questão é o terrorismo. Não, se nos preocuparmos realmente com a segurança dos cidadãos europeus.

A distribuição de refugiados na Europa

euronews: No que diz respeito precisamente à imigração e à política de refugiados da União Europeia: afirmou que não concorda com a política de distribuição de refugiados, nem com o sistema de quotas proposto pela União Europeia. Ao mesmo tempo, salienta que a Bulgária é um país solidário. Não há aqui uma contradição?

RR: Na Bulgária fazemos tudo o que está ao nosso alcance para ajudar as pessoas a fugirem dos horrores da guerra. Mas temos de estabelecer a diferença entre refugiados e imigrantes ilegais. Quais são os critérios para conseguir uma integração bem-sucedida? A Europa tem problemas relativamente a esta questão. Não se sabe bem que recursos financeiros são realmente necessários, que impacto é que este fenómeno tem no sistema social… Quantas pessoas pode a Europa acolher e qual é o preço a pagar?

Da força aérea para a presidência

euronews: Antes de se tornar presidente, não tinha experiência política – foi comandante da força aérea búlgara. Considera que o seu percurso é uma desvantagem ou uma ajuda para enfrentar todos estes desafios?

RR: Há prós e contras. A falta de experiência política pode ser um problema, mas também pode ser uma grande vantagem, porque o que é preciso na política atual é imparcialidade e objetividade. Precisamos de pessoas que não estejam aqui para defender os interesses de partidos políticos, mas sim os interesses da nação. E aí, tenho vantagem.