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Inferno de Mariupol contado na primeira pessoa pelos sobreviventes

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De  Bruno Sousa
Zaporizhzhya acolhe ucranianos que fogem do inferno de Mariupol
Zaporizhzhya acolhe ucranianos que fogem do inferno de Mariupol   -   Direitos de autor  Screenshot from AFP video   -  

O inferno de Mariupol não tem fim à vista e ficará eternizado na memória de quem foi obrigado a deixar tudo para trás. Em Zaporizhzhya funciona um centro de acolhimento para os deslocados que abandonaram a cidade portuária para poderem continuar a viver. Chegam sem bagagem mas com um peso insuportável às costas, o dos horrores da guerra na sua cidade natal.

Deitámo-nos sobre vidro estilhaçado e começaram a atacar o edifício com tanques. O edifício pegou fogo e um homem com metralhadora disparava sobre as pessoas que saíam
Angela Berg
Deslocada de Mariupol

Angela Berg deixou o inferno mas com uma grave cicatriz emocional. A mãe, demasiado frágil para viajar, ficou em Mariupol. Foi o preço a pagar para poder salvar os netos, com a "decisão mais difícil que alguma vez teve de tomar".

Já na segurança do centro de acolhimento, partilha o momento que a levou a deixar Mariupol: "um homem com uma metralhadora disse para nos deitarmos todos no chão. Deitámo-nos sobre vidro estilhaçado e começaram a atacar o edifício com tanques. O edifício de 12 andares pegou fogo e o homem com a metralhadora disparava sobre as pessoas que saíam. Fiquei deitada e disse aos miúdos para não saírem, senão também os matavam."

Os relatos dos sobreviventes são chocantes. Ivan Kosyan não esconde o alívio por ter conseguido fugir das forças russas:

"No edifício onde vivia, as três entradas foram todas queimadas e morreram várias pessoas, queimadas vivas. Os russos asseguraram-se que não havia tropas deles e um par de horas depois, chegou um comboio de 19 tanques que disparou indiscriminadamente. Disseram que não sabiam que haviam pessoas ali mas claro que era mentira.

Ficámos aliviados ao chegar ao território controlado pela Ucrânia. Tudo se tornou mais fácil assim que vimos os nossos ucranianos."

No meio do pesadelo coletivo, uma pergunta que se repete e para a qual ninguém tem resposta: "Éramos irmãos, porque é que nos fizeram isto?"