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El Niño: quando atinge o pico e termina, cronologia completa

Indika Nuwankumara bebe água para matar a sede enquanto procura água num reservatório de rega que secou devido à seca em Medirigiriya, Sri Lanka.
Indika Nuwankumara bebe água para matar a sede enquanto procura água num tanque de rega seco devido à seca, em Medirigiriya, Sri Lanca. -  Direitos de autor  Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved.
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De Liam Gilliver
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El Niño “Godzilla” continua a intensificar-se no Pacífico: quando atinge o pico e quando termina?

2026 ficará para a história pelo que poderá tornar-se o maior episódio de El Niño de que há memória, numa altura em que o mundo se apressa a preparar-se para uma vaga de fenómenos meteorológicos extremos.

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O fenómeno meteorológico natural El Niño (em espanhol, ‘o rapaz’) ocorre de forma irregular – aproximadamente de dois em dois até sete em sete anos – quando as temperaturas da água do mar no Pacífico oriental se tornam invulgarmente elevadas. Os especialistas começaram a alertar para a formação de um El Niño forte no início deste ano, apoiados em grandes quantidades de calor acumulado abaixo da superfície do oceano e no enfraquecimento esperado dos ventos alísios perto da superfície.

Na primeira semana de junho, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou que as condições de El Niño estavam oficialmente instaladas. Já perto do final do verão, especialistas avisaram que o El Niño “sem precedentes” poderá transformar-se no maior evento desde o século XIX, ganhando a alcunha de ‘Godzilla’ ou de ‘Super El Niño’.

El Niño fica mais forte: que impactos?

Segundo a OMM (fonte em inglês), prevê-se que as temperaturas da superfície do mar no Pacífico tropical central e oriental atinjam valores recorde durante outubro, novembro e dezembro.

As anomalias de temperatura da superfície do mar na faixa equatorial centro-oriental do Pacífico, a região no coração de El Niño, são medidas pelo amplamente utilizado índice Niño 3.4. Este subiu de forma marcada, passando de uma média de +1,6 °C acima do normal em junho de 2026 para +2,5 °C em agosto.

Para o período outubro-novembro-dezembro, prevê-se que a anomalia média sazonal da temperatura da superfície do mar no índice Niño 3.4 atinja cerca de +3,7 °C. Seria o valor mais elevado desde o início das observações e mais forte do que o recorde anterior de +2,6 °C, registado entre novembro de 2015 e janeiro de 2016.

Episódios anteriores de El Niño contribuíram para temperaturas recorde, alimentando secas prolongadas, cheias repentinas e incêndios florestais mortais em várias regiões do planeta.

Os impactos meteorológicos de El Niño fazem-se sentir sobretudo nos trópicos, mas a Europa pode registar invernos mais suaves e chuvosos. Um pico de El Niño pode também enfraquecer o vórtice polar, aumentando a probabilidade de vagas de frio.

América do Sul, sul dos Estados Unidos, África Oriental e Ásia Central enfrentaram riscos acrescidos de cheias em episódios anteriores de El Niño, enquanto as secas e o risco de incêndios florestais aumentaram em grandes partes da Austrália, no norte da América do Sul e em alguns países asiáticos, como a Indonésia.

Os fenómenos extremos noutras regiões terão, ainda assim, efeitos indiretos na Europa. O Instituto IHE Delft para a Educação em Água, nos Países Baixos, trabalha em zonas diretamente afetadas por El Niño e alerta que muitos produtos alimentares básicos importados pela Europa podem estar em risco.

Na Nicarágua, por exemplo, culturas como o milho e o feijão podem perder-se em zonas já frágeis, provocando insegurança alimentar e perda de rendimentos no país. A falta de chuva e os baixos caudais dos rios significam também que as culturas irrigadas na Colômbia, no Nordeste do Brasil e na Índia enfrentarão fortes restrições ou terão de depender mais das águas subterrâneas, o que pode levar à sobreexploração e a quebras nas exportações.

Cronologia de El Niño: quando atinge o pico e quando termina?

Na sua declaração mais recente, a OMM indica que El Niño deverá atingir o pico em dezembro e prolongar-se até ao próximo ano.

“El Niño está firmemente estabelecido e a intensificar-se rapidamente”, alerta a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo. “As previsões da OMM apontam para uma probabilidade quase de 100 % de que persista até fevereiro de 2027, podendo ser um dos eventos mais fortes desde, pelo menos, 1950.”

Esta estimativa quase certa não resulta de um único modelo climático. A OMM coordenou dados de bóias oceânicas, satélites e radiossondas de 13 centros nacionais e internacionais para elaborar a previsão.

Não se espera que El Niño termine antes da primavera de 2027, mas os seus impactos deverão prolongar-se para lá dessa data. Por isso, os especialistas avisam que o próximo ano poderá tornar-se o mais quente de que há registo.

El Niño cruza-se com as alterações climáticas

A maioria dos episódios de El Niño aumenta a temperatura média global em cerca de 0,2 °C. Embora seja suficiente para desencadear condições meteorológicas extremas em grande parte do Sul Global, representa apenas uma fração do aquecimento adicional provocado pelas alterações climáticas.

O aquecimento global causado pela atividade humana, através da queima de combustíveis fósseis, já elevou as temperaturas médias da superfície do planeta entre 1,3 °C e 1,4 °C acima dos níveis pré-industriais. Foi isso que abriu caminho para o verão escaldante na Europa, a seca prolongada e os incêndios florestais mortais.

Hoje, os efeitos de El Niño somam-se a um mundo que já está a aquecer e que tem uma influência muito mais forte nos fenómenos extremos que estamos a observar. 2025, por exemplo, foi o terceiro ano mais quente de que há registo – mais quente do que o ano de El Niño de 2016 – apesar do arrefecimento natural associado à sua contraparte, La Niña.

Investigações recentes sugerem que as alterações climáticas estão também a potenciar os episódios de El Niño, tornando-os 36 % mais intensos do que antes da era industrial.

“El Niño não acrescenta novo calor ao planeta. Liberta o calor que o oceano já vinha a armazenar abaixo da superfície, razão pela qual um episódio forte acaba tantas vezes por ser um dos anos mais quentes medidos (como aconteceu em 2024)”, afirmou Saulo no Global Heat Forum, em Banguecoque, em outubro.

“O oceano de que retira essa energia é o mais quente que alguma vez medimos. Há simplesmente mais calor disponível para libertar.”

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