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Idriss B e a importância da arte face à covid 19

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Idriss B e a importância da arte face à covid 19
Direitos de autor  euronews   -   Credit: Dubai
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A euronews entrevistou o artista franco-tunisino Idriss B, durante o World Art Dubai.

euronews: "É o primeiro evento deste tipo desde o fim do confinamento. Sabe bem retomar os eventos?"

Idriss B: "Sim, é como regressar à vida, especialmente para o Dubai onde há sempre muitos eventos. É uma lufada de ar fresco poder ver as pessoas a fazer uma vida normal".

euronews: "Como é que a Covid 19 afetou a indústria de arte globalmente?"

Idriss B: "Foi simples. Parou tudo. Eu tinha muitos eventos previstos e as coisas estão como estão há nove meses. O meu próximo evento era suposto ser em Park Avenue, em Nova Iorque. E tudo parou durante meses.

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O artista franco-tunisino Idriss B em entrevista à euronews no Art World Dubaieuronews

euronews: É bom ver as pessoas a circular e a respeitar as regras de segurança. Quais foram os desafios da realização de uma exposição num sítio como este?

Idriss B: "Esse foi o principal desafio, trabalhar com uma máscara, sobretudo por causa do calor. Outro desafio teve a ver com as regras de distanciamento físico. Mas agora toda a gente está habituada, já seguimos essas regras há alguns meses. É um hábito agora".

No início, esculpia de forma tradicional. Agora há a impressão 3D e todo esse tipo de coisas. Atualmente, começo por desenhar à mão, no papel, a duas dimensões, só para obter a emoção certa e a pose certa do animal. E depois faço a obra em 3D.
Idriss B
artista franco-tunisino

euronews: "Como é que entrou no mundo da arte? Creio que esteve doente, começou a desenhar, o que lhe deu um certo treino".

Idriss B: "Depois de uma viagem aos Estados Unidos, tive uma doença, a gota, e fiquei de cama. Foi divertido na primeira semana e na segunda, mas na terceira já estamos com vontade de matar alguém. Comecei a desenhar um pouco e como não tinha nada para fazer, pensei que era um bom momento para começar a fazer as minhas próprias obras, algo que queria fazer há um tempo. Foi assim que tudo começou. Peguei num grande bloco de argila e comecei a esculpir, na cama. Foi engraçado. Fiz a primeira peça. Mostrei-a à minha mulher e ela adorou, apesar de, habitualmente não ter um grande interesse pela arte. Por isso pensei que, se ela diz que é bom, isso pode querer dizer algo. Comecei por fazer um gorila. Depois fiz foi um tigre. Pouco a pouco fui monstando o que fazia aos meus amigos e eles gostaram e queriam comprar as peças. Quando lhe disse que tinha sido eu, eles nem queriam acreditar. Foi asim que tudo começou".

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As obras de Idriss Beuronews

euronews: "Falemos do processo de fabrico, desde a inspiração para desenhar à realização da obra. São peças feitas de fibra de vidro e resina".

Idriss B: "Na verdade, já faço este trabalho há mais de cinco anos. No início, esculpia de forma tradicional. Agora há a impressão 3D e todo esse tipo de coisas. Atualmente, começo por desenhar à mão, no papel, a duas dimensões, só para obter a emoção certa e a pose certa do animal. E depois faço a obra em 3D. Imprimo em 3D e faço um molde. Normalmente, acabo por modificá-lo porque há uma diferença entre o que pensamos na nossa mente e o que desenhamos. Por isso modifico-o um pouco. Por exemplo, modifico a posição das pernas, o tamanho do polígono. Faço o molde quando estou totalmente satisfeito em relação a esses aspetos. Depois faço as peças com fibra de vidro e resina".

euronews: "O facto de ser francês e tunisino, criado em Paris, influenciou o seu trabalho?"

Idriss B: "Há um lado multicultural. Sobretudo agora que estou de volta a um país muçulmano, no Médio Oriente. A cultura é muito semelhante. Apesar de o Norte de África ser um pouco diferente, devido ao lado Mediterrânico que é um pouco similar, como em Itália, na Grécia e em Espanha. É um ambiente multicultural. Eu nasci nos anos 80, numa altura em que tudo girava em torno dos jogos de vídeo, de coisas japonesas. Foi um período de descoberta, descobrimos a influência do Japão e como esse país estava avançado. Isso influenciou-me muito. Depois, fui viver para a China, é uma cultura completamente diferente, vemos coisas diferentes e formas diferentes de fazer as coisas".

euronews: "Acha que encontrou um lar no Dubai para a sua arte, as suas obras estão espalhadas pela cidade? Porque razão parece tão natural, aqui?"

Idriss B: "É um ambiente muito urbano. O meio urbano pode ser assustador, com um lado desumano. Aqui há muito vidro, metal e betão. As minhas peças, apesar de serem feitas de fibra de vidro e resina, são coloridas e isso dá uma certa vida ao local. Devo dizer que não estava à espera que as obras fossem tão desejadas".

A arte suscita um sentimento. Quer seja boa ou má, a arte faz-nos sempre sentir algo. Podemos não gostar, mas sentimos algo. É por isso que as pessoas têm sido muito sensíveis à arte, especialmente neste momento por causa da Covid 19.
Idriss B
artista franco-tunisino

euronews: "Qual a importância da indústria da arte nos Emirados Árabes Unidos e no Dubai em particular?"

Idriss B: "É um setor muito desenvolvido. A arte é um pouco diferente do resto das coisas materiais, porque as pessoas podem comprar muitas coisas, mas, a arte tem a ver com criação e com emoção. É algo que não é para tocar é para sentir. Por isso, é algo muito importante para o Dubai e para os Emirados Árabes Unidos. Foi o que me disseram antes de eu vir para cá".

euronews: "Por que razão a arte é tão universal? Num ano que tem sido muito difícil no mundo inteiro por que é que as pessoas precisam de arte nas suas vidas?"

Idriss B: "Depende do tipo de arte, mas no final o que conta é a emoção. A arte suscita um sentimento. Quer seja boa ou má, a arte faz-nos sempre sentir algo. Podemos não gostar, mas sentimos algo. É por isso que as pessoas têm sido muito sensíveis à arte, especialmente neste momento por causa da Covid 19. Para muitas pessoas houve um contacto com a interioridade. Estavam sozinhas em casa ou viviam em casal. O que lhes deu muito tempo para pensar. Viraram-se para a arte, porque perceberam a importância de ter uma casa bonita, de ter seu ninho. E por isso as pessoas compram pinturas novas que suscitem um sentimento especial. É por isso que a arte é tão importante, porque suscita sentimentos".

euronews: "O acha do uso da arte em causas sociais ou políticas?"

Idriss B: "É uma boa pergunta. Acabei de fazer uma peça para o movimento Black Lives Matter. Foi muito interessante para mim. No fim de contas, a arte tem a ver com dar e com partilhar emoções. E transmitir a nossa visão. Quando vi tudo o o que estava a acontecer em relação ao movimento Black Lives Matter, pensei que tinha de fazer algo. Se posso fazer algo, gostaria de fazê-lo. Não vou aos Estados Unidos para protestar, mas posso fazer algo sozinho. Tive a ideia de fazer uma escultura especial dedicada ao movimento e dar-lhes o dinheiro angariado".

euronews: "É originário da Tunísia. Neste momento está a viver na Tunísia, temporariamente. Como é que a Covid 19 está a afetar o seu país?"

Idriss B: "As coisas não podem ficar piores do que estão hoje. É o lado positivo... não, honestamente, às vezes, pergunto-me como é que o país pode funcionar. O governo não funciona, a economia não funciona. Não temos turistas, as fronteiras estão fechadas. Acredito que eles estão a tentar encontrar uma saída, a melhor saída possível".