Newsletter Boletim informativo Events Eventos Podcasts Vídeos Africanews
Loader
Encontra-nos
NIGO fotografado no Design Museum
NIGO fotografado no Museu do Design Direitos de autor  Credit: Elliot James Kennedy
Direitos de autor Credit: Elliot James Kennedy
Direitos de autor Credit: Elliot James Kennedy

Japão: exposição em Londres mostra como NIGO redefiniu moda, música e cultura hype

De Theo Farrant
Publicado a
Partilhar Siga a Euronews no Google
Partilhar Close Button

A exposição «NIGO: From Japan With Love» reúne mais de 700 peças do arquivo pessoal do criador, traçando o percurso do fã de cultura americana adolescente ao designer global e diretor artístico da Kenzo.

Para muitas pessoas, o nome de NIGO pode não soar imediatamente familiar. Mas a sua influência está por todo o lado.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Nascido Tomoaki Nagao, o designer, DJ, produtor e empresário japonês, de 55 anos, é mais conhecido por ser o fundador do gigante do streetwear A Bathing Ape (BAPE), colaborador de longa data de Pharrell Williams e Virgil Abloh, e atual diretor artístico da Kenzo.

Muito antes de a moda se deixar fascinar por colaborações cruzadas, lançamentos limitados que geram entusiasmo e diretores criativos que circulam entre a música, o design e o luxo, NIGO já o fazia.

Agora, o Design Museum de Londres dedica a sua primeira grande retrospetiva a este criador influente. NIGO: From Japan with Love reúne mais de 700 objetos da sua carreira, incluindo peças de vestuário, objetos de coleção, mobiliário, memorabilia musical e peças do seu arquivo pessoal.

A exposição acompanha o percurso desde a adolescência, quando era obcecado pela cultura americana e pela coleção de discos, até se tornar numa das figuras culturais mais influentes das últimas três décadas.

A Euronews Culture falou com a curadora da exposição, Esme Hawes, sobre o legado de NIGO, o desafio de traduzir o seu vasto universo criativo para uma exposição e porque é que a sua coleção pessoal pode ser a chave para compreender tudo o que fez.

NIGO fotografado no Design Museum
NIGO fotografado no Design Museum Credit: Elliot James Kennedy

Euronews Culture: Qual foi a inspiração inicial para montar esta exposição e porque é que agora pareceu o momento certo?

Esme Hawes: NIGO é um nome muito conhecido na Ásia, mas na Europa e no mundo ocidental não é tão famoso – embora as pessoas reconheçam imediatamente as suas marcas. Podem é não fazer a ligação entre elas e a pessoa que está por detrás.

Queríamos muito explorar, no museu, qual é o papel de um diretor criativo, que é aquilo por que NIGO é mais conhecido. É menos um estilista tradicional, no sentido clássico, e mais um diretor criativo e construtor de marcas. Para nós, enquanto museu de design, isso é particularmente interessante, porque é uma visão muito contemporânea do que é ser designer hoje. Interessa-nos menos quem é brilhante a desenhar um croquis e mais quem consegue reunir colaboradores e, a partir daí, construir universos – e isso é algo que NIGO faz incrivelmente bem.

Também queríamos sublinhar que NIGO é um grande colecionador, e tem sido assim ao longo de toda a vida – penso que desde criança. Conserva praticamente toda essa coleção e usa-a quase como uma caixa de ferramentas, procurando nela inspiração e recorrendo a esses objetos em todos os seus projetos, mesmo agora, já na casa dos 50.

Vista da instalação - NIGO: From Japan with Love, no Design Museum de Londres
Vista da instalação - NIGO: From Japan with Love, no Design Museum de Londres Photo credit: Luke Hayes

Quão envolvido esteve NIGO na exposição?

NIGO esteve profundamente envolvido desde o início, o que para nós é extraordinário. É uma grande honra, porque NIGO é um colaborador excecional – vê-se isso em todas as marcas e projetos em que trabalhou. É muito raro trabalhar sozinho; integra muitos tipos diferentes de criadores e designers no seu processo.

Teve um papel central na seleção dos objetos em exibição. A maioria vem da sua própria coleção – cerca de 90%. Estive pessoalmente em Tóquio, onde o encontrei, falei com ele sobre a coleção, o que é importante para si, quais as peças preferidas – tudo para construir a narrativa da exposição. Também esteve muito envolvido no desenho da própria exposição, trabalhando com os nossos designers de exposições, tanto arquitetos como designers gráficos.

Alguma coisa a surpreendeu em NIGO quando o conheceu?

É um homem incrivelmente humilde para alguém com uma carreira tão impressionante e que trabalhou com os melhores dos melhores. Essa humildade surpreendeu-me, mas penso que é uma forma muito saudável de trabalhar.

Uma das grandes qualidades de NIGO é estar sempre disposto a aprender – e acho que é por isso que tem sido tão bem-sucedido. Essa capacidade de se ver quase como um estudante e sentir que há sempre muito para aprender e para melhorar é uma abordagem muito positiva.

Vista da instalação de NIGO: From Japan with Love no Design Museum
Vista da instalação de NIGO: From Japan with Love no Design Museum Credit: Luke Hayes

A exposição está dividida em quatro secções. Pode guiar-nos por elas?

Sim, são quatro secções, em grande medida cronológicas. Começamos com uma recriação do quarto de adolescente de NIGO. Ele guardou tudo desde cerca dos seis anos, o que é impressionante.

A partir daí, passamos a olhar para NIGO enquanto colecionador, porque, como dizia, a coleção é uma parte essencial da sua prática. Quando começamos a estudar essa coleção e já conhecemos bem a carreira, é possível traçar paralelos muito interessantes entre aquilo que coleciona, o que observa e o que depois acaba por criar.

Trabalhámos com a USM, uma empresa de mobiliário modular – NIGO usa de facto o mobiliário da marca para apresentar a coleção no estúdio que tem em Tóquio. Construímos quase uma recriação da forma como guarda a coleção, usando mobiliário USM.

Quarto de infância de Nigo recriado no Design Museum
Quarto de infância de Nigo recriado no Design Museum Photo credit: Luke Hayes

A terceira secção é, no fundo, sobre o “efeito NIGO” – uma alusão ao chamado “efeito Kate Middleton”. Quando Kate Middleton veste um vestido, esgota-se em todo o lado. A ideia de que, quando alguém se associa a uma marca, o seu nome e legado a tornam popular e desejável. NIGO não é apenas um colaborador de excelência para as suas próprias marcas; é hoje muito procurado por praticamente todos – Uniqlo, Adidas, Nike – grandes marcas que querem colaborar com ele.

A última secção mostra aquilo que hoje mais o interessa. NIGO está sempre à procura de novas formas de aprender e de alargar conhecimentos e entrou numa fase em que se fascina com a cultura e as práticas tradicionais japonesas. Está atualmente a formar-se como mestre de cerimónia do chá e cria também belos recipientes de cerâmica, que utiliza nessas cerimónias.

Quais foram as primeiras inspirações de NIGO?

Desde cerca dos seis anos, ficou completamente fascinado com o universo americano – tudo o que vinha dos Estados Unidos. Colecionava revistas americanas, brinquedos da Disney como o Donald Duck, coisas desse género. Isso acompanha o que se passava no Japão onde cresceu – um forte fluxo de influência americana resultante da guerra, algumas décadas antes. A cultura americana é uma parte enorme da sua coleção.

A moda também o interessava muito, por causa do interesse nas subculturas japonesas. Cresceu nos arredores de Tóquio, em Miyabashi, mas ia frequentemente à capital para visitar lojas de roupa em segunda mão e lojas de discos, andar de skate e simplesmente conviver com amigos. Começou a colecionar muito cedo e esteve sempre rodeado de cultura pop e subcultura desde a adolescência.

Diversas peças de roupa da coleção pessoal de Nigo em exposição no Design Museum
Diversas peças de roupa da coleção pessoal de Nigo em exposição no Design Museum Photo credit: Luke Hayes
Um casaco Levi da coleção pessoal de NIGO
Um casaco Levi da coleção pessoal de NIGO Credit: Satoshi Nagare

Há objetos de destaque que os visitantes devam procurar?

Logo numa das primeiras secções, há um casaco Levi’s que foi uma das primeiras peças de roupa vintage que NIGO comprou – penso que ainda era adolescente. Está completamente gasto e muito usado. Para ele foi uma peça entusiasmante, porque marcou a entrada no universo da roupa vintage.

Há uma história curiosa: ele mentiu à mãe sobre o preço, porque sabia que ela ficaria absolutamente chocada se descobrisse quanto tinha gasto naquele casaco de ganga rasgado.

Outra peça de que gosto muito é da fase inicial da Bape. É um boletim de encomenda da altura em que tinha acabado de criar a Bape e estava a pedir a produção de casacos e t-shirts – as primeiras peças que a Bathing Ape alguma vez vendeu. Na folha de encomenda vê-se que só está a pedir cinco unidades de cada produto, uma quantidade baixíssima.

Ele próprio contou que isso se devia à necessidade financeira do momento, mas acabou também por limitar o número de produtos e criar expectativa.

NIGO fotografado no Design Museum
NIGO fotografado no Design Museum Credit: Elliot James Kennedy

Quão importante é a música na exposição?

Muito. Como provavelmente sabe, NIGO é DJ, baterista, produtor – fez de tudo no mundo da música, lançou álbuns próprios e teve as suas editoras.

Queríamos que isso fosse uma parte central da mostra, e o próprio NIGO insistiu para que a música tivesse um papel de destaque.

Temos, por isso, uma estação de escuta com listas de reprodução selecionadas pelo próprio NIGO – música de artistas que produziu, ou bandas em que tocou, como os Teriyaki Boys, bem como de colaboradores seus.

Qual considera ser a maior influência de NIGO na moda?

A colaboração é fundamental – e a forma como olha para o design e a criatividade como um espectro amplo, em vez de encaixar as pessoas em nichos, sejam eles a moda ou a música.

Algo que NIGO faz muito bem é reunir criadores de várias disciplinas e desenvolver projetos que atravessam a moda, a arte, a música, o design – o que for. Isso é raro e muito particular da sua forma de trabalhar.

Nos desfiles de moda da Kenzo, por exemplo, escreve ele próprio a música ou convida um colaborador ou amigo para o fazer. Todo o espaço é desenhado por alguém com quem trabalha – um arquiteto ou designer. E, claro, ocupa-se da roupa. É uma produção total, em que cada pequeno elemento é pensado.

É uma visão abrangente e holística da criatividade e do design.

NIGO: From Japan with Love decorre até 4 de outubro de 2026 no Design Museum de Londres.

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Siga a Euronews no Google

Notícias relacionadas